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"O salário não chega para viver": milhares concentram-se em Lisboa contra o custo de vida e da habitação

Poucos minutos antes da hora marcada, o Largo do Intendente estava já repleto de pessoas de todas as idades que decidiram aderir ao movimento organizado pela plataforma "Não dá mais para viver assim"

10 de outubro de 2026 às 18:01

Alguns milhares de pessoas estão este sábado à tarde concentradas no Largo do Intendente, em Lisboa, onde continuam a chegar manifestantes, num protesto contra o aumento do custo de vida e da habitação.

Poucos minutos antes da hora marcada, o Largo do Intendente estava já repleto de pessoas de todas as idades que decidiram aderir ao movimento organizado pela plataforma "Não dá mais para viver assim", promotora de manifestações semelhantes em Aveiro, Braga e Porto.

Os manifestantes vão chegando em grupo ou solitários, com cartazes debaixo do braço com frases de revolta contra o custo de arrendar um apartamento, que os atira para longe da cidade ou os obriga a permanecer "em casa dos pais depois dos 30 anos", como relatou à Lusa Teresa Fonseca.

Teresa veio sozinha. "Vi que ia haver este protesto no Instagram e vim. Já chega. Este país está cada vez pior e agora é preciso sair de casa e ir para a rua gritar como fizeram os espanhóis", defende, contando que o desemprego lhe bateu à porta e foi obrigada a regressar a casa dos pais.

Do outro lado do Largo do Intendente está Ana Mendes, novata nestas andanças. Aos 35 anos, Ana vive num quarto alugado que lhe custa mais de metade do salário e por isso este sábado juntou-se aos milhares de pessoas que em Lisboa exigem mudanças ao Governo para baixar o custo de vida e criar rendas acessíveis.

"Nasci em Cascais, estudei e achava que ia ter um emprego com um bom ordenado", conta à Lusa Ana Mendes, que, apesar de ter uma licenciatura, recebe apenas o salário mínimo a trabalhar num 'call center'.

Cansada de viver com os pais, começou à procura de casa e acabou num apartamento em Chelas, uma zona "com bastante violência". Partilha casa com outros dois casais e paga 450 euros de renda sem contrato, porque "com contrato ainda era mais caro".

Muitos dos jovens que este sábado participam no protesto contam com a ajuda da família, mas também há muitos casos como o de João Santos. O jovem de 23 anos ficou órfão de pai e mãe este verão. "No último ano estive a tratar deles e agora tenho o meu irmão a cargo, porque ele tem um problema de saúde", conta o jovem, que tirou um mestrado e teve de se despedir para tratar do irmão.

"Este país dá zero ajudas", desabafa. João traz consigo um cartaz dizendo "Se nós não podemos viver aqui, então governam para quem?".

As histórias de quem não consegue arrendar casa ou de quem não tem dinheiro para todo o mês repetem-se. Há cartazes que recordam Maricarmen Abascal, a espanhola expulsa aos 87 anos da casa onde viveu desde jovem.

Pelas ruas de Lisboa em direção à Praça de São Domingos, os protestantes entoam várias frases como "Ó Montenegro, eu quero ter um salário para a casa e para viver".

José Manuel Pureza, do Bloco de Esquerda, esteve também no protesto, onde lembrou que "há cada vez mais pessoas que não conseguem pagar as contas, enquanto um pequeno grupo de pessoas tem lucros astronómicos".

Sobre a proposta do Orçamento do Estado para 2027 entregue esta semana no parlamento, considerou ser "um cheque em branco" para a continuação da atual situação, "por isso não há abstenção". Pureza defendeu a necessidade de limitar o aumento das rendas.

Também Isabel Mendes Lopes, do Livre, criticou a proposta de Orçamento e acusou o primeiro-ministro, Luís Montenegro, de "viver numa bolha e estar a governar para as pessoas que são parecidas consigo e não para a generalidade dos portugueses".

"Achar que uma renda moderada pode ir até aos 2.300 euros é de quem não vive no mundo real nem no mundo onde a maior parte das pessoas vivem", criticou a deputada do Livre, recordando que em Portugal "os salário continuam a ser muito baixos e as pessoas têm dificuldades de pagar as suas contas ao fim do mês".

O protesto continua nas ruas de Lisboa.

A plataforma que organizou a manifestação pede o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis, impostos sobre os lucros extraordinários das grandes empresas do setor bancário, energético e da distribuição, e medidas que respondam à crise na habitação.

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