Luís Marques, vogal da administração da RTP, com a tutela dos Conteúdos, na hora da saída, critica o Governo, fala do comportamento de Almerindo Marques e recorda um cartão “simpático” que lhe enviou Rodrigues dos Santos.
- Quais os piores momentos por que passou a administração da RTP?
- Os piores momentos ocorreram entre a nomeação e a entrada em funções desta administração. Depois, correu tudo como planeado. Houve momentos críticos, mas não necessariamente maus.
- O que é que lhes faltou fazer na RTP?
- O essencial está feito, mas ainda falta percorrer um longo caminho para requalificar a oferta do serviço público. É preciso reconhecer, coisa que muitos procuram omitir, que a RTP tem hoje uma programação distintiva dos privados, com ficção de qualidade, documentários, magazines de língua portuguesa, saúde e prevenção rodoviária. Só para dar alguns exemplos. E tudo isto no ‘prime time’ e com excelentes audiências. Comparem com aquilo que a RTP tinha há seis anos. A RTP não é apenas um caso de sucesso financeiro é também um caso de sucesso na sua programação, facto sem o qual a primeira não teria sido possível. Infelizmente, este ponto tem sido pouco valorizado quando se fala da recuperação da RTP.
- A RTP vai ter de reduzir custos. Como o fará? Pela via do despedimento?
- A RTP pode e deve reduzir custos. Como e onde é missão para a próxima administração.
- Se lhes fosse permitido recuar no tempo, o que teriam feito de forma diferente?
- Não teria confiado tanto em algumas pessoas, que pensam mais nelas próprias e nos seus interesses do que na RTP.
- Está a referir-se a quem?
- Não respondo.
- Em consciência, acha que o Governo deveria ter reconduzido esta administração?
- O que é importante é a continuidade da estratégia aplicada para salvar e reestruturar a RTP. Tudo o resto entra na esfera da subjectividade. O que me espanta, aliás, não é a não recondução (que já esperava ), mas o facto de esta administração ter aguentado cinco anos e meio, ter sobrevivido a três governos, concretizando a mais profunda e ambiciosa reestruturação de um operador de serviço à escala europeia.
- Como comenta a forma como o processo foi conduzido?
- Não me cabe comentar a decisão do poder político. Lamento apenas que essa decisão não tenha sido comunicada mais cedo para que cada um pudesse orientar as suas vidas, como, aliás, foi prometido. Infelizmente, esta parte final foi bastante confusa, com prejuízo para os envolvidas e para a própria RTP. O Dr. Ponce Leão já disse o que havia a dizer sobre esta situação.
- O ministro Santos Silva, que falava em continuidade, terá sido ultrapassado?
- Não sei, a única coisa que posso e devo fazer é agradecer as palavras elogiosas do sr. ministro ao trabalho desta administração.
- Como define a atitude do Dr. Almerindo Marques?
- Tomou uma decisão que me surpreendeu e, penso, surpreendeu a todos. Mas é uma opção legítima e só lhe posso desejar o mesmo sucesso nas Estradas de Portugal que teve na RTP.
- É verdade que a sua continuidade foi vetada pelo primeiro-ministro?
- Li essa notícia nos jornais, mas obviamente não a comento.
- Mas já não esperava ser reconduzido?
- A minha posição sobre este assunto transmitia-a ao Dr. Almerindo Marques em Julho.
- Como comenta o facto de o novo presidente da RTP vir de um operador privado?
- Eu também trabalhei num operador privado. Isso é irrelevante.
- Que é que vai fazer a seguir? Vai para a concorrência?
- A forma como o processo correu deixou-nos com pouco tempo para encontrar saídas profissionais. Seguramente que encontrarei a minha.
- Já teve contactos? Com quem?
- Como não sei fazer outra coisa, certamente que irei continuar a trabalhar. Onde? Ainda não sei.
- Voltar a ser jornalista é um cenário fora de hipótese?
- Não, de todo. Sou jornalista, com muito orgulho, tenho a carteira profissional activa, pelo que posso voltar ao jornalismo se essa oportunidade surgir. É mesmo algo que me agradaria muito.
- O que pensa do jornalismo hoje?
