Ser operado às cataratas é hoje em dia mais rápido e eficaz do que submeter-se a outras cirurgias. As listas de espera são quase inexistentes devido ao acordo entre o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e os hospitais privados. No ano passado foram operados mais de 63 800 doentes nos hospitais públicos, privados e sociais. O limite máximo de tempo de espera é quatro meses.<br/><br/>
Chama-se cataratas à perda de transparência do cristalino (uma lente que existe dentro do olho e que foca a imagem). Essa perda pode mudar a capacidade de focagem ao longe e ao perto e atinge normalmente pessoas com mais de 40 anos, pelo que é necessário trocar a lente intra-ocular por uma artificial. Actualmente, já é possível tirar a catarata e colocar, em simultâneo, uma lente que corrige a visão de longe e de perto, graças ao avanço da tecnologia, das técnicas e das lentes.
Se há 25 anos só se realizavam cirurgias às cataratas em casos extremos, como quando o doente já tinha perdido a visão num olho ou usava lentes de óculos com 12 dioptrias de graduação, agora são efectuadas praticamente a seguir ao diagnóstico. "A lista de espera, mesmo nos hospitais públicos, não é muito grande. Há é uma dificuldade de acesso à consulta", explica ao CM o presidente do Colégio de Oftalmologia da Ordem dos Médicos, Florindo Esperancinha. "No máximo de quatro meses, se a pessoa não for operada no público, recebe uma carta para ir a um hospital com acordo com o SNS. Já o acesso à consulta pode demorar, por exemplo, um ano e meio", adianta. Em 2010 foram operadas 62 460 pessoas no SNS e 1427 nos hospitais convencionados (privados e sociais). Dos 13 563 utentes inscritos para cirurgia no SNS, 43 estavam a aguardar cirurgia.
DISCURSO DIRECTO
"OPERAÇÃO NÃO É PARA VER MELHOR, É PARA NÃO VER PIOR", Tavares Correia, Oftalmologista na Misericórdia de Riba D’Ave
Correio da Manhã – Que evoluções houve nesta operação?
Tavares Correia – Com os facoemulsificadores [aparelhos usados na cirurgia das cataratas] podemos operar com uma incisão inferior a um milímetro. Com as lentes intra-oculares mais antigas, só se conseguia corrigir a miopia ou hipermetropia. Hoje já há lentes para cataratas que também corrigem astigmatismo [focar ao perto].
– É uma cirurgia rápida?
– A cirurgia em si, entre tirar a catarata e colocar a lente intra-ocular que corrige determinado problema prévio, é só dez minutos. Podemos dizer aos doentes que reduz muito a utilização de óculos, mas não impede para sempre a sua utilização. Não é para ver melhor, é para não ver pior.
– Que cuidados tem de ter o paciente no pós-operatório?
– Tem de colocar a medicação, não esfregar o olho operado, evitar ambientes poluídos e esforços violentos nos primeiros seis dias.
– Quantos pacientes tem na Misericórdia?
– Fazemos muitas cirurgias às cataratas. Prevemos fazer cerca de duas mil este ano.
COLOCAR LENTE COM DUAS INCISÕES
Com duas incisões (a primeira de meio milímetro para passar os instrumentos e a outra entre 0,8 mm e 3,2 mm, para colocar a lente), operam-se cataratas. Fractura-se o núcleo da catarata, que é aspirado em simultâneo. Depois, coloca-se a lente dobrada no injector, que abre quando chega ao olho.
O MEU CASO: MARIA MOREIRA
"É MAIS DIFÍCIL PARTIR O PÉ QUE OPERAR 50 OLHOS"
Maria Fernanda Moreira, 69 anos, tem uma vida ligada à modelagem e aos trabalhos de confecção e começou a usar óculos para ver ao perto aos 45 anos. Há três anos começou a ver pior, até ao longe.
"Fui ao optometrista, que disse que eram cataratas e, devido à minha idade, devia ser operada. Mas depois aconteceu aquele caso dos que cegaram numa operação em Lisboa e fui adiando, por ter medo. Desleixei-me e fui sempre aumentando as lentes. Há três meses, fui ao oftalmologista, que me disse que era uma cirurgia fácil", explica.
Residente em Fafe, Maria Fernanda Moreira foi encaminhada para a cirurgia no Hospital da Misericórdia de Riba D’Ave, em Famalicão. Foi operada ao olho direito em Março. "Ficou a ver 100% ao longe e precisa dos óculos para ver ao perto devido à idade", explica o oftalmologista Tavares Correia.
A experiência não foi nada do que Maria estava à espera. "Não doeu nada. Parecia um sonho. Foi mais difícil partir o pé do que operar 50 olhos", compara. No início de Junho, foi operada ao segundo olho. "Vejo muito melhor. Sempre trabalhei na confecção e não queria deixar de fazer costura", garante.
PERFIL
Maria Fernanda Moreira é proprietária de uma confecção em Fafe e usava óculos para ver ao perto e ao longe. Depois de saber que tinha cataratas, abandonou o medo, foi operada e ficou a ver melhor ao longe
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