"Impedir que se tome a ficção pela realidade": especialistas levantam questões sobre reconstituições com IA na televisão
O cientista e antigo professor universitário Carlos Fiolhais fala da necessidade de clareza e transparência no uso da IA para a reconstituição de episódios reais no âmbito do jornalismo de investigação.
Quinze anos volvidos sobre um crime que chocou o País - o violento homicídio de Carlos Castro às mãos de Renato Seabra num hotel em Nova Iorque - a CMTV vai reconstituir, com recurso à Inteligência Artificial (IA) os últimos dias de vida do cronista social. A reconstituição, feita com base em milhares de documentos que a CMTV consultou sobre o caso é emitida na próxima terça-feira, 5 de maio, incluída num especial sobre o caso.
Para os especialistas, a recriação das cenas anteriores a um crime, suscita uma discussão sobre os limites do uso dessa nova tecnologia no jornalismo. “De facto, a IA permite hoje a invenção de situações verosímeis usando a imagem e a voz de pessoas reais, vivas ou falecidas”, frisa o cientista Carlos Fiolhais, lembrando, todavia, que “existe um aceso debate sobre os limites éticos e legais da IA. A União Europeia aprovou em 2024 um regulamento, focado na transparência e na proibição de usos de IA com alto risco”.
“Segundo essa legislação, só em parte em vigor, as imagens artificiais devem ser claramente rotuladas como tal, para impedir que se tome a ficção pela realidade, o que será mais provável se a ficção se aproximar muito da realidade (deepfakes). Um dos grandes perigos da IA é precisamente proporcionar essa confusão. Essa regra de transparência será decerto cumprida”, alerta.
Exemplos como este “são úteis para perceber melhor as limitações” e “o uso responsável de IA”, concretamente a nível da proteção de dados: “O uso de imagens de pessoas sem o seu consentimento pode ter problemas de protecção de dados pessoais. Isto para além de os implicados ou seus representantes poderem invocar prejuízos causados pela manipulação do seu comportamento”, alerta Carlos Fiolhais. Já “o jornalismo pode escudar-se no interesse público e na liberdade de imprensa”, admite, lembrando que há casos que pode ocupar “uma zona cinzenta”.
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