Ter um trabalho ou emprego não é garantia para se sair de uma situação de pobreza.
Ter um emprego ou um trabalho não é garantia para se sair da situação de pobreza. Esta é uma das conclusões do estudo ‘Pobreza em Portugal – Trajectos e Quotidianos’, da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), que é apresentado esta segunda-feira.
O trabalho, que analisa vários dados relativos à pobreza e conta com entrevistas a pessoas em situação carenciada, identifica quatro perfis de pobreza, referentes a pessoas com 18 ou mais anos: trabalhadores, que são 32,9 por cento, reformados (27,5%), precários (26,6%) e desempregados (13%). De acordo com o estudo, entre 2003 e 2018 a pobreza atingiu cerca de um quinto das pessoas em Portugal, "embora com variações ao longo do período", sendo que em 2018, cerca de 11 por cento de todas as pessoas empregadas em Portugal viviam em situação de pobreza, "o que corresponde a praticamente um terço das pessoas pobres com 18 ou mais anos".
De acordo com os dados analisados, em 2018 cerca de um terço das famílias monoparentais e das famílias com dois adultos e três ou mais crianças estavam em situação de pobreza. "Em 2018, quase metade dos desempregados viviam numa situação de pobreza", refere o resumo da FFMS.
Nas entrevistas realizadas pelos investigadores, várias pessoas relatam como foi vivida a infância. Apesar de terem tido privação no seio familiar, muitas recordam a infância como um tempo feliz. "Tínhamos fartura, sopa e pão não nos faltavam. Tínhamos mimos, tínhamos tudo isso", conta uma idosa de 72 anos, de Montalegre. Há também casos de sofrimento pessoal cruzado com pobreza material. "O meu padrasto bateu muito na minha mãe. Sofri muito nessa altura. Lembro-me de deixarmos cair um cabelo no prato e ele batia logo na minha mãe", conta uma entrevistada de Aljustrel, de 43 anos.
Pormenores
Entrevistas em todo o País
A equipa coordenada por Fernando Diogo, professore de sociologia na Universidade dos Açores, realizou 87 entrevistas em várias regiões do País.
Deixam a escola cedo
Os entrevistados, na maior parte dos casos, "deixaram a escola para ajudar a família (financeiramente ou com o seu trabalho)", refere o estudo. No entanto, muitos mostram-se arrependidos de ter deixado a escola tão cedo.
Doenças contribuem
A doença (crónica e/ou incapacitante) tem um enorme impacto na vida das pessoas em situação de pobreza. "Em alguns casos impede os entrevistados (ou familiares) de trabalharem".
Maioria nasceu e cresceu em famílias com poucos meios
Os autores do estudo referem que em todos os perfis "é possível identificar, para a maioria dos entrevistados, um processo de reprodução intergeracional da pobreza", ou seja, quem é pobre já nasceu ou cresceu num contexto de privação. Uma situação que condiciona "as oportunidades de vida, nomeadamente contribuindo para antecipar a saída da escola e a entrada no mercado de trabalho, ingressando em empregos pouco qualificados".
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