Ana Fraga Silva, psicóloga, explica como podem estas histórias criadas com inteligência artificial "alimentar inseguranças, normalizar padrões negativos e dificultar as relações”.
Num deslizar aparentemente inocente na rede social TikTok, morangos apaixonam-se, bananas traem e abacates sofrem em silêncio. As chamadas ‘novelas de fruta’, criadas com recurso a inteligência artificial, tornaram-se um fenómeno viral assente em episódios curtos e narrativas de conflito. Por detrás do humor e do absurdo, surgem histórias marcadas por ciúmes, manipulação e relações tóxicas. Os conteúdos são frequentemente consumidos por públicos jovens.
Num dos vídeos analisados, uma banana com traços musculados dirige-se a um pêssego, representado como figura feminina, e diz: “O que é que te aconteceu? Agora, tens mais dobras do que uma padaria”, menosprezando e humilhando esta personagem pelo facto de ser 'gorda'. O conteúdo, com quase 17 mil gostos e sete mil partilhas, é apenas um dos exemplos que reflete uma tendência e que pode reforçar estereótipos e preconceitos. Nos vários exemplos observados para esta reportagem, a figura feminina surge quase sempre como vítima.
O alcance destas páginas traduz o impacto do fenómeno. O consumo contínuo alimenta o algoritmo, que por sua vez amplia a visibilidade destes conteúdos. Mas que efeitos podem ter estas narrativas na perceção das relações? E que implicações existem quando o público inclui crianças?
“Conteúdos simples, rápidos e fáceis de consumir, ativam emoções imediatas”
Para compreender o impacto emocional desta tendência, o CM ouviu Ana Fraga Silva, psicóloga clínica e da saúde, que analisou vários destes vídeos.
“A curiosidade pelo drama, pelas relações, curiosidade em sentir emoções intensas. Como são conteúdos simples e rápidos e fáceis de consumir, ativam emoções imediatas”, explica.
A especialista alerta que o que é muitas vezes visto como entretenimento pode traduzir-se numa “exposição repetida a dinâmicas relacionais não muito saudáveis”.
O facto de as personagens serem desenhos animados, com o corpo reproduzido as pestanas delineadas ou até com maquilhagem, não elimina esse impacto. “Como é em tom de caricatura, existem menos críticas e torna o conteúdo mais leve e pode fazer com que as pessoas absorvam as mensagens sem se questionar”, refere.
Economia de atenção e estímulos
Segundo Ana Fraga Silva, o facto de vivermos numa constante "economia de atenção" aumenta o interesse por conteúdos digitais curtos e isso ajuda a explicar a popularidade deste formato. “Estas narrativas ativam mecanismos psicológicos muito básicos. Atenção ao conflito, curiosidade sobre relações”, afirma. “Há uma necessidade de perceber como se resolve o conflito e como são histórias em formato curto criam micro-histórias com tensão e uma recompensa emocional obrigatória, o que prende o cérebro e de forma muito eficaz em relação àquilo que é um vídeo mais longo”, acrescenta.
Questionada sobre a possibilidade da normalização de relações tóxicas, a resposta é clara: “Quando a manipulação e a traição aparecem de forma recorrente, sem grandes consequências [...] óbvio que há um maior risco de considerar estes comportamentos algo normativo”.
Quanto às consequências, sublinha: “a constante exposição ao drama pode criar um ciclo de emoções intensas, como o conflito e a ansiedade, porque são continuamente estimulados”.
Que impactos podem estes conteúdos ter nas crianças?
Em Portugal, a 12 de fevereiro, foi aprovado em plenário um projeto de lei que restringe o acesso de menores de 16 anos a redes sociais e outras plataformas digitais, permitindo-o apenas com autorização parental. Antes dos 13 anos, o acesso é totalmente proibido.
Ao nível europeu, o regime temporário criado em 2021 para combater conteúdos de abuso sexual infantil nas redes sociais deixou de vigorar neste mês de abril, após cinco anos, por falta de acordo entre o Parlamento e o Conselho Europeu quanto à sua continuidade. As crianças estão agora mais expostas a imagens e vídeos que incentivam o abuso sexual infantil.
Para a psicóloga, a exposição precoce continua a ser um dos principais pontos de preocupação. “A exposição precoce pode confundir a compreensão das relações”, alerta.
“As crianças ainda não estão formatadas para esta realidade, ainda estão a formar referências sobre o que é saudável e aquilo que não é”, refere.
A especialista considera que o facto de muitos menores já terem contacto com este tipo de conteúdos influencia o desenvolvimento neurológico. “Estes conteúdos podem alimentar inseguranças, normalizar padrões negativos e dificultar as relações”, afirma.
Proibição é a solução? Como devem os pais agir?
Quanto ao papel dos adultos, defende que a resposta não deve passar apenas pela proibição. “Mais do que proibir, é necessário acompanhar e conversar com as crianças. Acima de tudo, estar presente”, diz.
Entre as estratégias, aponta a importância de questionar e contextualizar. “Perguntar às crianças o que perceberam sobre o vídeo, ajudar a distinguir ficção da realidade e estar atenta ao que a criança está a ver”.
E acrescenta a necessidade de reforçar aspetos positivos: “explicar que se trata de ficção e como são as relações saudáveis, que devem ser baseadas no respeito”.
A promoção do pensamento crítico é outro dos aspetos destacados pela profissional. “Desenvolver o pensamento crítico e a importância de nas relações sabermos colocar limites”, sublinha, lembrando que os próprios adultos devem dar o exemplo.
“Com toda a informação que temos hoje em dia, os pais devem tentar pelo menos ter discernimento e sensibilidade para garantir que a criança vai crescendo com noções de uma relação saudável”, remata.
Ana Fraga Silva conclui que “a chave é realmente transformar o conteúdo numa oportunidade de aprendizagem e não apenas num motivo de controlo”.
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