A aplicação da membrana amniótica (parte interior da placenta) no tratamento de queimaduras graves ou lesões na córnea permite a regeneração da pele.
Este tratamento com tecido humano está a ser utilizado em vítimas que sofreram queimaduras graves (provocadas num incêndio, por derrame de líquidos a ferver ou de produtos químicos ou ainda vítimas de acidentes de viação que sofreram esfolamentos graves da pele) e em pacientes com lesões na córnea provocada por conjuntivites graves.
Maria da Cruz, responsável pelo Gabinete Coordenador de Colheita e Transplantação do Hospital de São José (Lisboa), explica ao Correio da Manhã que a colheita da membrana amniótica é possível graças à doação das grávidas saudáveis, que têm os filhos através de cesariana e não por parto natural, isto para "evitar qualquer tipo de contaminação do tecido". Para doar tecido, a grávida tem de assinar um formulário de consentimento.
As colheitas de membrana amniótica no Hospital de São José aumentaram desde que a unidade hospitalar iniciou esta actividade, em Maio de 2007: no segundo semestre desse ano, fez 17 colheitas. Em 2008 foram 45 e, em 2009, foram realizadas 59 colheitas.
No ano passado, verificaram-se 102 colheitas, um aumento justificado com a entrada na actividade do Gabinete de Colheitas das recolhas realizadas nas maternidades dos hospitais Garcia de Orta (Almada) e Cuf Descobertas (Lisboa).
A membrana é colocada numa arca selada e fechada com fita adesiva inviolável. O produto é criopreservado (conservado a quatro graus negativos) e submetido posteriormente a várias análises e tratamentos no Centro de Histocompatibilidade do Sul, responsável pela colheita e transplante de órgãos e tecidos. Maria João Aguiar, coordenadora nacional das Unidades de Colheita de Órgãos, Tecidos e Células para a Transplantação, afirma ao Correio da Manhã que "o stock da membrana amniótica é muito alto e suficiente para as necessidades do País" e salienta que "se houvesse um acidente com muitos queimados, teríamos tecido em quantidade suficiente para os tratamentos".
UMA CENTENA DE DOENTES COM LESÃO DA CÓRNEA JÁ TRATADOS
O director do Departamento de Oftalmologia do Hospital de São José, Pita Negrão, garante que o tratamento de problemas oculares com a membrana amniótica "tem revelado excelentes resultados". O responsável sublinha que o número de doentes tratados
ascende a "uma centena". O oftalmologista Pedro Candelária, especialista no tratamento de córneas com a membrana, sublinha as vantagens da aplicação do tecido: "A membrana é anti-inflamatória, tem poder antibiótico e antibacteriano e consegue regenerar a córnea ao fim de 15 dias a três semanas". Segundo o especialista, os doentes que têm sido atendidos nos serviços de Oftalmologia dos hospitais de São José e dos Capuchos, que integram o Centro Hospitalar de Lisboa Central, sofreram, na sua maioria, "queimaduras oculares devido a acidentes domésticos, como o derrame de lixívia ou de cal, que provocam lesão na córnea e a destruição de células".
INVESTIGAÇÃO É FEITA COM RATINHOS
Os médicos do Serviço de Cirurgia Plástica e Reconstrutiva do Hospital de São José desenvolvem as investigações com a membrana amniótica em ratinhos de laboratório da espécie wistar, na Faculdade de Ciências Médicas. Angélica Robert, directora daquela unidade, afirma que as investigações permitiram concluir que a membrana amniótica é "imunologicamente inerte, o que significa que não causa a rejeição da pessoa que recebe o tecido". Segundo a especialista, é retirado um pouco da pele da cauda do ratinho e é enxertada a membrana. Em poucos dias, "está cicatrizado e nascem pelinhos".
DISCURSO DIRECTO
"A TAXA DE CICRATIZAÇÃO É DE 100%", Angélica Robert, Dir. Unidade Queimados do H. São josé
Correio da Manhã – O tratamento dos doentes queimados com a membrana amniótica é eficaz?
