Testemunhas contam que o vento "arremessou pedras, areia, ferros e até partes de telhados" contra a carrinha onde seguia a família.
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Dez minutos de terror, às escuras e com uma nuvem de pó formada por areia da praia da Figueira da Foz, arrastada pelo vento extremo, foram vividos hoje de madrugada por duas famílias donas de divertimentos que ficaram destruídos.
Em declarações à agência Lusa, Nelson Viegas, proprietário, com o irmão, de 12 divertimentos instalados no parque de estacionamento da avenida de Espanha, conhecido como parque das Gaivotas, junto à praia e barra do rio Mondego, relatou o "puro terror" vivido pelas duas famílias, quando tentavam abrigar-se dos efeitos da depressão Kristin.
O empresário, oriundo de Porto de Mós, no distrito de Leiria, afiançou ter tudo preparado para fazer face ao anunciado temporal da madrugada, com as infraestruturas presas por cintas e outras proteções, mas vincou que "nunca viveu nada" do género, quando a depressão Kristin -- qualificada pelo IPMA como "ciclogénese explosiva", termo utilizado para depressões de forte intensidade, tanto em vento como em chuva -- atingiu a Figueira da Foz, no litoral do distrito de Coimbra.
Nelson Viegas contou que ele e os familiares -- entre os quais várias crianças -- tinham previsto pernoitar em caravanas instaladas no parque das Gaivotas, juntos aos divertimentos de que são proprietários, como habitualmente fazem desde há seis anos. No entanto, optaram por sair para um local mais abrigado, nas imediações, em duas carrinhas de transporte.
Depois de uma noite de vento quase inexistente, por volta das 05:10 "levantou-se um vento forte, com a poeira da areia, e faltou a luz da rua".
O vento "arremessou pedras, areia, ferros e até partes de telhados, contra a carrinha", levando os dois irmãos a conduzir em direção ao chamado Bairro Novo -- a zona turística onde se situam o Casino, hotéis, bares e restaurantes - quase às cegas, numa vã tentativa de fugirem ao temporal.
"Nunca vivi nada assim, parecia que estava no meio de cavalos, a correrem de um lado para o outro, com os barulhos das patas e o chão a levantar", ilustrou o empresário.
O terror durou 10 minutos, até receberem um telefonema de um familiar, a avisar que a roda gigante, adjacente aos seus divertimentos, tinha caído.
"Se caiu a roda, os nossos divertimentos também caíram", pensou, e esse cenário confirmou-se: no regresso ao parque, as caravanas estavam "viradas de pernas para o ar" e apenas três dos 12 carrosséis não foram atingidos.
Na conversa com a Lusa, Nelson Viegas olha para a outrora roda gigante, propriedade de outro empresário de diversões, agora um amontoado de ferros retorcidos e placas de metal, que, de vez em quando, se vão soltando da estrutura, caindo com estrondo no chão.
"Este equipamento aguenta uma média de velocidade de vento de 160 quilómetros (km) por hora. Teve de ser uma rajada de 190 a 200 km por hora para virar pela base uma estrutura destas, que é em ferro, tem aberturas e o vento passa", estimou.
Quanto aos seus equipamentos de diversão, apesar de possuírem seguro, Nelson Viegas manifestou a dificuldade em recomeçar a atividade.
"Eu choro, o meu irmão chora, está aqui uma vida de trabalho, recomeçar agora é difícil. Daqui por uma semana íamos embora fazer a feira em Abrantes e não sabemos como nos vamos aguentar este mês, porque a vida continua e há despesas para pagar", lamentou.
Debaixo do amontoado de ferro em que se transformou a roda gigante, a reportagem da Lusa vislumbrou, logo ao início do dia, uma viatura ligeira de passageiros que ali estava estacionada, miraculosamente intacta e sem qualquer dano visível, a destoar totalmente do caos em redor.
O condutor do carro, propriedade de uma empresa de aluguer de automóveis, residente em Souselas, arredores de Coimbra, estava na Figueira da Foz com um amigo açoriano, de visita ao continente, tendo ambos ficado alojados num hotel das proximidades.
No sexto andar da unidade hoteleira, a sala de pequenos-almoços permite uma panorâmica sobre a barra do porto da Figueira da Foz, parte da praia e, claro, o parque de estacionamento onde a roda gigante está, agora, tombada e destruída e alvo de uma 'romaria' de dezenas, centenas de curiosos, que, a pé ou de carro, fazem questão de ali passar, parar e tirar fotografias.
Mas os dois amigos, à mesa para a primeira refeição do dia, não se aperceberam, imediatamente, desse facto. Só quando se levantaram para sair é que o açoriano de Ponta Delgada, Hermano Fragoso, exclamou, ao olhar para o horizonte marítimo: "Olha, a roda caiu". Ato contínuo, João Oliveira, o condutor da viatura, completou: "... e o nosso carro está ali debaixo".
O episódio motivou, naquele mesmo espaço, uma divertida conversa, entre gargalhadas, com a Lusa, com o 'sortudo' João Oliveira, incrédulo, a recusar-se a acreditar que a viatura de aluguer não tinha um único risco visível, por ter escapado ao impacto com a estrutura metálica quando esta caiu com a força do vento.
Recordou que, na noite anterior, decidiu estacionar o carro no meio do parque, em espaço aberto, aparentemente longe dos equipamentos de diversão e dos postes de iluminação, já avisado do anunciado temporal.
A viatura foi alugada no dia anterior, tendo o condutor contratualizado um seguro com proteção total, de franquia zero, para não ter problemas face a um eventual acidente. Afinal, a roda gigante haveria de cair em cima do Skoda, mas este safou-se sem mácula e João Oliveira até conseguiu retirar o carro e conduzir, sem qualquer problema, para fora do parque, ao final da manhã de hoje.
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