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Já conhece as ‘novelas de fruta’? Saiba que consequências emocionais podem ter nas crianças

Ana Fraga Silva, psicóloga, explica como podem estas histórias criadas com inteligência artificial "alimentar inseguranças, normalizar padrões negativos e dificultar as relações”.

24 de abril de 2026 às 15:54

Num deslizar aparentemente inocente na rede social TikTok, morangos apaixonam-se, bananas traem e abacates sofrem em silêncio. As chamadas ‘novelas de fruta’, criadas com recurso a inteligência artificial, tornaram-se um fenómeno viral assente em episódios curtos e narrativas de conflito. Por detrás do humor e do absurdo, surgem histórias marcadas por ciúmes, manipulação e relações tóxicas. Os conteúdos são frequentemente consumidos por públicos jovens.

Num dos vídeos analisados, uma banana com traços musculados dirige-se a um pêssego, representado como figura feminina, e diz: “O que é que te aconteceu? Agora, tens mais dobras do que uma padaria”, menosprezando e humilhando esta personagem pelo facto de ser 'gorda'. O conteúdo, com quase 17 mil gostos e sete mil partilhas, é apenas um dos exemplos que reflete uma tendência e que pode reforçar estereótipos e preconceitos. Nos vários exemplos observados para esta reportagem, a figura feminina surge quase sempre como vítima.

O alcance destas páginas traduz o impacto do fenómeno. O consumo contínuo alimenta o algoritmo, que por sua vez amplia a visibilidade destes conteúdos. Mas que efeitos podem ter estas narrativas na perceção das relações? E que implicações existem quando o público inclui crianças?

“Conteúdos simples, rápidos e fáceis de consumir, ativam emoções imediatas”

Para compreender o impacto emocional desta tendência, o CM ouviu Ana Fraga Silva, psicóloga clínica e da saúde, que analisou vários destes vídeos.

“A curiosidade pelo drama, pelas relações, curiosidade em sentir emoções intensas. Como são conteúdos simples e rápidos e fáceis de consumir, ativam emoções imediatas”, explica.

A especialista alerta que o que é muitas vezes visto como entretenimento pode traduzir-se numa “exposição repetida a dinâmicas relacionais não muito saudáveis”.

O facto de as personagens serem desenhos animados, com o corpo reproduzido as pestanas delineadas ou até com maquilhagem, não elimina esse impacto. “Como é em tom de caricatura, existem menos críticas e torna o conteúdo mais leve e pode fazer com que as pessoas absorvam as mensagens sem se questionar”, refere.

Economia de atenção e estímulos 

Segundo Ana Fraga Silva, o facto de vivermos numa constante "economia de atenção" aumenta o interesse por conteúdos digitais curtos e isso ajuda a explicar a popularidade deste formato. “Estas narrativas ativam mecanismos psicológicos muito básicos. Atenção ao conflito, curiosidade sobre relações”, afirma. “Há uma necessidade de perceber como se resolve o conflito e como são histórias em formato curto criam micro-histórias com tensão e uma recompensa emocional obrigatória, o que prende o cérebro e de forma muito eficaz em relação àquilo que é um vídeo mais longo”, acrescenta.

Questionada sobre a possibilidade da normalização de relações tóxicas, a resposta é clara: “Quando a manipulação e a traição aparecem de forma recorrente, sem grandes consequências [...] óbvio que há um maior risco de considerar estes comportamentos algo normativo”.

Quanto às consequências, sublinha: “a constante exposição ao drama pode criar um ciclo de emoções intensas, como o conflito e a ansiedade, porque são continuamente estimulados”.

Que impactos podem estes conteúdos ter nas crianças? 

Em Portugal, a 12 de fevereiro, foi aprovado em plenário um projeto de lei que restringe o acesso de menores de 16 anos a redes sociais e outras plataformas digitais, permitindo-o apenas com autorização parental. Antes dos 13 anos, o acesso é totalmente proibido.

Ao nível europeu, o regime temporário criado em 2021 para combater conteúdos de abuso sexual infantil nas redes sociais deixou de vigorar neste mês de abril, após cinco anos, por falta de acordo entre o Parlamento e o Conselho Europeu quanto à sua continuidade. As crianças estão agora mais expostas a imagens e vídeos que incentivam o abuso sexual infantil. 

Para a psicóloga, a exposição precoce continua a ser um dos principais pontos de preocupação. “A exposição precoce pode confundir a compreensão das relações”, alerta.

“As crianças ainda não estão formatadas para esta realidade, ainda estão a formar referências sobre o que é saudável e aquilo que não é”, refere.

A especialista considera que o facto de muitos menores já terem contacto com este tipo de conteúdos influencia o desenvolvimento neurológico. “Estes conteúdos podem alimentar inseguranças, normalizar padrões negativos e dificultar as relações”, afirma.

Proibição é a solução? Como devem os pais agir? 

Quanto ao papel dos adultos, defende que a resposta não deve passar apenas pela proibição. “Mais do que proibir, é necessário acompanhar e conversar com as crianças. Acima de tudo, estar presente”, diz.

Entre as estratégias, aponta a importância de questionar e contextualizar. “Perguntar às crianças o que perceberam sobre o vídeo, ajudar a distinguir ficção da realidade e estar atenta ao que a criança está a ver”.

E acrescenta a necessidade de reforçar aspetos positivos: “explicar que se trata de ficção e como são as relações saudáveis, que devem ser baseadas no respeito”.

A promoção do pensamento crítico é outro dos aspetos destacados pela profissional. “Desenvolver o pensamento crítico e a importância de nas relações sabermos colocar limites”, sublinha, lembrando que os próprios adultos devem dar o exemplo.

“Com toda a informação que temos hoje em dia, os pais devem tentar pelo menos ter discernimento e sensibilidade para garantir que a criança vai crescendo com noções de uma relação saudável”, remata.

Ana Fraga Silva conclui que “a chave é realmente transformar o conteúdo numa oportunidade de aprendizagem e não apenas num motivo de controlo”.

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