Angélica Robert – Bastante, porque a membrana promove a regeneração dos tecidos queimados de uma forma rápida e eficaz. Além disso, reduz as hemorragias e tira as dores aos doentes.
– A membrana pode ser aplicada em qualquer queimadura?
– O tecido é utilizado em queimaduras mais graves, de grau dois e três. A taxa de cicatrização é de 100 por cento.
– Desde quando é que tratam os queimados com o tecido?
– Tratamos doentes com a membrana amniótica desde 1996 e utilizamos por ano cerca de 20 mil centímetros quadrados.
– A membrana é absorvida pelo corpo?
– Sim. Quando é necessária mais pele para o auto--enxerto, usamos a membrana na parte onde vai ser retirada a pele para enxertar.
O MEU CASO: CELINA ANTOS
"É ESTRANHO RECEBER TECIDOS DE OUTRA PESSOA"
Celina Santos foi tratada com a membrana amniótica depois de ter sofrido uma lesão na córnea do olho esquerdo, consequência de uma conjuntivite. Ao Correio da Manhã, conta que antes de sofrer a lesão no olho nunca tinha tido qualquer problema ocular. "Via bem até que me aconteceu este problema, em Abril do ano passado". Foi após uma ida à piscina que Celina começou a ter problemas: uma bactéria provocou-lhe uma inflamação, que se agravou e desenvolveu uma úlcera na córnea.
"Fiz vários tratamentos com medicamentos e fui submetida a uma cirurgia em Dezembro, na qual me deram uma injecção de cortisona na pálpebra. Melhorou, mas não o suficiente", recorda Celina. Pedro Candelária, o médico que trata Celina Santos, decidiu recorrer à membrana amniótica. "Fiquei curada porque a lesão na córnea desapareceu", afirma a paciente. É estranho receber um tecido orgânico de outra pessoa e saber que esse tecido, como é o caso da membrana amniótica, é absorvido pelo nosso organismo, mas estou tranquila porque sei que esse produto foi sujeito a processos de tratamento antes de ser aplicado numa pessoa", refere. A paciente conta que, a partir de agora, só entra em piscinas "com óculos de protecção".
PERFIL
Celina Santos Tem 37 anos, é casada e tem um filho de seis anos. É psicóloga clínica e trabalha na Câmara Municipal de Vila Franca de Xira.
PELE E OSSO GUARDADOS
A Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação guarda pele, osso, válvulas, córnea e membrana amniótica. O material é preservado e distribuído pelos hospitais para transplante nos doentes de norte a sul do País.
APROVADO BANCO DE GÂMETAS
O Parlamento aprovou, no início do ano, um projecto de resolução do Bloco de Esquerda que recomenda ao Governo a criação de um banco de gâmetas(ovócitos e espermatozóides) para ajudar os casais inférteis. A criação do banco evita a importação de tecidos e células reprodutivas.
ESCLARECIMENTO
A propósito da notícia publicada a 29 de Maio no Correio da Manhã com o título ‘Membrana regenera’, recebemos do Centro de Histocompatibilidade do Sul o seguinte esclarecimento: "Este centro nunca foi responsável pela colheita e transplante de órgãos e tecidos. Além disso, a Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação não guarda pele, osso, válvulas, córnea e membrana amniótica. Se o fizesse fá-lo-ia ilegalmente pois o único Banco de Tecidos autorizado para tal é o do CHSul. A Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação é, como o nome indica, a autoridade reguladora da actividade dos bancos de tecidos e serviços de sangue". O Centro de Histocompatibilidade do Sul esclarece ainda que "quem faz a colheita de tecidos são os hospitais sob a coordenação dos Gabinetes Coordenadores. O Banco de Tecidos do CHSul processa, armazena e distribui válvulas cardíacas, membrana amniótica e osso. As córneas são ilegalmente mantidas e distribuídas pelos Gabinetes Coordenadores. Quem transplanta são os hospitais e clínicas privadas e quem regula toda a actividade é a Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação".
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.