No seu meio hectare de terreno, Leonardo Francisco enumera: abacateiros, medronheiros, árvores antigas, "nada ficou de pé".
Leonardo Francisco diz que já viveu muita coisa. Foi bombeiro, fez formação na proteção civil francesa, habituou-se a lidar com cheias e incêndios. Mas na madrugada em que a tempestade Kristin atravessou Ferreira do Zêzere, sentiu um arrepio que não lhe é habitual.
O vento, conta, soava "como um homem rouco a gritar na rua", uma voz "forte", "cheia de raiva", que o deixou vigilante, enquanto telhas voavam e chapas se soltavam dos postes.
Às 04:30, já estava desperto. O barulho vinha de todos os lados. "Parecia o mar a partir". Em segundos, descreve, percebeu que a casa abanava e que as oliveiras centenárias dos pais estavam no chão, com raízes expostas, "tudo estragado".
No seu meio hectare de terreno, enumera: abacateiros, medronheiros, árvores antigas, "nada ficou de pé".
Mais do que os danos materiais, preocupa-o a solidão em que muitas aldeias ficaram mergulhadas. A mãe, de 80 anos, vive numa rua onde, garante, "não passou ninguém desde segunda-feira", nem bombeiros, nem proteção civil, nem pessoal do município.
"Ela podia ter morrido lá. Ninguém ia saber." A falta de luz, água e rede telefónica obriga-o a carregar o telemóvel no carro e a gerir a vida "com focos e improviso".
Leonardo, que conhece outros modelos de resposta em situações extremas, compara a experiência portuguesa com a francesa: "Lá a tropa apoia o povo nas catástrofes. Aqui, parece que estamos sozinhos."
Não poupa críticas à falta de meios e à lentidão dos apoios, dizendo que o Estado "não está preparado para emergências deste tipo".
Com as arcas descongeladas, frigoríficos estragados e dias inteiros sem eletricidade, fala também das dificuldades práticas: as compras exigem dinheiro vivo, que nem sempre se tem, e comprar um gerador é tarefa quase impossível. Na sua rua, diz, "são os vizinhos que se ajudam uns aos outros".
A madrugada em que a tempestade Kristin atravessou Ferreira do Zêzere foi, para o presidente da Câmara, Bruno Gomes, "um fenómeno de grande intensidade" que paralisou o concelho.
Dias depois do temporal, o autarca admite que o concelho está "melhor melhor do que no primeiro dia, mas muito longe da normalidade."
Segundo o presidente, muitas vias encontram-se já desobstruídas e a autarquia tem "referenciadas cerca de 99% das situações críticas no âmbito da ação social", com equipas no terreno a visitar quem precisa de apoio.
O trabalho tem sido feito com bombeiros, militares, escuteiros e empresas especializadas em corte de árvores, uma necessidade premente num concelho onde a mancha florestal é dominante.
Apesar dos progressos, a falta de energia continua a afetar gravemente o território.
"Diria que 80% do concelho continua sem eletricidade. O centro da vila tem alguma alimentação por geradores, mas basta uma linha partida para tudo voltar a falhar", afirma Bruno Gomes. As telecomunicações, embora restabelecidas parcialmente, continuam instáveis.
Bruno Gomes sublinha que o concelho está preparado para emergências, graças ao "investimento consistente" em proteção civil e à experiência acumulada com fenómenos anteriores, como tornados e incêndios.
"Temos um dos melhores coordenadores municipais do país", afirma, destacando a existência de geradores, telefone satélite, maquinaria pesada e depósitos de água.
Ainda assim, o impacto da tempestade está muito acima do histórico local. O autarca evita avançar um valor fechado, mas admite que os prejuízos poderão ascender a "várias centenas de milhões de euros", abrangendo infraestrutura pública, vias, taludes, sinalização ("são milhares de sinais no chão") e unidades industriais.
A acumulação de árvores caídas e detritos florestais criará, segundo o presidente, um risco acrescido de incêndios no próximo verão.
O presidente estima que 80% do concelho poderá demorar cerca de um ano a recuperar, mas avisa que o resto, especialmente floresta e indústria, exigirá prazos muito superiores. Há edifícios públicos danificados, incluindo o posto da GNR e estruturas dos bombeiros. A rede de apoio social enfrenta também dificuldades, com várias IPSS a necessitarem de obras urgentes.
Questionado sobre a articulação com o Governo, o presidente considera que o executivo "não teve noção da intensidade da ocorrência" em Ferreira do Zêzere, sobretudo nos primeiros dias.
"Fui eu que tive de contactar dois secretários de Estado", afirma. "Estas ocorrências são inéditas, mas o topo do Governo tem de ter condições para rapidamente encontrar soluções", acrescentou, sublinhando que a capacidade de resposta dos municípios, pela proximidade e dimensão, "é imensamente maior" em crises desta natureza.
"O que fiz aqui no primeiro dia, saber a quem ligar, o que ativar e em que ordem, o Estado central também tem de conseguir."
Miguel Carvalho, chefe de divisão da Ação Social de Ferreira do Zêzere, descreve um cenário de pessoas isoladas, casas danificadas e uma população vulnerável que precisa de respostas rápidas.
Ao longo dos últimos dias, diz, têm chegado sobretudo casos de moradores sem suporte familiar, incapazes de reparar os danos porque não têm meios ou recursos. Para estes, a autarquia tem mobilizado equipas de voluntários, cujo número cresce diariamente e que, afirma Miguel Carvalho, "têm feito um trabalho extraordinário".
São eles que colocam lonas, ajudam a vedar entradas de água e garantem "o mínimo de condições" enquanto não chega uma intervenção mais definitiva.
O responsável explica que têm sido necessárias retiradas de pessoas de habitações já sem condições, realojando-as no centro da vila ou encaminhando-as, em articulação com a Segurança Social, para estruturas mais seguras.
Com cerca de dez equipas de voluntários no terreno, escuteiros, civis, moradores e até gente de fora do concelho, a Ação Social tem feito distribuição de alimentos, sempre que deteta necessidade. Mas há limites.
"Em grande parte do concelho não há eletricidade, o que impede o uso de máquinas, cimento, equipamentos elétricos. Há sítios onde simplesmente não podemos intervir ainda.
Desde a passagem da tempestade Kristin, que o Centro de Reabilitação e Integração de Ferreira do Zêzere (CRIFZ) transformou-se numa espécie de quartel de retaguarda, onde bombeiros, escuteiros, militares e trabalhadores da Câmara encontram refeições quentes.
"Tem sido complicado", admite Manuel António, presidente do CRIFZ, porque a falta de comunicações tornou difícil garantir alimentos para os 150 a 230 operacionais que passam diariamente pelo centro. O espaço, habitualmente dedicado ao ensino especial e à deficiência, abriu portas, apesar de também estar danificado.
"As nossas viaturas estão todas partidas e ficámos parcialmente destruídos", afirmou, referindo que a equipa do CRIFZ serve pequenos-almoços, almoços, jantares e lanches reforçados.
Num cenário onde os incêndios costumam durar "dois ou três dias", a tempestade trouxe uma continuidade inesperada: "Isto não para", afirma Manuel.
Para ele, o maior obstáculo tem sido a ausência de comunicações. Sem rede, sem informação e com a eletricidade ainda ausente em muitas zonas, a coordenação de equipas ou a simples encomenda de alimentos torna-se uma sucessão de tentativas.
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