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D. José Ornelas diz que debate interno sobre mudanças na Igreja tem de levar a decisões

Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa deu uma entrevista de balanço dos dois mandatos à frente da CEP, que irá eleger na próxima semana o seu sucessor.

11 de abril de 2026 às 09:21

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) considerou este sábado que o debate interno sobre as alterações na Igreja terá de terminar com decisões do Papa, sem colocar em causa a capacidade da instituição agregar os fiéis.

"Têm de haver decisões, claro", afirmou à Lusa José Ornelas, numa entrevista de balanço dos dois mandatos à frente da CEP, que irá eleger na próxima semana o seu sucessor.

O sínodo, um processo de auscultação das bases sobre temas fraturantes como a ordenação de mulheres, o celibato dos padres ou o lugar dos divorciados e dos gays, foi iniciado por Francisco e caberá agora a Leão XIV tomar as decisões.

No final, será necessário definir o que deve ser aceite como prática religiosa, sem desvirtuar os valores católicos, procurando distinguir "o essencial" do resto, defendeu Ornelas.

"A diversidade não é inimiga da unidade" e "a Igreja não é um albergue onde cabe tudo, mas onde todos, todos, todos são convidados e onde participam à medida do seu caminho", disse José Ornelas, numa referência à expressão "todos, todos, todos", utilizada por Francisco em Lisboa.

Em todo o mundo, há "modos muito diferentes" de viver a fé e "o Evangelho tem de ser traduzido em cada uma das culturas".

E deu o exemplo do celibato dos sacerdotes: a "ordenação de homens casados é mais fácil de resolver e de perceber, até porque nós, dentro da mesma Igreja Católica, temos ritos diferentes e igrejas de tipo diferente", algumas das quais com essa prática.

Durante o debate sinodal em Roma, Ornelas foi abordado por um bispo ucraniano que lhes disse que os padres casados "são um grande serviço à Igreja" no seu país, que tem uma grande comunidade católica de rito oriental e em que se permite o casamento de sacerdotes.

"Dentro da mesma igreja temos disciplinas diferentes e temos também ritos diferentes", resumiu Ornelas, recordando que "não está escrito em nenhum Evangelho que os padres tenham de ser solteiros e Jesus tinha homens casados e solteiros na sua companhia".

Sobre a ordenação de mulheres, o presidente da CEP admite que o debate está mais atrasado, mas a criação do diaconado feminino (uma primeira ordenação sacerdotal como diácono, que tem menos poderes que os padres) é uma "forma de começar a perceber" o fenómeno e "vem ajudar a Igreja a fazer caminho" na reflexão interna.

Nestas matérias como outras, existe "um debate que está em causa e não se pode adiar eternamente" a decisão, "mas também não se pode tomar apressadamente".

Nos últimos dois mandatos à frente da CEP, que iniciou como bispo de Setúbal antes de ter transitado para Leiria-Fátima, Ornelas enfrentou a crise de abusos sexuais na Igreja ou a pandemia e recebeu o Papa na Jornada Mundial da Juventude (JMJ), em Lisboa.

A par disso, viveu "crises económicas e sociais que a economia provocou", primeiro em Setúbal e depois em Leiria-Fátima com a violência do comboio de tempestades que assolou a diocese, em janeiro deste ano.

Mas olhando para o passado, Ornelas destaca a responsabilidade de ter liderado a Igreja num tempo em que o Papa Francisco iniciou o processo de auscultação das bases.

"Foi uma abertura na Igreja a chegada do Papa Francisco" e "algo de novo começou na Igreja, um vento novo começou a soprar".

Estes seis anos constituíram experiências "novas e interessantes" e "não foi um tempo para se dormir na formatura", porque a sociedade exigia novas respostas da Igreja.

Depois da JMJ, a Igreja sentiu um "retorno de um tipo diferente" da prática religiosa, particularmente entre os jovens portugueses.

"Não quer dizer imediatamente o retorno a ir à missa", mas "há movimentos muito interessantes que surgiram" e verifica-se o aumento do batismo de adultos, em particular de jovens.

Em "momentos decisivos de mudança de cultura", como os que se vivem hoje, em "tempos radicais de mudança, em termos ideológicos e em termos tecnológicos, que criam instabilidade", o regresso da fé torna-se mais natural, salientou o bispo, considerando que a Igreja terá de se adaptar a esta nova procura de fiéis, mais centrados na espiritualidade e menos nos ritos.

"Os caminhos novos vão surgindo" e a resposta "vai ser certamente eclética" e já não centrada na visão europeia, salientou.

Dantes, era a "Europa que marcava o ritmo da fé" e hoje, com a chegada de Francisco, surgiu "um tipo diferente de Igreja", com quadros que não "dão tanta atenção aos autores europeus" que construíram a teologia cristã ao longo dos séculos.

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