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Estudantes dos PALOP queixam-se de atrasos nos vistos e dificuldades em Portugal

Rendas incomportáveis e barreiras curriculares são temas também apontados.

29 de março de 2026 às 08:15

Estudantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) em Portugal queixam-se de atrasos na emissão de vistos, rendas incomportáveis e barreiras curriculares que dizem transformar o sonho académico numa luta pela sobrevivência e saúde mental.

Bilkiça Câmara, estudante guineense na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, descreveu à agência Lusa uma realidade onde o sucesso académico é, muitas vezes, ensombrado por uma luta pela sobrevivência e regularização documental que afeta a maioria dos alunos internacionais, nomeadamente dos PALOP.

"Não é uma ou duas ou três pessoas que passam por isso, é a grande maioria dos estudantes que ingressam através do regime especial", disse, explicando que a demora no processo de emissão de vistos faz com que muitos cheguem a Portugal em dezembro ou março, quando os semestres já estão praticamente concluídos.

Este obstáculo é transversal a estudantes de outras nacionalidades da lusofonia.

Beatriz Pires, antiga aluna da Faculdade de Letras que veio de São Paulo, Brasil, disse que a documentação foi o maior entrave, ficando cerca de seis meses sem conseguir estudar.

Segundo Bilkiça Câmara, os alunos chegam tão atrasados que não conseguem fazer o primeiro ano por terem muitas unidades curriculares pendentes, e muitos dos que chegam em março, a meio do segundo semestre, desistem.

Esta chegada tardia gera um "desânimo total" e ainda estados de saúde mental "completamente destrutivos", diz a estudante guineense que contou que acompanha colegas a consultas de psicologia.

Céline Machaieie, estudante moçambicana no Instituto Superior Técnico, relatou que o seu visto demorou quase dois meses, resultando num primeiro semestre "praticamente perdido".

"Em vários momentos até já pensei em desistir e voltar para o meu país", contou.

Além da burocracia, a barreira económica é outro obstáculo apontado, pois no mercado de arrendamento privado os quartos rondam os "400 ou 500 euros", valores incomportáveis para os alunos que chegam sozinhos.

Esta pressão financeira empurra muitos dos estudantes para empregos precários e exploração laboral, onde acabam por abandonar os estudos para garantirem o sustento, de acordo com Bilkiça Câmara.

"Eles têm que decidir ou continuam com os estudos ou continuam a trabalhar para os sustentar. E muitos acabam por escolher a segunda opção, que é trabalhar para se sustentar", lamentou.

As estudantes apontam ainda a diferença entre os currículos dos seus países de origem e o sistema português.

Bilkiça Câmara criticou o ensino "muito voltado à Europa e aos Estados Unidos", sublinhando que as visões africanas ou asiáticas, quando ensinadas, mantêm uma perspetiva eurocêntrica.

Também Céline notou que os conteúdos que em Moçambique apenas seriam abordados no ensino superior, em Portugal já fazem parte do currículo secundário, exigindo um "esforço extra".

As estudantes relataram também episódios de preconceito como a exclusão em trabalhos de grupo ou a diferenciação por serem mulheres negras.

"O trabalho de acolhimento e integração efetivo não está a ser feito. Em muitas universidades, os estudantes chegam cá e estão completamente sozinhos, sem saber se virar. Eu não vejo universidades a dedicarem o seu tempo para mostrar a faculdade aos estudantes, para disponibilizar mentorias ou tutorias", declarou Bilkiça Câmara.

Beatriz Pires confirma esta visão e disse que o apoio acaba por vir apenas dos próprios estudantes que criaram núcleos para ajudar quem passa pelo mesmo.

"A gente sabe exatamente o que é exclusão, o que é ter um professor que fala que nós não sabemos escrever", disse a estudante brasileira.

Como resposta, pedem medidas concretas às instituições de ensino superior. Céline e Bilkiça sugerem a criação de dias abertos e mentorias, além de aulas de apoio para colmatar as diferenças curriculares.

"Tem que haver maior sensibilização e reconhecer que estes estudantes têm dificuldades, acabaram de chegar, estão aqui sozinhos, precisam de ser integrados academicamente, social e cultural", disse a jovem guineense, concluindo que "não adianta quererem estudantes estrangeiros (...) se não trabalham a sério para integrar e alcançar esses estudantes".

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