Pesca ficará mais cara com o aumento do preço dos combustíveis. Pesca da sardinha pode estar para breve.
Paulo Comboio, ou Mestre Comboio, como muitos o conhecem, é pescador desde cedo. É no mar de Peniche que, entre cavalas e carapaus, encontra o sustento — um sustento que, segundo diz, parece servir apenas para cobrir despesas, consequência de uma sucessão de tempestades e do conflito no Médio Oriente, que tem feito disparar o preço dos combustíveis. Além de pescador é também a voz de muitos colegas enquanto vice-presidente da Associação Mútua de Armadores de Pesca de Peniche.
De segunda a sexta-feira, de dia e de noite, o “Comboio”, também o nome da embarcação, anda pelo mar. Se outrora “o barco nunca parava”, agora “é preciso pensar muito bem como se gasta o combustível”. “Passo a noite no mar, mas o barco costuma estar sempre parado", conta, preocupado, assumindo que faz menos milhas para poupar combustível.
Pescadores com poucas ajudas
A última vez que abasteceu foi em meados de fevereiro. Nessa altura, carregou o barco com 10 mil litros, combustível que ainda hoje dura. Pagou 56 cêntimos por litro. Feitas as contas, saiu-lhe do bolso 5600 euros, “sem tirar nem pôr”. A crise petrolífera já fez aumentar em 50% o preço do gasóleo colorido, utilizado neste setor primário. Exatamente um mês após o início do conflito no Médio Oriente, as preocupações chegaram em força ao setor da pesca, que lamenta a escassez de apoios.
Para já, é nos testemunhos dos outros pescadores que encontra desassossego: "Tive colegas que pagaram 0.98\L", recorda.
Os apoios chegaram três semanas após o primeiro aumento dos combustíveis. No Conselho de Ministros de dia 27 de março, de acordo com um comunicado do Governo, foi aprovado um apoio extraordinário temporário, entre os dias 1 de abril e 30 de junho, de dez cêntimos por litro no gasóleo utilizado nesta atividade.
Preço do peixe inflacionado
Para o pescador, a safra ainda não justifica um aumento de preços nas bancas. “O peixe que pesco é relativamente barato”, assegura, acrescentando que “nos últimos dez anos, tem sido quase sempre o mesmo preço”. Reforça ainda que “o preço do pescado não depende de nós”.
Sobre esta subida de preços, o Correio da Manhã tentou perceber junto da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), que medidas têm sido tomadas para fiscalizar esta situação. Após duas tentativas de contacto e até à publicação desta reportagem, não foi obtida qualquer resposta.
Pesca da sardinha estará para breve, em menos quantidade
Traineiras é o nome da técnica que utiliza para pescar. Será também esta técnica a servir para a captura da sardinha, época que se aproxima. Se as previsões se confirmarem, a safra poderá regressar no início de maio, depois de ter sido suspensa a 2 de dezembro do ano passado. Recorde-se que, para a frota portuguesa, no ano passado, o limite máximo de capturas e descargas de sardinha foi de 34.406 toneladas, correspondendo a 66,5% do total acordado com Espanha.
Para este ano, as quotas ainda não são conhecidas, mas os pescadores receiam uma redução de até três mil toneladas face ao ano anterior. Com menos oferta, o preço de venda aos comerciantes poderá subir, ultrapassando os valores praticados no último ano, que rondavam entre 80 cêntimos e um euro por quilo.
A embarcação de Paulo Comboio garante sustento a 18 trabalhadores, de quem diz não conseguir prescindir.
Se, noutros tempos, um bom dia para a embarcação significava pescar entre 15 e 20 toneladas de peixe, para quem hoje a gere, um bom dia será sobretudo aquele em que o preço do gasóleo baixar.
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