Estudo de 2023 identificou Covid Longa em 17,6% das crianças e adolescentes estudados.
A organização Aliança Millions Missing (AMM), associação que representa doentes afetados por síndromes pós-virais, alertou este sábado para o risco de crianças e jovens com Covid Longa perderem o seu percurso escolar por falta de uma resposta articulada.
Em entrevista à agência Lusa, a co-fundadora e presidente da AMM, Joan Serra Hoffman, falou da ausência de resposta articulada nos sistemas educativos, de saúde e de proteção social, destacando as consequências em crianças e adolescentes que podem prolongar-se até à vida adulta e comprometer a continuação dos estudos ou a entrada no mercado de trabalho.
"Uma criança não pode perder o seu percurso educativo porque adoeceu e os sistemas não sabem como responder. Quando a doença impede um jovem de continuar a estudar, a resposta não pode ficar apenas dentro da consulta", afirmou Joan Serra Hoffman que em maio esteve numa comissão de saúde no Parlamento onde foram apresentados testemunhos de pessoas que vivem com este tipo de doenças.
"Ficamos à espera da resolução. Ainda não saiu. Admitimos que com as férias e tudo mais seja normal, mas é importante que não caia no esquecimento", acrescentou.
A Direção-Geral da Saúde e da Segurança dos Alimentos, um departamento da Comissão Europeia responsável por definir e pôr em prática as políticas europeias relativas à saúde pública, à segurança dos alimentos e ao bem-estar animal, publicou a 16 de setembro um documento que recomenda a proteção para crianças e jovens que adoeceram e que deixaram de conseguir prosseguir o seu percurso educativo.
Este é um 'policy paper' (documento de políticas públicas) que inclui um inquérito 'online' que reuniu 2.042 pessoas de 30 países.
A AMM destacou que uma das secções dedica-se em exclusivo às crianças e jovens e identifica dificuldades no reconhecimento da Covid Longa nesta faixa etária.
"É pedido explicitamente que estas crianças e jovens sejam protegidos (...). Tal como são precisas adaptações no trabalho para os adultos, são precisas adaptações na escola", referiu, à Lusa, Joan Serra Hoffman, lembrando que "a Covid Longa continua invisível, subdiagnosticada e sem resposta estruturada em Portugal".
"Mas afeta muitas crianças e adolescentes. Já começa a haver evidência disso", considerou a presidente da associação, recorrendo a um estudo de 2023 que identificou Covid Longa em 17,6% das crianças e adolescentes estudados.
A ausência de mais estudos e de um registo nacional sobre a Covid Longa é também uma preocupação de especialistas e académicos que estudam esta e outras doenças relacionadas com síndromes pós-virais, como a Encefalomielite Miálgica/Síndrome de Fadiga Crónica (EM/SFC).
À Lusa, o pneumologista João Carlos Winck, que é responsável pela consulta de Covid Longa e pela Unidade de Pneumologia do Instituto CUF, admitiu que Portugal não tem de facto uma rede de referenciação para esta doença, pelo que os doentes ficam "um bocadinho dispersos, uns no centro de saúde, outros no psiquiatra, outros no reumatologista", sendo "importante criar uma consulta multidisciplinar de referência nacional".
"Aquilo que se pensa em Portugal é que existem pelo menos 100 mil pessoas com Covid Longa. Mas não há nenhum estudo epidemiológico. Este valor é baseado no número de casos de Covid-19 que houve em Portugal", descreveu o também professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
Relacionados com a Covid Longa, João Carlos Winck descreveu sintomas como fadiga, sintomas neurológicos e cansaço mental -- aquilo a que as pessoas chamam "nevoeiro mental" -- bem como problemas de coração, taquicardias -- "um coração que começa a disparar subitamente quando as pessoas ficam de pé muito tempo" -- tensões muito baixas e tonturas.
"Ou seja, todos os órgãos podem ser afetados. Eu não sou médico de crianças, mas se adultos descrevem este quadro, é fácil estimar que nas crianças e adolescentes a doença se repercute de forma em tudo semelhante à dos adultos, mas a repercussão é muito maior porque estes jovens podem ficar coartados da sua aprendizagem, da sua participação na atividade física", alertou.
Já o reumatologista e professor catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa, Jaime Branco, vai mais longe: "Em geral as pessoas só têm um elevador social, que é a educação. Imagine-se uma criança ou um adolescente a quem é tirado esse elevador social. É dramático. Nem que seja só um português, nem que seja só um. Mas são dezenas ou centenas com certeza. E na Europa são milhares", referiu à Lusa.
Para Jaime Branco "é muito preocupante" que "doentes que têm alterações cognitivas que não lhes permitem as performances escolares que tinham antes não tenham uma salvaguarda".
"Estas crianças e adolescentes vão chegar, alguns já chegaram à idade adulta, e não podem encontrar empregos capazes, até porque se continuam com fadiga não conseguem trabalhar a tempo inteiro", estimou.
Além da dificuldade em obter um diagnóstico para esta doença ou a ausência de estimativas e estudos nacionais -- uma realidade que Jaime Branco disse ser idêntica em vários países europeus -- a AMM alertou para dificuldades acrescidas nestas faixas etárias porque as crianças nem sempre conseguem verbalizar os sintomas que sentem e nem sempre a comunidade confia naquilo que os doentes e as famílias relatam.
"Queremos ter normas clínicas que estejam à altura do conhecimento científico internacional clínico de diagnóstico. Queremos ter uma quota mínima de atendimento no SNS [Serviço Nacional de Saúde]. Que Portugal comece a construir capacidade de resposta para ligar com estas doenças pós-infecciosas. Sonhamos que haja em Portugal um centro de excelência clínico sobre esta doença", concluiu Joan Serra Hoffman.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.