Ministério Público analisa queixa e recolhe depoimento da mulher que denunciou o caso. "Não diga a ninguém porque senão eu vou preso”, disse-lhe o clínico.
“Não diga a ninguém, se não vou preso”: utente garante que médico lhe tentou vender injeção nas urgências de hospital
Uma utente de 54 anos que no Serviço de Urgência do Hospital das Caldas da Rainha foi confrontada por um médico que lhe tentou vender injeções de cortisona para combater dores na coluna foi ouvida pelo Ministério Público, que está a analisar a queixa que apresentou contra o clínico, de 69 anos, contratado por uma empresa que presta serviços à unidade hospitalar.
“O médico disse-me que as injeções faziam bem e que eu tinha de levar duas por ano. Por cada uma, tinha de pagar 75 euros, porque eram dele e andava à procura de um espaço nas Caldas da Rainha para poder dar as injeções. Comecei a desconfiar porque eu nunca sido obrigada a pagar mais do que a taxa moderadora no hospital e até teria de fazê-lo diretamente ao médico, em vez de na secretaria”, contou ao CM Matilde Rodrigues.
“Respondi-lhe que não tinha comigo o dinheiro para a primeira injeção, mas ele disse que ia dá-la na mesma e confiar que às oito horas da noite do dia seguinte eu voltava para lhe pagar”, relatou, adiantando que recebeu um aviso do médico: “Não diga a ninguém porque senão eu vou preso”.
A utente diz ter ficado ainda mais desconfiada por ser o médico a administrar-lhe a injeção e não um enfermeiro. Estranhou igualmente as novas palavras que ouviu: “Tem que ser rápido para ninguém ver”.
“Fechou a porta do consultório, disse-me para respirar fundo, não mandou deitar nem sentar e deu-me uma injeção na nádega”, descreveu Matilde Rodrigues, que, no dia seguinte, em vez de pagar, apresentou uma reclamação no hospital.
Um elemento da administração da Unidade Local de Saúde do Oeste pediu desculpa pelo sucedido e combinou com a utente uma forma de desmascarar em flagrante o médico, na altura em que iria ter com ele para supostamente lhe entregar o dinheiro.
O clínico tentou disfarçar a situação, mas a administração acabaria por contactar a empresa que o contratou para que não prestasse mais serviço naquele hospital, dispensa que só se efetivou no mês de maio, cerca de dois meses após este episódio.
Matilde Rodrigues também se deslocou à PSP para apresentar queixa contra o médico e foi ouvida pela Polícia Judiciária. O caso está a ser investigado pelo Ministério Público.
“Eu acho que é uma coisa que não se faz. E não só por mim, mas também pelos outros utentes, para ver se ele não volta a fazer isso a mais ninguém”, justificou, apontando ainda que “os efeitos da injeção não foram nenhuns, porque as dores mantêm-se”.
“A Unidade Local de Saúde do Oeste repudia este tipo de procedimento”, manifestou a administração ao CM, revelando que comunicou o caso à Ordem dos Médicos.
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