Encenador morreu no sábado à noite com 88 anos.
O encenador Rogério de Carvalho, que morreu no sábado à noite, em Almada, aos 88 anos, era um reduto de "invulgar excelência e rigor", segundo a investigadora e crítica de teatro Maria Helena Serôdio.
A definição está patente no perfil que a professora universitária e investigadora do Centro de Estudos de Teatro da Universidade de Lisboa lhe dedicou, na revista Sinais de Cena (2013): "Rogério de Carvalho: Invulgar excelência e rigor".
Nascido em Gabela, Angola, em setembro de 1936, Rogério de Carvalho era avesso a palavras, considerando sempre que não tinha "nada para dizer" além do que "punha em cena", como afirmava à agência Lusa sempre que estreava mais uma encenação.
E, no entanto, ao longo de uma carreira de quase 60 anos, todo o seu trabalho encontrava ligação à atualidade e sobre ela falava.
O que levava a palco era sempre "um olhar sobre os humanos e a sua situação no mundo", fosse "de indiferença ou de conformismo", como disse quando da estreia de "Confissões", de Santo Agostinho, com As Boas Raparigas, no Teatro Nacional de S. João, no Porto, em 2017.
O teatro, dizia, é "um risco para os que o fazem, no sentido da responsabilização, no sentido do seu papel na sociedade".
Rogério de Carvalho levou a cena textos clássicos e contemporâneos, atravessou a história do teatro, trabalhou autores como Eugene O'Neill, Jean Genet, Bernard-Marie Koltès, Rainer Werner Fassbinder, Harold Pinter, Anton Tchekhov, August Strindberg. Foi de Molière a Shakespeare e Eurípides. Insistiu no contemporâneo Howard Barker, com diferentes companhias.
"Baker é um autor de uma atualidade muito grande [...]. Muito rapidamente transpomos o que é representado para as muitas situações de violência que atingem o mundo, como os conflitos no Médio Oriente ou a morte dos migrantes africanos no mar", disse à Lusa, quando da estreia de "As Possibilidades", em 2015.
Quando dirigiu "Frei Luís de Sousa", de Almeida Garrett, em 2016, em Almada, reconheceu a descoberta: "Além de ser uma das obras mais importantes da literatura portuguesa, é um dos melhores textos de teatro que já me passaram pelas mãos".
Dos últimos anos, destaca-se a relação de proximidade que intensificou com a Companhia de Teatro de Almada e o Teatro Griot.
Em Almada, desde 2003, Rogério de Carvalho dirigiu peças como "As três irmãs", de Tchekhov, que já encenara com o Grupo de Iniciação Teatral da Trafaria, "Tio Vânia", numa versão de Howard Baker alternativa ao clássico do dramaturgo russo, "Fedra", de Racine, "Tartufo", de Molière -- peça que pôs em cena cinco vezes -, "Pelicano", de Strindberg, "Hipólito" de Eurípides.
"Se isto é um homem", de Primo Levi, em 2020, "O Medo Devora a Alma", de Fassbinder, em 2022, e "Music-Hall", de Jean-Luc Lagarce, em 2023, foram as últimas encenações que fez para a companhia de Almada.
Para o Teatro Griot dirigiu, em 2012, "Faz Escuro nos Olhos", criação coletiva sobre guerra, violência doméstica e miséria, seguindo-se, em 2014, "As Confissões Verdadeiras de Um Terrorista Albino", de Breyten Breytenbach, "Os Negros", de Genet, em 2017, "Uma Confissão se Quiseres", nova montagem coletiva, estreada em Sever do Vouga no início do ano, e com o qual a companhia organizou a sessão de "Homenagem a Rogério de Carvalho", em janeiro.
"O Paraíso Não Está à Vista", de Fassibinder, para o Maizum Teatro, em 1984, e "Und" e "Devagar", de Howard Barker, para a companhia As Boas Raparigas Vão para o Céu, as Más para Todo o Lado, de que foi diretor artístico, foram outros dos seus trabalhos mais celebrados.
Em 2012, Rogério de Carvalho foi distinguido com o Grande Prémio atribuído pela Associação Portuguesa de Críticos de Teatro (APCT), em reconhecimento pelo trabalho desenvolvido nas encenações de "Devagar", para As Boas Raparigas, e "O Doente Imaginário", de Molière, para o Ensemble -- Sociedade de Actores, com quem antes já pusera em cena "O Avarento", do dramaturgo francês.
Esta obra, disse então, protagoniza uma galeria de personagens obsessivas, agarradas à loucura de dominar. Com ela queria perceber como funcionam as figuras com paralelo na atualidade, "para atacar o que elas representam, como quis Molière": "Reler a avareza, reler a ganância dos homens, dos respeitáveis homens de negócios", e criar um "sério divertimento", disse à Lusa quando da estreia, em 2009.
Com "Tio Vânia" e "O Paraíso não está à vista" voltou a vencer os prémios de Melhor Encenação da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro.
Em 2001, foi-lhe atribuído o Prémio Almada, na área do Teatro, do Instituto Português das Artes do Espectáculo (IPAE), do Ministério da Cultura. Nesse ano e no seguinte, distinguiu-se com encenações como "Rostos em ferida", de Howard Barker, "Esse tal alguém", de Teresa Rita Lopes, "O alfinete do anestesista", de Harold Pinter, e "Uriel Acosta", de Karl Ferdinand.
Rogério de Carvalho trabalhou com dezenas de companhias portuguesas de teatro, entre profissionais, amadoras e universitárias. Percorreu o país, trabalhou com atores em Angola e Moçambique.
No teatro universitário trabalhou com grupos de Braga e do Porto. Destaca-se em particular a atividade com o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), para o qual dirigiu "O Sonho", de Strindberg, o "Auto da Índia", de Gil Vicente, "Platonov", de Tchékhov, "A mulher canhota", de Peter Handke, e "Oresteia", de Ésquilo.
O trabalho com o TEUC ligou Rogério de Carvalho à fundação de A Escola da Noite, companhia com a qual pôs em cena, em 1992, "O triunfo do amor", de Marivaux. Em 2004, voltou a Coimbra para encenar "O Cerejal", de Tchékhov.
Rogério de Carvalho foi também professor do ensino secundário e do ensino superior na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo, no Porto, e na Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa. O encenador António Pires, do Teatro do Bairro, seu antigo aluno, dedicou-lhe, no ano passado, a montagem da tragédia "Pentesileia", de Heinrich von Kleist.
Rogério de Carvalho dirigiu e orientou ainda o Núcleo de Teatro da Fundação Sindika Dikolo, em Luanda - Angola, destinado à formação de atores e criação de peças de teatro.
Em julho de 2015, foi homenageado pela Câmara Municipal de Almada e pela Companhia de Teatro de Almada, no âmbito da 32.ª edição do Festival de Almada.
Num artigo escrito a propósito dessa homenagem, a investigadora Maria João Brilhante, do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, atribui-lhe "o epíteto de 'nómada fiel'", numa alusão ao seu método de "'eterno retorno' ao estrito conjunto de companhias de teatro com que construiu a sua longeva carreira", como destaca este domingo a Companhia de Teatro de Almada, na mensagem em que lamenta a morte de Rogério de Carvalho.
"O teatro é uma arte coletiva", disse o encenador à Lusa em 2012. Avesso a ter uma estrutura própria, afirmava preferir aqueles que se tornavam os seus "companheiros de jornada", as companhias com que trabalhava.
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