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Imagem promocional da micronovela
MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

A CAIXINHA DO PRAZER

O sexo já não é tabu na televisão portuguesa. Da comédia picante ao filme sensual, passando pelo erotismo da publicidade, a oferta é grande nas estações generalistas. Quem quer sexo puro e duro tem de subscrever os canais codificados, mas ainda há aproximações baratas em canal aberto. Até porque, dizem os especialistas, a pornografia está a passar de moda…

17 de abril de 2004 às 00:00

Homem maduro, bem instalado na vida, procura cenas de prazer. Este é o perfil típico do subscritor dos canais pornográficos em Portugal que, através da TV Cabo, tem três versões diferentes à escolha. Há o sexo artístico da TV Playboy, o sexo ‘hard-core’ do Sexy Hot e o sexo mais banal do Íntimo – o programa do canal 18 que a lei obrigou a codificar. Tudo isto é servido a qualquer hora do dia aos 60 mil assinantes dos canais eróticos/pornográficos distribuídos por cabo, cujas audiências rondam os 0,2 por cento.

Fora de horas, mas em sinal aberto, o espectador menos exigente pode seguir o ‘Professor X’, (produção portuguesa no canal 18), ou ver a ligeireza com que norte-americanas anónimas mostram as mamas e muito mais em ‘Gostas Pouco, Gostas’, na SIC Radical.

Em Portugal, a falar seriamente de sexo na TV só mesmo o professor Júlio Machado Vaz como convidado-residente de ‘Estes Difíceis Amores’, em exibição na NTV e na RTP1. Com mais humor, há as aventuras de 'O Sexo e a Cidade', a passar na SIC Mulher.

Mas afinal, que linha separa o erotismo da pornografia, obrigando certos conteúdos a passar em canal codificado e permitindo outros em canal aberto?

LEI “PANTANOSA”

A lei parece clara na matéria e para que uma imagem seja considerada pornográfica implica, para além da “baixa qualidade estética”, “a exploração de situações e de actos sexuais com o objectivo de excitar o espectador”, como se lê no próprio documento legal. “Uma definição pantanosa”, considera Rui Unas, apresentador de ‘Cabaret da Coxa’ (SIC Radical), “pois há quem se excite com muita coisa, como tornozelos ou sapatos…”.

Além disso, os limites da pornografia não são claros, reconhece o sexólogo Júlio Machado Vaz. “Parece-me ingénuo só considerar pornográficas cenas de sexo explícito, quando alguns dos 'innuendos' (insinuação/sugestão) tão queridos à publicidade actual são verdadeiramente obscenos e ninguém se preocupa com isso.”

Essa é também a leitura de Sá Leão, realizador de vídeos pornográficos que marcou presença em programas como 'Noites Marcianas' (SIC) e 'Ah, Leão!' (SIC Radical). “Interpretando essa lei, certas publicidades de moda são pornográficas, pela forma como mostram o corpo humano com uma nítida intenção de excitar.”

Um olhar aos anúncios televisivos mostra que palavras como ‘desejo’ e ‘prazer’ são as mais usadas, tal como as imagens de homens nus ou de mulheres em 'lingerie'. Seja para vender iogurtes, carros ou perfumes de homem. Certo é que ”a publicidade vende e, para tal, tem que criar apetência e, mais ainda, desejo”, reconhece Luís Silva Dias, director criativo da agência FCB. “Qualquer produto pode ser vendido usando como eixo a sensualidade. Pode é não fazer sentido”, acrescenta.

