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Correio da Manhã

Sociedade
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“Tratam-me por sr.ª enfermeira”

Ema Alves, 37 anos, confessa-se satisfeita com a forma positiva como os seus colegas e doentes a receberam no trabalho depois de mudar de sexo. Antes da operação chegou a pensar em suicidar-se.
23 de Outubro de 2010 às 00:30
Ema Alves garante que perdeu o medo de tudo: “Sou livre e muito feliz”
Ema Alves garante que perdeu o medo de tudo: “Sou livre e muito feliz” FOTO: Ricardo Almeida

Nestes 22 dias aproximei--me mais das pessoas. Antigamente tinha um segredo que me fazia afastar do Mundo. A angústia desapareceu e agora é só felicidade", confessa Emanuel Alves, 37 anos, o enfermeiro do plantel sénior da Naval e funcionário do Hospital da Figueira da Foz que mudou de sexo e responde agora por Ema.

"No hospital fui muito bem recebida e contei com apoio total de todos. Os colegas de trabalho dão--me força, porque compreendem, e os doentes já me tratam por senhora enfermeira. Na Naval é que a minha situação está na mesma: continuam a dar-me férias", refere Ema, que mudou de género após uma operação realizada em Marbella, Espanha.

Para além dos colegas de trabalho, conta com o apoio e compreensão da família: "No início custou a aceitar, mas agora a minha mãe já me chama filha e o meu filho, de oito anos, compreende a situação. Tenho tido muito apoio dos dois nesta fase e feito muitos amigos novos. Há muita gente que diz que fui egoísta e que não pensei na minha família e no meu filho e que deveria ter assumido o que sou antes de casar. Mas, na altura, se casei foi por amor. Tive um filho e quero ter mais".

Ema está divorciada e vive sozinha. Explica que o processo de transformação é difícil, mas "está completo". "Fiz tudo o que achava que devia ter feito. As transformações que fiz, ou que não fiz, no meu corpo, dizem respeito à minha vida particular e ninguém tem nada a ver com isso", refere.

Antes da operação, a 28 de Setembro, Ema Alves foi seguida ao longo de um ano por uma equipa de psicólogos. "A meio do processo de psicoterapia pensei no suicídio. Queria desaparecer. Para me segurar só pensava no meu filho. Com o tempo fui ultrapassando obstáculos e agora já não me interessa aquilo que os outros possam pensar", confessa, antes de concluir: "Temos de viver a nossas vidas se não quando chegarmos aos 80 é que sabemos que não vivemos. Perdi o medo de tudo e de toda a gente. Sou livre e sou muito feliz".

DEDICA-SE À PINTURA, ESCRITA E FOTOGRAFIA

Antes de mudar de sexo, Ema refugiava-se na escrita, na fotografia e na pintura. "Aproveitava a arte para me libertar, para me exorcizar do corpo de homem. Pintava mulheres, fotografava-me e escrevi a minha história", diz. Chegou a escrever e a editar um livro (‘O Segredo de Elektra') sobre a sua vida. A editora foi à falência e agora procura outra para colocar de novo no mercado esse trabalho. E projectos não faltam: "Tenho muitos trabalhos, muitas pinturas que quero mostrar. Em breve terei uma biografia sobre a minha vida".

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