- O jornalismo está a viver uma fase difícil, mas não está tão mal como alguns afirmam. O problema é que o sector mudou muito nos últimos anos, principalmente do lado das fontes, e o jornalismo não soube responder e acompanhar essas mudanças. A mim faz-me confusão, por exemplo, que se considere normal o intenso trânsito entre as redacções e as assessorias de imprensa, especialmente as governamentais. Devia haver um código de ética relativamente a estas situações, medida que já propus na RTP.
- De todos os governos com quem trabalhou – Barroso, Santana e Sócrates –, qual foi o melhor?
- Foram momentos e circunstâncias diferentes. No governo de Durão Barroso foi necessário mudar todo o quadro de funcionamento e enquadramento da RTP, missão na qual o papel do ministro Morais Sarmento foi fundamental para dar suporte político, sem o qual não teria sido possível proceder à reestruturação que fizemos. Com os dois governos seguintes houve sempre uma boa relação institucional.
- Qual foi aquele que interferiu mais na RTP?
- Se o sentido da pergunta é o envolvimento em matéria de conteúdos, ou seja, Informação, nenhum deles o fez. Apesar dos eventuais incómodos. Mas a minha experiência de 25 anos de jornalista mostra que ainda está para nascer o primeiro governo que goste de tudo aquilo que os jornalistas fazem, sobretudo quando são independentes. Essa atitude piora quando se trata da RTP, já que o poder a considera como sua. Mas disso só tem medo quem tem telhados de vidro ou falta de carácter. Uma coisa me satisfaz como profissional: tanto a direcção anterior como a actual reconheceram e afirmaram que esta administração nunca interferiu nos critérios editoriais, nunca mandou fazer notícias, nunca mandou alterar os alinhamentos dos telejornais, nunca tomou sequer conhecimento da forma como as notícias são seleccionadas e alinhadas. As direcções de Informação gozaram de autonomia e liberdade totais nestes cinco anos e meio.
- A propósito de Informação: foi o responsável por se reduzir a duração dos telejornais da RTP. Mesmo assim, não acha que ainda são longos?
- Procurei sensibilizar os responsáveis da Informação para a vantagem de reduzir o tempo dos telejornais. Disse-lhes que era importante a RTP dar o exemplo e que não temessem as eventuais quebras de audiências. Apelei sempre para que tivessem a coragem de definir um caminho sem olhar para a concorrência, cumprindo o que está estipulado no contrato de concessão e no livro de estilo da RTP. Há quem diga que isto é interferência. Que seja. Eu nunca me demiti das minhas responsabilidades, balizadas pela lei. Na informação, como no resto.
- Pacheco Pereira diz que a RTP é o aparelho ideológico do Estado…
- Compreendo a visão marxista que o Pacheco Pereira tem da RTP. Compreendo também a ideia liberal que tem para o sector. Entre a primeira e a segunda há um mundo de questões que, por vezes, o Pacheco Pereira simplifica. Dizer, por exemplo, que o presidente da RTP é o primeiro-ministro é um daqueles ‘sound bytes’ que ele tanto critica nos outros. A RTP faz parte de uma cultura de Estado, mas isso não a torna parte do aparelho ideológico do Estado. São coisas radicalmente diferentes.
- Para haver serviço público é necessário haver RTP?
- Nas actuais circunstâncias é impossível. Não acredito que os dois operadores privados cumprissem todas as obrigações do serviço público sem irem à falência ou, noutra hipótese, sem que isso se tornasse financeiramente incomportável para o Estado.
- A RTP devia ser privatizada?
- No actual quadro, não.
- A RTP é ou não caríssima para os bolsos dos portugueses?
- Tudo o que seja onerar o bolso dos portugueses é mau. Mas a verdade é que a RTP é um dos operadores públicos mais baratos da Europa. O custo médio na Europa é de 0,4 % do PIB, enquanto em Portugal é de 0,18 % (em 2001 era 0,35 %).
- A RTP pode cometer erros que haverá sempre dinheiro do contribuinte. Assim, torna-se mais fácil administrar...
- Essa análise é injusta, na medida em que a RTP tem um contrato com o Estado que fixa de forma muito clara qual o valor máximo dos seus custos. Nesse sentido “não há sempre dinheiro” para os erros que se possam cometer. Para além disso, é preciso referir que a RTP está proibida de contrair mais dívida. Tem de viver com o dinheiro que tem e ponto final.
- Qual deve ser a forma de financiamento da RTP?