MALANDRICES

No mundo da globalização ver sexo na televisão é algo que já se tornou comum. Da publicidade aos filmes de domingo à tarde, imagens de corpos nus ou de um casal a beijar-se são banalidades para quem olha o pequeno ecrã. Rui Botica Santos, vice-presidente do Canal Viver (o 'tal' que à noite se transforma em ‘Íntimo’…), admite que alguns canais generalistas passam filmes “muito mais ‘malandrecos’ do que os do ‘18’”. Em caso de excessos, e para evitar melindres, as estações têm a célebre ‘bolinha vermelha’ como tábua de salvação, indicando que os conteúdos exibidos podem causar embaraços…

“No início dos anos 90, com o aparecimento dos canais privados, era muito frequente a exibição de filmes eróticos. Hoje isso já não se usa e as televisões passam mais filmes violentos”, lembra António Xavier, presidente da Comissão de Classificação de Espectáculos (CCE). De facto, actualmente, já ninguém se choca com as cenas carnais de ‘Noites Escaldantes’, de Lawrence Kasdam, ou o sexo em tempo real filmado em ‘Intimidade’, de Patrice Cheréau, para dar dois exemplos de filmes já exibidos nas nossas televisões.

A banalização deve-se, em parte, “às telenovelas da Globo”, refere Sá Leão. “Quando eu era pequeno virava a cara se via uma cena de beijos à frente do meu pai, hoje em dia isso é visto com muito mais à vontade.”

UMA QUESTÃO DE BOM SENSO

A verdade é que actualmente “são raras as queixas referentes a matéria de pornografia”, nota Sebastião Lima Rego, membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social. “Os portugueses queixam-se pouco e nesta matéria ainda menos.” Ainda assim, Lima Rego recorda as queixas contra o ‘Herman SIC’, após a exibição de um programa em que artistas estrangeiros mostravam as suas habilidades com o pénis, ou referentes à exibição de cenas de sexo entre os concorrentes de 'Big Brother' nos noticiários da TVI.

No fundo, o limite para mostrar sexo na TV é o bom gosto, dizem os especialistas na matéria. “Trata-se mais de uma questão estética do que ética”, reconhece Júlio Machado Vaz. “O bom senso, enquanto auto-regulador, é o enquadramento desejável para este tipo de questão”, sublinha igualmente Luís Silva Dias. “Em publicidade, podemos catalogar como pornográficas as imagens que tenham capacidade de alto choque pelo seu teor declaradamente sexual, cruzando com a inexistência de sentido estético.”

Rui Unas considera “excessivo mostrar um acto sexual declarado”, mas, em última análise, “impera o gosto pessoal.” “A partir do momento em que tenho um programa que passa entre as 23h00 e as 24h00, e tem a indicação da bolinha, estou ilibado de qualquer culpa, eu e toda a equipa”. Por isso, pelo ‘Cabaret da Coxa’ passaram já convidados como Sá Leão ou Carla Matadinho, vencedora da edição portuguesa da Miss Playboy TV. Quem tem TV Interactiva pode assistir ainda a um espectáculo de 'striptease' privado. Mas o objectivo é sempre, e apenas, “divertir as pessoas”, refere o apresentador. “Brincamos, mas não somos pornográficos.”

HORAS TARDIAS

É nesse patamar que surge o original 'Gostas pouco, Gostas', o programa que a SIC Radical exibe depois da meia-noite e que já é um dos mais vistos do canal, com um ‘share’ de 6,9%. A fórmula parece simples e tem conquistado um público fiel. Vários ‘cameramen’ percorrem as ruas de cidades norte-americanas e pedem a raparigas anónimas que tirem a camisola e mostrem as mamas. Lá para o final do programa, entram em clubes nocturnos e seguem algumas ‘strippers’ a levantar as saias… “O que passa em Portugal é uma versão ‘softcore’ da versão original e mesmo assim é muito ousado”, explica Rui Unas. “Em Portugal era impensável um programa assim, pois temos mulheres exibicionistas mas não a esse ponto. Acho que não há portuguesas que andem na rua a mostrar o clitóris. Aquilo é feito por depravados, para depravados…mas quem faz aquilo deve divertir-se muito.”

