Associação salientou que se a onda de calor se prolongar durante cerca de duas semanas "será certamente um problema".
Os hospitais estão a reforçar equipas e a libertar camas para responder ao previsível aumento da procura provocado pelo calor extremo, mas a prioridade deve ser prevenir que os mais vulneráveis adoeçam, defende a associação de administradores hospitalares.
Perante as previsões do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) de um "longo período com tempo quente e seco", o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH), Xavier Barreto, disse à agência Lusa que o impacto nos hospitais dependerá sempre da duração do episódio de calor extremo.
O responsável salientou que se a onda de calor se prolongar durante cerca de duas semanas, como aconteceu em 2003 ou como está atualmente a verificar-se em várias regiões da Europa Central, "será certamente um problema".
Para responder à situação, as unidades locais de saúde (ULS) estão a "escalar a resposta" em função da procura que estão a ter, como fazem noutro tipo de situações em que há um aumento de procura. "Estão a aumentar as equipas, a escalar mais pessoas, a libertar camas para poder acomodar as pessoas que certamente vão entrar nos serviços de urgência, mas o foco deve ser o foco do país como um todo", defendeu.
Para Xavier Barreto, a prioridade deve ser "tentar prevenir, antecipar e evitar que as pessoas fiquem doentes" e cheguem a precisar de cuidados hospitalares, através de uma resposta articulada entre o Ministério da Saúde, autarquias, unidades locais de saúde e comunidades.
Entre as maiores preocupações estão as populações mais vulneráveis, nomeadamente idosos, pessoas com doenças crónicas ou respiratórias e residentes em habitações sem condições adequadas de isolamento térmico, sobretudo no interior do país.
"Não podemos condenar estas pessoas a passarem 15 dias dentro de uma casa com temperaturas acima dos 30 graus. Isso é uma receita certa para que um idoso ou um doente crónico acabe por agravar o seu estado de saúde e entrar pela urgência", disse Xavier Barreto à Lusa, à margem da conferência "Inovação em Saúde, Despesa ou Investimento?", que está a decorrer em Lisboa.
Xavier Barreto considerou positiva a estratégia anunciada pelo Ministério da Saúde, que passa pela criação de refúgios climáticos em articulação com as ULS e os municípios, para acolher temporariamente pessoas que não disponham de condições para enfrentar o calor nas suas habitações.
Para o presidente da APAH, a adaptação poderá ser rápida, recorrendo a infraestruturas já existentes, como equipamentos desportivos ou culturais sob gestão municipal. "Se conseguimos criar hospitais de campanha durante a pandemia de Covid-19, muito mais facilmente conseguiremos adaptar espaços climatizados para receber estas pessoas nos períodos de maior aflição", defendeu.
A identificação das pessoas mais vulneráveis deverá envolver uma rede alargada, com participação das autarquias, juntas de freguesia, centros de saúde e médicos de família, que conhecem melhor os doentes com maior risco.
Xavier Barreto recordou que em algumas regiões de França a procura pelos serviços de urgência aumentou mais de 50% durante episódios de calor extremo, cenário que Portugal poderá enfrentar caso a onda de calor seja prolongada e não sejam implementadas medidas eficazes de prevenção.
O responsável sublinhou ainda que as alterações climáticas tornarão estes episódios cada vez mais frequentes, defendendo que o país deve investir numa maior resiliência coletiva. Além da resposta das autoridades, considera que também as comunidades têm um papel importante, incentivando os cidadãos a identificarem e acompanharem idosos e pessoas mais frágeis nas suas ruas, aldeias ou bairros.
Questionado sobre o impacto do período de férias na disponibilidade de profissionais de saúde, Xavier Barreto reconheceu que se trata de "um desafio", mas mostrou confiança na capacidade de resposta do SNS.
"Nestes períodos mais críticos, os profissionais de saúde demonstram uma disponibilidade redobrada. Vimos isso durante a Covid e em outras crises. Muitas vezes nem sequer precisam que os chamem, porque percebem que depende deles o sucesso desta resposta", concluiu.
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