Amores proibidos perdem vergonha na TV

O tema é ainda tabu, mas há muito que a brasileira TV Globo começou a abordar a homossexualidade com naturalidade. Primeiro timidamente, agora com mais ousadia. Em ‘Senhora do Destino’, duas lésbicas vão viver cenas de amor nunca antes vistas. Por cá, a vergonha fala mais alto…
18.12.04
No Brasil, a homossexualidade integra a realidade da ficção televisiva desde 1980, quando o autor Gilberto Braga insinuou que duas personagens da novela ‘Brilhante’ tinham uma relação amorosa. Daí para cá, muito se andou. Sobretudo, do lado de lá do Atlântico. Por cá, o psiquiatra e sexólogo Alan Gomes não tem dúvidas em considerar “os brasileiros muito mais corajosos”. Lídia Franco, por seu turno, uma actriz que já interpretou uma lésbica que assumiu subliminarmente o amor feminino em ‘Terra Mãe’ (1998), não hesita nem um minuto: “Estes assuntos ainda não são abordados em Portugal. No Brasil, entre outras coisas, as novelas são muito bem feitas e servem para educar a população”.
Mas voltemos à ficção brasileira. Em ‘Vale Tudo’, exibida na RTP 1 em 1990. A consequência foi fatal: as cenas mais polémicas do romance entre duas personagens femininas foram censuradas. Com ‘A Próxima Vítima’, de Sílvio de Abreu (SIC, 1995), a paixão entre Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Luís Mendes) já foi mais bem aceite pelo público. Todavia, os dois actores que interpretaram os papéis não se livraram da agressividade popular na rua. Também em ‘Xica da Silva’, da TV Manchete, transmitida pela TVI, em 1997, Zé Mulher (Guilherme Piva) apaixona-se pelo escravo Paulo (Del Garcês).
Na novela de Manoel Carlos, ‘Por Amor’, transmitida na SIC, em 1998, o assunto foi abordado com cautelas, porque Rafael (Odilon Wagner) viveu apenas uma paixão platónica por Alex (Beto Naci).
UMA EXPLOSÃO POLÉMICA
Foi, porém, em ‘Torre de Babel’ (1999), novela assinada por Sílvio de Abreu, que a polémica foi mais intensa, com o relacionamento assumido entre Rafaela (Christiane Torloni) e Leila (Sílvia Pfeiffer).
No final do século XX, mesmo habituado a algumas ousadias ficcionais, a audiência brasileira não aceitou a paixão tórrida e avassaladora que unia Leila e Rafaela. A Igreja e o público protestaram e exigiram mais comedimento. Na sequência, as cenas onde as duas lésbicas chiques, bonitas e ricas, se cumprimentavam com um discreto beijo na boca tiveram de ser cortadas. O apartamento do casal, idealizado por Sílvio de Abreu, foi alterado. A nudez revelada pelas duas durante o banho, na transparência do poliban, exigiu a sua substituição por uma banheira. E, em vez da cama de casal, a produção optou por duas camas de solteiro.
“Achei razoáveis algumas mudanças. Outras são puro preconceito. Gostaria que elas dormissem na mesma cama, pois o objectivo é que as pessoas aceitem a relação”, chegou a comentar, a propósito, o autor à revista brasileira ‘Amiga’: o moralismo da Igreja e da opinião pública brasileiras falaram mais alto e o guionista teve de reescrever o texto, congeminando uma explosão no capítulo 47, no Tropical Tower Shopping, que matou Leila e Rafaela e salvou a novela de um enorme fiasco financeiro.
Apaziguadas as hostes, ‘Torre de Babel’ recuperou audiências, mas a actriz Sílvia Peiffer, agora a viver em Portugal, não se livrou de ver cancelado um contrato publicitário. E, na rua, foram muitas as vezes que teve de ouvir: “Lá vai a lésbica da novela das 20 horas”.
BEIJO NAS AUDIÊNCIAS
Em 2003, e sob a batuta de Manoel Carlos, ‘Mulheres Apaixonadas’ voltou a dar protagonismo ao amor de duas mulheres, com as estudantes Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli). No último episódio desta produção, o beijo na boca trocado pelas duas jovens fez subir as audiências, apesar da oposição familiar.
Agora, Globo e SIC exibem em simultâneo ‘Senhora do Destino’, onde Aguinaldo Silva se mostra mais ousado e exibe cenas da relação íntima entre Jeniffer (Bárbara Borges) e Eleonora (Mylla Christie). Ambas acordam na mesma cama depois de uma noite de amor e, por diversas vezes, trocam beijos na boca. A boa aceitação das cenas no Brasil levou já o autor a prometer à imprensa brasileira que o par poderá casar e adoptar uma criança abandonada no hospital onde a jovem médica Jeniffer trabalha.
POUCO ENTUSIASMO PORTUGUÊS
Mais conservadora, a ficção portuguesa apenas discretamente tem aflorado o tema da homossexualidade.
Em 1992, na primeira novela que escreveu para a RTP 1, ‘Verão Quente’, Manuel Arouca criou uma personagem homossexual, “um corretor da Bolsa, que tinha uma atracção por um amigo heterossexual e que vivia o drama de ter de o ocultar”, recorda o guionista. Mas nem tudo correu de feição e Manuel Arouca desabafa: “Houve uma má reacção. Ninguém mostrou entusiasmo. Até o actor se prejudicou. Eu nunca mais quis pegar no tema. Não me sinto preparado para o fazer”, assume à Correio TV.