- Estou de acordo com o Dr. Ponce Leão, quando defende que, tendencialmente, os custos da RTP deverão ser financiados pela contribuição audiovisual. No próximo ano, por exemplo, já haverá uma diminuição do esforço orçamental.
- É a favor ou contra a abertura de mais canais de TV em sinal aberto?
- É inevitável que apareçam mais canais. É uma tendência da tecnologia e do mercado. Mais oferta não significa necessariamente pior oferta.
- Já percebeu o que se passou no denominado caso José Rodrigues dos Santos?
- O que eu percebi é que há um grande equívoco em toda esta polémica. Para algumas pessoas, a administração da RTP deveria ser constituída por contabilistas, encarregues de tratar do dever e haver da empresa, estando o poder real nas mãos de alguns directores. Ora, isto não é assim em nenhuma televisão do Mundo, incluindo as públicas, e também não é o que dizem os estatutos da empresa, que decorrem do contrato de concessão. Respeitando a independência editorial dos directores de Conteúdos, cabe à administração a responsabilidade da execução e controlo dos contratos de concessão, que impõem muitas obrigações, para além das financeiras. Em Portugal, temos esta situação extraordinária: as únicas pessoas que parecem (para alguns) impedidas de falar de conteúdos são os administradores da RTP.
- A nomeação de um correspondente é um acto de gestão?
- É também um acto de gestão, salvaguardado o cumprimento do regulamento interno, aprovado em final de 2004. Antes, o que existia, era a confusão, a total ausência de transparência. Na nomeação de correspondentes tem de haver outros critérios, salvaguardados os editoriais, nomeadamente os que resultam da gestão dos recursos humanos da empresa. Felizmente, existe agora um regulamento que fixa regras claras para o preenchimento destes lugares.
- Rodrigues dos Santos tinha outros objectivos com a entrevista dada à ‘Pública’?
- Provavelmente, saberemos um dia tudo o que se passou entre o início de uma normal reportagem sobre apresentadores e o que saiu dois meses depois. A própria direcção do ‘Público’ tirou as suas conclusões. Outras pessoas já o fizeram também. Acho estranho, no mínimo, o ‘timing’ e o teor do que foi dito.
- Por que é que só agora a administração questionou a assiduidade de Rodrigues dos Santos?
- É falso que essa questão só agora tenha sido tratada. Foi-o, agora, em público, mas já antes, em privado, o assunto tinha sido falado internamente, com quem devia ter sido. Foi um assunto que acabou por resultar do próprio contexto de toda esta polémica. Por regra, nunca falámos destes assuntos em público.
- Afinal, o que se passou com o denominado caso Rosa Veloso?
- Neste caso, o que me choca é a facilidade com que se põe em causa a integridade pessoal e profissional de uma jornalista da RTP. Parece que ninguém pensa nisso e que, com uma total falta de respeito, trata-se alguém como se fosse… ninguém. Ora, essa pessoa existe e existe da seguinte forma: primeiro, foi considerada apta para o lugar pelo júri do concurso, presidido pelo director de Informação; segundo, que eu saiba, tem desempenhado o lugar com agrado da actual Direcção de Informação; terceiro, por isso mesmo, foi reconduzida no posto pela Direcção de Informação em funções. Como é que, perante estes dados, e três anos depois, se continua a falar deste assunto requentado? Trabalhei ao lado da Rosa Veloso, considero-a uma jornalista competente e lamento que muitos que dizem o mesmo em privado não tenham a coragem de a defender em público.
- Rosa Veloso reunia ou não condições para ser candidata?
- Claro que sim. Como já disse, foi considerada apta pelo júri, que a podia ter excluído, como fez relativamente a outros candidatos. O problema é que o concurso estava repleto de falhas, com critérios de avaliação absurdos e injustos, que penalizavam alguns candidatos em favor de outros. Refira-se, a propósito, que até este caso nunca houve problemas na nomeação de correspondentes ou delegados internos e externos, tendo sido possível encontrar soluções consensuais entre a Direcção de Informação e a Administração, nalguns casos por alterações orgânicas sem recurso a concurso. No caso da Rosa Veloso, ela está em Madrid por mérito profissional e não por favor de ninguém.
- Algum governante da época pediu que a escolha recaísse em Rosa Veloso?
