A estética do início do milénio está a propagar-se na moda, no cinema, na música e, claro, nas redes sociais. O Correio da Manhã procurou perceber porquê.
A estética do início do milénio está a propagar-se na moda, no cinema, na música e, claro, nas redes sociais. O Correio da Manhã procurou perceber porquê.
Fotografias analógicas, calças de cintura descida, gloss nos lábios e alguns dos maiores ícones da música e do cinema: parece uma descrição do início dos anos 2000? Sim, mas é também da atualidade. As tendências dos primeiros anos do milénio voltaram em força e isso tem sido notório em várias vertentes artísticas. Além disso, adolescentes que nasceram já na década de 2010 parecem sentir uma atração pela estética, objetos e música da época. No Tiktok, a hashtag #2000 já conta com mais de 1,3 milhões de utilizações, desde vídeos com inspirações de outfits, maquilhagem ou madeixas no cabelo que imitam o estilo daquela altura, a coreografias ao som de músicas que tocavam em todos os MP3 dos jovens de 2000.
Este ano, o Instagram lançou novos filtros que funcionam com Inteligência Artificial e que imitam o efeito de ‘flash estourado’ das câmaras analógicas. Já se tornaram virais.
Na música, regressaram bandas icónicas tanto no panorama internacional como Paramore, Linkin Park, My Chemical Romance ou Jonas Brothers, como a nível nacional, tal é o caso dos Da Weasel ou dos D’ZRT. Também há quem simplesmente se inspire na sonoridade, como fez Zara Larson com o álbum “Midnight Sun”, que lembra o Pop da altura.
No cinema, revivem-se êxitos como “O Diabo veste Prada” (2006) e os famosos “Morangos com Açúcar” (2003) voltaram com uma nova abordagem, apoiados pelas plataformas de streamming. Os fãs do Disney Channel até tiveram direito a um episódio especial de “Hannah Montana”, a série que marcou várias gerações por todo o mundo.
Resta perceber o que desencadeou esta onda de nostalgia em relação aos anos 2000, o que pode significar e que consequências traz.
Para perceber o que sentem com tudo isto, o Correio da Manhã questionou alguns jovens.
As saudades de um passado recente
Para Nuno Neca, de 27 anos, a nostalgia com o início dos anos 2000 está presente praticamente desde que esse tempo passou. Nascido em 1998, viveu a infância no auge da época. “As bandas que mais ouço eram grandes nos anos 2000, como Green Day ou Arctic Monkeys e Muse, que são mais recentes”, diz, assumindo que o gosto pelo rock vem de família e que “era o que se ouvia” no início do milénio.
Mas as influências da época não ficam só pela música. Assume que vê repetidamente filmes lançados no início dos anos 2000, principalmente da Disney, e que uma das suas maiores referências de humor são os Gato Fedorento – o famoso grupo de humoristas portugueses que estreou em 2003 e que marcou de forma intensa a comédia da primeira década do milénio.
Nuno acredita que, no começo dos anos 2000, a tecnologia já era acessível, mas não dominava a vida dos adolescentes como hoje: “Dava para irmos brincar na rua, mas quando voltávamos tínhamos sempre o computador”.
Apesar da saudade que sente, reconhece que há uma tendência para romantizar o passado. “Temos certas ferramentas hoje que facilitam a nossa vida e acho que não nos lembramos disso quando pensamos nos tempos anteriores”, afirma, acrescentando que “não podemos voltar ao que era antes e temos de aceitar as mudanças que foram havendo”.
Renata Surrécio nasceu no mesmo ano que Nuno. Apesar de também se sentir uma '90s Kid' (termo utilizado para referir alguém que viveu a infância nos anos 1990), diz que a primeira impressão que teve de muitas coisas foi reflexo direto da cultura dos anos 2000.