Rui Luís Brás, o actor que interpretou o papel em questão, também não guarda boas recordações dessa novela das 19 horas. “A personagem levou muito tempo a assumir a sua homossexualidade na trama e, talvez por receio de ferir audiências, o tema foi abordado demasiado superficialmente. Não me lembro de nenhum trabalho que, em Portugal, tenha tido como motor principal uma personagem homossexual...” A interpretação da sua personagem trouxe alguns dissabores a Rui Luís Brás: “Passei pela vergonha de ser insultado na rua. Numa dessas ocasiões ia acompanhado pela minha mãe e foi muito desagradável!”, recorda.
ELA NEM SE LEMBRAVA!
Seis anos mais tarde, ‘Terra Mãe’, de Rui Vilhena, a personagem Marcelo (Gabriel Leite) é um homossexual assumido e Isabel (Lídia Franco), casada com José (Marques D’Arede), surpreende todos quando, no último episódio da novela, troca o marido pelo amor de uma mulher.
“Já nem me lembrava... Devo ter assumido a minha homossexualidade muito levemente, porque essa realidade ainda não é abordada em Portugal. O assunto faz parte da nossa sociedade de mentira, onde as pessoas não assumem a sua homossexualidade”, afirma Lídia Franco à nossa reportagem.
Seis anos depois de Manuel Arouca ter abordado o assunto “sem grande entusiasmo”, Rui Vilhena recorda que recebeu elogios da crítica televisiva: “Eduardo Cintra Torres elogiou o facto de não ter pegado no tema pelo lado caricatural. E, de uma maneira geral, a reacção das pessoas foi positiva”. “Não me lembro de ver na televisão portuguesa uma lésbica. Mesmo no caso de ‘Terra Mãe’, seria complicado na altura desenvolver mais a personagem de Isabel. Hoje, o lesbianismo está na moda, ao contrário da homossexualidade masculina já muito explorada! A RTP, com ‘Segredo’, também tem uma lésbica desempenhada pela actriz Maria João Bastos”, afirma Rui Vilhena.
O guionista luso-brasileiro sublinha outra questão pertinente, que se prende com a fantasia masculina muito presente na ficção: “O lesbianismo mostrado na televisão é aquele que o homem quer ver. As lésbicas são sempre mulheres bonitas, esculturais e muito femininas. Nunca vi retratada na televisão a lésbica camionista. Se assim fosse, o público masculino não se interessaria pela novela e a produção seria um fracasso. Na vida real, as lésbicas não são tão femininas quanto se mostra na ficção. E se o são, não assumem totalmente a sua homossexualidade”, garante o autor, que prepara novo trabalho para a TVI.
PEDAGOGIA
Alan Gomes, psiquiatra e sexólogo, partilha da opinião de Rui Vilhena quando diz que as lésbicas da ficção “são bonitas”, “vestem bem” e são “femininas” para “agradar ao público masculino”. É neste enquadramento que existem, lembra o clínico, “os shows eróticos lésbicos”.
“A homossexualidade está a ser abordada pelas televisões dos países civilizados. E se as novelas portuguesas não tratam o tema, já o deveriam ter feito, porque isso seria integrar na ficção um comportamento que existe na nossa realidade. Fazendo-o, a televisão teria uma acção pedagógica e educativa porque o telespectador habituar-se-ia a lidar com a coisa mais normal deste Mundo que é a existência de outras pessoas diferentes de nós”, esclarece o sexólogo, em declarações à Correio TV.
UMA QUESTÃO FAMILIAR
Isabel Fraústo e Helena Amaral, autoras da telenovela ‘O Jogo’, em exibição na SIC, abordam a questão da homossexualidade pelo lado familiar: “Quisemos mostrar como o Tomás (Carlos Vieira) tem dificuldade em fazer aceitar a sua homossexualidade junto da família. E como esta põe em causa a integridade de princípios de Tomás e o seu bom carácter apenas pelo facto de ele ser homossexual. No final, e na sequência na sua rejeição pela família, Tomás tentará o suicídio”, esclarece Isabel Fraústo à Correio TV.
Explica ainda esta guionista que abordar a homossexualidade na fase da adolescência como o fez ‘Mulheres Apaixonadas’, com as duas estudantes, é “menos complicado” do que fazê-lo com duas “mulheres adultas” como tentou fazer ‘Torre de Babel’: “As pessoas são mais permissivas porque a adolescência
é sinónimo de descoberta da sexualidade”.
GAYS CONTRA O PRECONCEITO
“O tratamento da homossexualidade na ficção brasileira reflecte uma maior abertura de costumes. As telenovelas são feitas no eixo Rio de Janeiro e São Paulo, grandes centros urbanos, onde há maior tolerância”, explica António Serzedelo,
presidente da associação Opus Gay. No seu entender, as escassas abordagens ao tema “recorrem ao estereótipo”. O dirigente associativo aponta o dedo
à falta de concertação entre as associações LGBT (lésbicas, gays,
bissexuais e transsexuais), à inexistência de um discurso programático sobre a questão,
e aos preconceitos que ainda minam os fazedores de cultura.
“Nunca nenhum guionista, escritor ou artista se identificou com esta orientação sexual,
e quando o fazem receiam vir a ser identificados com quem não pretendem. Por isso,
o tratamento deste assunto é estigmatizado e preconceituoso”, explica. No Brasil, uma associação congénere à Opus Gay elegeu o tratamento “subtil e pertinente” que Aguinaldo Silva está a dar à relação lésbica de ‘Senhora do Destino’ um dos três mais importantes acontecimentos de 2004.

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