‘LET’S TALK ABOUT SEX’

Falar de sexo na TV é raro mas “não é difícil”, reconhece Júlio Machado Vaz, “embora prefira a rádio, pois a imagem é ciumenta e deixa pouco espaço à palavra”. A fórmula para manter no ar um programa sério como ‘Estes Difíceis Amores’ é simples: “dois sexólogos, amigos há vinte anos e pertencendo a gerações diferentes, capazes da discórdia sem fazerem disso um drama e dispostos a deixar viver o humor”, refere o professor. O espectador “pára no ‘zapping’ se o tema lhe interessa e a forma de o abordagem o cativa”.

A ausência de mais programas sérios sobre sexo tem uma justificação, diz. “Não creio que estes formatos propiciem o tipo de audiências desejadas, embora considere que um horário de fim de tarde ou noite – e não o de filme de horror ou pornográfico… - poderia revelar-se uma boa surpresa”, considera.

A verdade é que “as pessoas não têm que ser desequilibradas para falar de sexo, antes pelo contrário. É salutar, faz parte do comportamento normal”, declara Rui Unas. “Uma coisa é falar de sexo, outra é mostrar”, garante. É isso que distingue as imagens da série de culto ‘O Sexo e a Cidade’, em que quatro nova-iorquinas falam mais do que praticam, da pornografia dos filmes de Sá Leão, que o próprio descreve com pudor: “Fui à praça e enchi o cabaz para fazer coisas diferentes.”

Se no primeiro caso é hilariante ver Sarah Jessica Parker abdicar do namorado quase perfeito quando este teima urinar sobre a parceira, o chamado efeito de 'chuva dourada' é precisamente uma das cenas mais fortes dos filmes de Sá Leão. Porquê? Em ‘Sexo e a Cidade’ a cena é verbalizada, em ‘Badalhocas’ vê-se tudo.

À VONTADE DO FREGUÊS…

E, como há gostos para tudo, Rui Botica Santos admite que quem quer pornografia “tem muito onde procurar, desde os canais pagos à oferta em vídeo. Não é por se codificarem os canais que se afastam as pessoas da pornografia. Agora, há é que distinguir o que tem qualidade do que não tem”, observa.

Para a CCE, “todo o filme que tenha qualidade não é pornográfico”, explica António Xavier. E se no que respeita ao cinema “já há alguns anos que não aparece pornografia”, só no ano de 2003 foram classificados como pornográficos 277 vídeos (VHS e DVD). O curioso é que esta classificação só se aplica ao circuito comercial de cinema e vídeo. Se um filme pornográfico for exibido em TV em estreia absoluta “não existe qualquer organismo que ‘a priori’ o defina como tal”.

Rui Unas subscreve os canais pornográficos porque acha “graça àquilo”, entende que esse género de conteúdos ajuda a “passar o tempo” e não se excita “particularmente”. Sá Leão só vê pornografia para “fazer pesquisa de mercado”. “Vi muito quando estava a preparar os meus filmes, agora já não tenho necessidade”, confessa.

O Canal Sexy Hot é visto maioritariamente por homens (90,8 por cento), entre os 35 e os 44 anos, de classe A e B, dispersos pelo Litoral Norte e Centro e Interior e Sul do País, revelam os dados da Marktest. No canal Playboy TV, também dominam os homens (78,6 por cento), mas aqui as idades sobem para os 45 aos 54 anos. As mulheres aceitam melhor este canal (21,4 por cento), o que se deve em parte à publicidade internacional que apela para o visionamento a dois. Aqui também é a classe alta que domina, mas os espectadores são mais urbanos, com residência nas zonas da Grande Lisboa e Grande Porto.