Acredita que a nostalgia pode resultar de uma procura por maior conforto, face aos problemas da atualidade. “Estamos a passar por momentos mais stressantes ou que podem causar mais ansiedade e também estamos num mundo totalmente diferente, mais digital e global. Talvez isso leve as pessoas a olhar para trás e tentarem lembrar-se desses tempos. No que toca às tendências de roupa, há sempre alturas em que coisas do passado voltam”, explica. No entanto, Renata alerta que “nos anos 2000 também havia conflitos globais ou movimentos focados na discriminação” e que é importante não deixarmos o pensamento crítico totalmente de lado ao recordar o passado.
Catarina Cardeira nasceu precisamente no ano 2000. Era uma criança durante toda a primeira década do milénio e, por isso, as suas principais referências são séries infantojuvenis que ainda gosta de rever, como o fenómeno português "Inspetor Max", mas também os livros da coleção "Uma Aventura", que diz terem ajudado a desenvolver o gosto pela leitura e escrita.
Mas Catarina recorda também alguns aspetos negativos dessa altura: "Lembro-me de ver nas revistas que a Britney Spears tinha um bocadinho mais de barriga e de isso já ser super comentado". A jovem confessa que essa "parte mais tóxica", no que toca principalmente ao body shamming, ao bullying, aos tabus com a saúde mental e à fraca representatividade quando o assunto era beleza, afetaram a forma como olhou para si mesma durante muito tempo. “Se eu tivesse visto mais pessoas como eu, não me teria sentido tão estranha. Estamos melhor agora porque há mais diversidade”, afirma.
No fundo, Catarina acredita que é a ideia de “tempos mais simples” (principalmente pelo facto de o início do milénio ter correspondido à sua infância) que a faz querer gostar de revisitar o passado.
Sentir nostalgia não é querer voltar ao passado
O ‘regresso’ aos anos 2000 pode significar mais que uma simples tendência. A psicanálise expõe algumas questões relacionadas com esta sensação de nostalgia.
Patrícia Câmara, psicanalista e presidente da Sociedade Portuguesa de Psicossomática, começa por alertar para a importância de distinguir o desejo de regressar ao passado com o desejo de reviver uma outra temporalidade, em que as relações interpessoais se estabeleciam de forma diferente, com menos intervenção das tecnologias, por exemplo. “Não é propriamente que as pessoas queiram regressar ao passado, mas regressar a uma temporalidade em que havia tempo, em que as coisas eram demoradas, em que as relações estavam a acontecer num outro lugar, em que não havia uma hiperligação e, portanto, havia mais possibilidade de contacto até com a própria intimidade”, explica em entrevista ao CM.
A psicanalista assume que o ritmo veloz em que vivemos atualmente e em que “é tudo tão intoxicante que não temos tempo para digerir nada” pode desencadear a procura por conforto em conteúdos ou experiências que pareçam mais autênticas. Por exemplo, na utilização de máquinas fotográficas analógicas “há maior participação humana, precisamos de utilizar mais a mão e de estar em contacto com a própria coisa”, exemplifica Patrícia.
Sobre se é possível sentir nostalgia de algo que não vivemos verdadeiramente, Patrícia Câmara assegura que sim: “Na maior parte das vezes a nostalgia ou a saudade tem muito a ver com coisas que na realidade nem sequer se chegaram a viver, mas que se desejam viver. Está muito ligado com a idealização do tempo. Como se houvesse qualquer coisa que pode ser ainda melhor do que aquela que nós temos [ou que estamos a viver agora]”. Os adolescentes que nasceram no pós-2010 e que sentem uma atração pela estética de uma altura anterior ao seu nascimento podem sofrer dessa idealização, segundo a psicanálise, mas, por outro lado, a vontade de usar roupas que pertenciam às mães, aos pais ou aos irmãos mais velhos, por exemplo, pode criar uma ligação entre essas gerações diferentes, o que é positivo.
Patrícia Câmara reforça que podemos sentir nostalgia, mas que o mais importante é afastar a ideia de que seria bom voltar ao passado. “O passado é sempre uma coisa velha. Não vamos voltar ao passado. Quando há uma confusão entre o desejo de nostalgia saudável, de imaginar outra forma de viver, e a ideia de que isso nos podia ser dado se nós regressássemos ao passado, então aí essa confusão é perigosa”.
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