Lampreias surgem também maiores, com muitos exemplares acima de 1,8 quilogramas e alguns a chegar aos dois quilos.
Depois de vários anos em que as redes regressavam quase vazias, a lampreia voltou este ano a subir o Tejo entre Barquinha e Mação, devolvendo alento a pescadores e restaurantes, embora a prudência permaneça quanto à recuperação da espécie.
Nas margens do rio, entre Tancos, Tramagal, Pego e Ortiga, localidades dos concelhos de Vila Nova da Barquinha, Abrantes e Mação, no distrito de Santarém, a recuperação nota-se nas conversas entre pescadores, nos pedidos feitos aos restaurantes e no movimento noturno das embarcações, que regressaram à faina depois de anos descritos como "miseráveis".
"Se calhar, nos últimos dez anos, foi o melhor ano que tivemos aqui", resumiu à Lusa Francisco Pinto, pescador profissional de Ortiga, em Mação, e coproprietário do restaurante Lena da Barragem, junto à praia fluvial.
O pescador, com décadas de rio, recordou que no ano passado apanhou apenas seis lampreias durante toda a época. Este ano, entre fevereiro e o início de abril, já capturou entre 60 e 70 exemplares.
"Não é fartura como nos anos 80 e 90, mas apanha-se uma, duas, três por noite. Está muito melhor mesmo", afirmou.
As lampreias surgem também maiores, com muitos exemplares acima de 1,8 quilogramas e alguns a chegar aos dois quilos.
A melhoria é atribuída, em parte, às cheias deste inverno, que, apesar dos prejuízos causados em várias zonas do país, aumentaram o caudal do Tejo e facilitaram a subida da espécie para a desova.
"Nos anos em que há chuva e cheias, regra geral são anos muito bons. A lampreia tem de apanhar água doce para subir o rio", explicou Francisco Pinto.
Também Rui Ferreira, pescador profissional de Tancos, no concelho de Vila Nova da Barquinha, confirmou a diferença face aos últimos anos.
"O ano passado foi terrível. Este ano já está melhorzinho, já apanhei bem mais de 50", contou à Lusa, acrescentando que a melhor noite rendeu cinco lampreias, embora a média continue a ser de uma ou duas por saída.
A pesca decorre exclusivamente durante a noite, com redes, entre as 20:00 e a meia-noite, aproveitando o movimento ascendente do peixe.
Mais abaixo, na zona da Barreiras do Tejo, Tiago Barrigas, pescador auxiliar, fala numa recuperação ainda tímida, mas significativa.
"Antigamente, em anos bons, vinte ou trinta eram uma noite. Este ano, até agora, foram vinte ou trinta na época toda, mas já não nos podemos queixar porque nos últimos anos não houve nada", disse.
Se no início da época algumas lampreias chegaram a ultrapassar os 100 euros por quilo, atualmente a unidade é vendida entre 70 e 75 euros, dependendo do tamanho.
Nos restaurantes, a tradição mantém-se, mas a procura revela sinais de retração.
No restaurante A Túlipa, no Pego, Abrantes, a lampreia continua a ser servida por reserva, mas o movimento está abaixo do habitual.
"A lampreia há, não com fartura, mas arranja-se. A procura é que tem sido pouca, porque ainda está cara", disse à Lusa o proprietário, António Larguinho.
No espaço, a dose custa 45 euros, com cinco postas, enquanto no Lena da Barragem o prato é servido a 60 euros, com seis postas.
Segundo os proprietários, o contexto económico e a incerteza internacional estão a pesar nas decisões dos clientes.
"Nota-se um certo recolhimento financeiro por causa da crise e do que se passa no mundo", afirmou António Larguinho.
Apesar disso, a clientela habitual mantém-se fiel.
"Quem gosta, vem na mesma. Tenho clientes que já vieram este ano três e quatro vezes", contou Francisco Pinto.
Ainda assim, e com a época de pesca a decorrer até 30 de abril, os pescadores e empresários mantêm prudência, apontando o próximo ano como "fiel da balança".
Depois de anos marcados pela escassez, que investigadores associaram à destruição de habitats, barragens, poluição e falta de caudais ecológicos, para os pescadores a recuperação só poderá ser confirmada nos próximos ciclos reprodutivos.
"Para o ano é que vamos tirar a prova dos nove", salientou Francisco Pinto.
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