Além de Lisboa, 15 outras localidades responderam este sábado ao apelo da plataforma Casa para Viver.
Carolina e Arturo mal conseguem arrendar um quarto e este sábado saíram à rua em Lisboa, com mais de mil pessoas, pelo direito à habitação e para exigir medidas que garantam que as ruas da capital não se tornem casa.
"O preço das casas está completamente incomportável e a habitação é um direito. Se não sairmos agora à rua, um dia estamos nós na rua", alertou Carolina Silva.
A jovem de 24 anos foi uma das mais de mil pessoas que se manifestaram este sábado em Lisboa em defesa do direito à habitação, num protesto que percorreu a Avenida da Liberdade até à Praça dos Restauradores, numa das zonas mais caras da capital.
Segundo um relatório do Conselho Europeu, Lisboa é a cidade da União Europeia (UE) onde os habitantes destinam uma maior percentagem do salário para pagar a habitação (a proporção entre o salário e a renda é de 116%, o que significa que apenas um rendimento médio não chega para alugar um apartamento) e a subida constante dos preços torna cada vez mais difícil o sonho de ter casa própria.
Carolina Silva diz não ter sequer perspetivas de o conseguir. "Vivo numa casa partilhada com colegas de casa, com uma renda que também continua a aumentar", contou à Lusa, sublinhando que o salário mal chega.
Dez anos mais velho, Arturo Rodriguez partilha dificuldades semelhantes e diz que o que ganha enquanto investigador mal chega para pagar a renda de um quarto.
Ainda assim, o espanhol, que vive e trabalha em Lisboa, considera que o problema vai além de qualquer governo.
Crítico das políticas do executivo de Luís Montenegro, Arturo acrescenta, por outro lado, que, apesar da abordagem diferente do Governo de Espanha - onde, na sexta-feira, foi aprovado um diploma para congelar as rendas -, a situação "é muito semelhante".
"Todas as políticas progressistas são engolidas pelo aumento das rendas e pelo aumento da inflação. Foi o que aconteceu aqui com o governo da geringonça. As ideias eram boas, a política era boa, mas, enquanto a riqueza estiver nas mãos de um punhado de parasitas, a política do Governo não pode mudar muita coisa", argumentou.
Na marcha de este sábado, promovida pela plataforma Casa Para Viver sob o mote "Já não dá! Voltamos à rua por Casa para Viver!", entre os manifestantes encontravam-se também muitas pessoas que beneficiaram de um contexto em que era mais fácil comprar casa própria, mas nem por isso deixam de solidarizar-se.
José Caldeira é um desses exemplos. Qualificou a crise na habitação como "a maior crise social que a cidade de Lisboa e o país vivem".
"É a crise da habitação, a crise dos despejos, a crise dos preços inacessíveis à maioria da população e a crise do acentuar de um ciclo de pobreza pela falta de habitação para os mais pobres e para a classe média", sublinhou o economista de 62 anos.
Apontando o aumento galopante dos preços da habitação, sem correspondência no crescimento dos salários, José Caldeira admite temer pelo futuro, não tanto pelo seu, mas sobretudo pelo da filha de 22 anos.
"É óbvio que vai defrontar o problema da habitação como a esmagadora maioria dos jovens hoje defronta. Ainda não tenho esse problema em casa, mas é um problema gravíssimo", afirmou.
À volta de José Caldeira, bandeiras e cartazes pintavam a Avenida da Liberdade, com mensagens como "Em vez de controlarem o meu corpo, controlem as rendas", "55 prédios: é o Luís a colecionar" e "Fartos de escolher pagar renda ou comer".
O ritmo, marcado pelo som dos tambores, era completado com palavras de ordem gritadas pelos manifestantes: "Menos renda e mais salário", "Do bairro à cidade, queremos dignidade" ou "A cidade é para morar, não é só para trabalhar".
Em representação da plataforma Casa Para Viver, Alessandra Guedes Melo insistiu nas críticas às medidas aprovadas pelo Governo para responder ao problema da habitação e recordou as mais recentes, para agilizar despejos em casos de incumprimento no arrendamento e desbloquear heranças indivisas.
"O Governo está a pensar no mercado e na exploração das casas como bens e não como casas para as pessoas que realmente precisam delas", criticou a porta-voz, argumentando que as medidas deitam gasolina sobre o problema.
Outra das manifestantes, Cristina Dias, juntou-se ao protesto por solidariedade. Depois de alguns anos a viver em Bruxelas, onde trabalhou na União Europeia, vendeu o apartamento em 2010 e regressou a Lisboa, onde comprou uma casa.
"Se fosse hoje não sei se conseguia, porque Lisboa está muito mais caro que Bruxelas", admitiu.
Além de Lisboa, 15 outras localidades responderam este sábado ao apelo da plataforma Casa para Viver.
No centro do Porto, cerca de 500 pessoas aderiram à iniciativa e no Funchal, na Madeira, concentraram-se perto de três dezenas de participantes.
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