Reconstituição inédita no panorama televisivo português é feita com base nos milhares de documentos que a CMTV consultou sobre o caso,
A CMTV emite a partir da próxima segunda-feira um especial sobre o homicídio de Carlos Castro, em 2011, às mãos de Renato Seabra, que integra uma reconstituição feita por Inteligência Artificial (IA) dos últimos dias de vida do jornalista e comentador televisivo e que culminaram na sua trágica morte num hotel em Nova Iorque.
Toda a reconstituição é feita com base nos milhares de documentos que a CMTV consultou sobre o caso, desde a análise ao cenário do crime aos áudios da polícia até ao momento em que Renato Seabra foi localizado no hospital e detido.
Um trabalho inédito em televisão, mas que levanta questões de vária ordem. Eduardo Dâmaso, Diretor-Geral Adjunto do CM, considera que neste caso concreto, “a IA recria apenas um ambiente na relação entre duas pessoas durante uma viagem. Não se faz com atores, faz-se com a IA. Isso é ajudado e enquadrado com elementos do próprio processo, fotografias e declarações, determinando uma geografia processual de rigor e inescapável”, começa por explicar.
Todavia, como bem sublinha, a utilização de recriações deste género tem múltiplos limites: “Não pode tocar nos factos determinados e apurados pela investigação judicial. Não pode mexer na estrutura factual do processo. Não pode alterar a posição de cada um dos intervenientes no processo. Não pode criar uma ilusão qualquer sobre os factos”.
Por reconhecer que o tema pode abrir caminho a um novo debate no universo dos media, Eduardo Dâmaso defende que “é preferível que esta discussão se faça a partir das práticas do próprio jornalismo, da assunção dos seus limites, do que de iniciativas que venham de fora dele, da política, de imposições regulatórias cegas.”
Para lá deste debate que é fundamental fazer, há duas questões prévias da maior importância. “A primeira é o respeito pelos direitos de imagem dos próprios e de terceiros. É ainda fundamental não degradar e ofender a memória de pessoa falecida. A segunda é o respeito pelo espetador, leitor, ouvinte, através da explicação plena, cabal e detalhada, sobre a forma como se utiliza a IA na produção de conteúdos. No caso dos conteúdos jornalísticos não pode, nunca, contornar os pressupostos essenciais do jornalismo: verdade, justiça, liberdade e responsabilidade”, defende, frisando que tais pressupostos “devem estar nos códigos deontológicos e estatutos editoriais, depois de revistos, como aconteceu já com o do CM”.
Embora reconhecendo que a IA “traz grandes vantagens ao jornalismo, nomeadamente ao jornalismo de investigação", Eduardo Dâmaso frisa que as novas ferramentas precisam, "em toda e qualquer circunstância, de um crivo, um travão, uma ferramenta de análise e validação, que é a inteligência humana e toda a capacidade de usar o conhecimento, a sabedoria, que o ser-humano tem, para definir os critérios da sua utilização". O responsável frisa ainda que "assim o determina o bom senso e a inteligência" mas também "a regulação ética e deontológica exigida pela referida Carta de Paris, entre outros documentos legais e de vocação regulatória".
"A fronteira entre o que a IA pode fazer, no jornalismo, ajudando a reconstituições de casos passados e a forma como pode subverter tudo, é muito ténue", alerta o Diretor-geral.
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