HISTÓRICAS POLÉMICAS

Na história da RTP estão gravadas as polémicas causadas com a exibição de filmes como ‘Pato com Laranja’, em 1983, ou ‘O Império dos Sentidos’, em 1991. No caso da comédia italiana, realizada por Luciano Salse, a imagem mais ousada mostrava uma mulher nua, de costas, sentada num sofá, mas isso causou uma enorme discussão na sociedade portuguesa. O caso levou a um debate parlamentar e à instauração de um inquérito interno dentro da estação pública, apesar do filme ter sido “classificado para 12 anos”, recorda António Xavier da Comissão de Classificação de Espectáculos.

No filme do japonês Nagisa Oshima a questão foi mais longe. Todo o conteúdo desta obra-prima, classificada para 18 anos e como filme de qualidade, foi posta em causa, provocando acesas discussões em vários sectores da sociedade, como a Igreja. Para a história fica a declaração de D. Eurico Dias Nogueira, à época arcebispo de Braga: “Aprendi mais em dez minutos de filme do que em toda a minha vida.”

A estação norte-americana Fox tem no ar o concurso ‘Who Wants to Be a Pornstar?’ (‘Quem quer ser uma estrela porno?’). A protagonista é Mary Carey, uma loira platinada que os americanos conhecem por ter falhado a candidatura a governadora do Estado da Califórnia, a favor de Arnold Schwarzenegger. E entre as várias provas que as 28 candidatas têm de prestar, fazer sexo frente às câmaras é decisivo para encontrar a vencedora. A melhor ganha um cheque de 100 mil euros e um contrato de um ano para trabalhar num estúdio de programas para adultos.

A nudez e o erotismo podem ser patamares para a fama. Que o digam Paula Coelho e Carla Matadinho, cujos nomes saltaram para a ribalta por terem assumido atitudes mais ousadas.

Paula Coelho, 27 anos, não percebe porque razão, passado um ano e meio, as pessoas ainda associam o seu nome ao ‘Nuticias’. Mas o facto de no noticiário da SIC Radical ter tirado a roupa à medida que dava conta dos acontecimentos mundiais deve ter ajudado. “Quando aceitei não tinha noção do impacto do programa, mas nunca associei esse formato ao erotismo”, diz Paula Coelho à Correio TV. “As pessoas são livres de pensar o que quiserem, mas quando se fala em nu pensam logo em erotismo, e não é bem assim”, justifica.

Carla Matadinho deu nas vistas ao vencer a edição portuguesa de Miss Playboy TV. Agora, porém, recusa-se a falar do assunto por ter outros projectos no cinema.

Em 1987, Ilona Staller, uma deputada eleita pelo Partido Radical, de direita, aqueceu o parlamento italiano. Dava pelo nome de Cicciolina, artista pornográfica nascida na Hungria, e tornou-se popular por andar de peito à mostra e ursinho ao colo.

A figura loira e inocente foi logo aproveitada pelos media e Portugal não escapou ao fenómeno. A polémica italiana visitou Lisboa a convite do jornal 'Tal & Qual', então dirigido por José Rocha Vieira, que explicou à Correio TV ter achado “graça à figura de uma mulher que fazia pornografia e estava no parlamento”. “O programa incluía uma entrevista ao jornal, uns jantares sociais, nomeadamente um encontro no Tavares Rico com o Herman José, um espectáculo no Coliseu e uma entrevista no ‘Directíssimo’”, um programa de Joaquim Letria, na RTP1.

“Até há fotos da Cicciolina a mostrar a mama ao Letria”, recorda o actual director da 'Focus'. “O que não estava no programa era a sua entrada no Parlamento. Isso foi inesperado. Eu estava a fechar o jornal e ouvi pela rádio o grande ‘escândalo”, recorda o jornalista. “Numa segunda análise, achei genial. Fiz uma crítica ao jornalista que extravasou a missão que tinha, e que era apenas de fazer umas fotos com ela junto à fachada, mas ao mesmo tempo tirei-lhe o chapéu. Ela foi recebida pela Natália Correia e a Helena Roseta e acho que muitos deputados devem ter adorado ver a mama da Cicciolina.”

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