- Não. A escolha foi feita pelo Conselho de Administração face ao processo entregue pelo júri de avaliação e ponderados todos os interesses da RTP. Ponto final. Foi isto que aconteceu. Mas sobre esse assunto convém esclarecer o seguinte: há gente a quem faz muita confusão o facto de existirem pedidos. Isso acontece em todas as empresas e eu já vivi situações dessas em todos os sítios em que trabalhei. Na RTP recebi pedidos para muitas pessoas, algumas insuspeitas. Provavelmente sem que os próprios tenham disso conhecimento. Uma coisa posso assegurar: esses pedidos nunca interferiram no nosso processo de decisão. É curioso recordar, aliás, que o lugar de Madrid esteve quase a ser preenchido, antes deste concurso, por um outro quadro da RTP, o que só não aconteceu porque esse quadro desistiu. Ironia das coisas, sem essa desistência, este caso nunca teria ocorrido e é a prova de que não havia uma escolha prévia para aquele lugar.
- Profissionalmente falando, tem críticas a apontar a José Rodrigues dos Santos?
- Não mudei de opinião sobre o desempenho profissional do José Rodrigues dos Santos por causa deste episódio triste. Que eu saiba, o dele a meu respeito também não deve ser diferente daquele que consta de um simpático cartão que me enviou, depois de ter deixado o lugar de director de Informação.
- O que diz esse cartão?
- Só posso reafirmar que é muito simpático.
- Há ou não concorrência desleal com a SIC Notícias? (todos pagamos, mas nem todos temos cabo e, por isso, a RTPN não está ao alcance de todos…)
- Não, não há. A RTPN é herdeira da NTV, que era também um canal com informação.
- Quanto custa a RTPN?
- Menos de três milhões de euros, praticamente cobertos por receitas próprias.
JORNALISTA FORA DO ECRÃ: O MISTÉRIO MOURA GUEDES
- De todos os canais, qual é a Informação que mais aprecia?
- A da RTP.
- A da RTP, sobretudo os documentários, que foram uma das grandes inovações na oferta televisiva em 2007.
- Na concorrência, o que é que mais admira?
- A informação da SIC e, em especial, a SIC Notícias.
- O facto de Manuela Moura Guedes estar afastada dos ecrãs é um erro ou não?
- Para mim, é um mistério ela não estar no ecrã.
PRIMEIRO JORNALISTA A ESCREVER SOBRE O ESCÂNDALO DA PEDOFILIA: AMEAÇADO NO PROCESSO 'CASA PIA'
- O Luís Marques foi o primeiro jornalista a escrever sobre o escândalo da pedofilia, sobre o processo ‘Casa Pia’. Já passaram muitos anos...
- Lembro-me perfeitamente. Estava no jornal ‘Tal & Qual’ e trabalhei a partir de um relatório interno da Casa Pia e de fontes pessoais. Quando a notícia saiu cheguei a ser ameaçado. Depois, as fontes ‘secaram’ e a história caiu no esquecimento.
- Que desfecho espera para o caso que se arrasta nos tribunais?
- Espero que o julgamento chegue ao fim com o esclarecimento da verdade.
MILITANTE CLANDESTINO ATÉ 25 DE ABRIL: MRPP PRESO PELA PIDE
- Chegou a estar preso?
- Sim, pela PIDE, aos 19 anos, e fui militante clandestino até ao 25 de Abril.
- É verdade que escreveu o programa – leia-se a parte relativa à Comunicação Social – do Governo de Durão Barroso, seu camarada nos tempos do MRPP?
- Foi-me pedido um contributo que dei com muito prazer.
- A ligação a Durão Barroso conduziu-o à administração da RTP?
- Não, entre o MRPP e as eleições de 2002 não voltei a cruzar-me com o Dr. Durão Barroso.
- Voltando ao MRPP: foi dos primeiros a abandonar o Comité Lenine, não foi ? Porquê?
- Não sei se fui dos primeiros. Saí quando conclui que aquilo já nada tinha a ver comigo.
- Hoje, tem filiação partidária?
- Não.
'BILHETE DE IDENTIDADE'
Nome: Luís Marques
Naturalidade: Pombal
Idade: 54 anos
Estado civil: Casado, tem dois filhos
Percurso profissional: Jornalista do ‘Tal & Qual’, ‘Expresso’ e SIC, onde integrou a direcção de Informação, antes de ser convidado para vogal da administração da RTP.
HÓBI: Produção de vinhos
Clube: Sporting (sócio com lugar cativo)
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