Trabalha a recibos verdes mas garante que nunca esteve desempregada. A estrela da nova série da RTP critica a política cultural.
Como correram as gravações de ‘Depois do Adeus' [nova série de época da RTP]?
Muito bem. Foi muito intenso porque se trata de uma série que, ainda por cima, é de época. Tivemos de ter o cuidado de montar todas as cenas com o máximo de rigor, o que se tornou muito exigente. E as cenas tinham todas uma carga muito grande, não havia cenas mais ou menos.
Quais são as principais características da sua personagem?
A Maria do Carmo é a mão de uma família de refugiados, que vem de Luanda e não tem sítio onde ficar, acabando por ficar em casa de familiares. Tem dois filhos, a Ana [Catarina Wallenstein] e o João [João Arrais], e luta para manter a família junta. Ela é uma matriarca: quer mesmo manter as pessoas juntas e, acima de tudo, ter alguma esperança para os filhos. Basicamente a história dela é uma luta pela sobrevivência e pela união da família.
O que fez para se preparar?
Estudei muito a época. Já vivi essa altura [1975], era pequena mas ainda me lembro de imensa coisa. E a série trouxe-me imensas memórias. Objectos e padrões foram referências de coisas que já não me lembrava. Mas baseei-me também muito em personagens de cinema, sobretudo o italiano e o francês. Além disto, tentei pensar na situação de ficar de repente sem nada, sem referências.
O facto de ser um papel de protagonista acrescenta-lhe um peso acrescido?
Não dá muito tempo para pensar nisso. Claro que, ao início, existem o medo e a responsabilidade associados. Mas a partir do momento é que se começa a gravar, a intensidade é tão grande que não se pensa tanto no medo. Passei mais horas a ser a Maria do Carmo do que a ser a Ana Nave.
Este projecto foi muito diferente daquilo que já fez em televisão?
São todos diferentes. Claro que, o facto de ser de época, acrescenta intensidade. Mas todas as personagens e todos os trabalhos são diferentes e tento encará-los sempre com a mesma responsabilidade, que é a única maneira que me dá prazer. À partida, não há coisas que dêem mais trabalho e outras menos. Não encaro as personagens assim. Neste caso, foi de facto mais exigente porque é uma série de época, com muita gente a trabalhar, algumas especializadas.
Que tipo de formato televisivo gosta mais?
Neste momento é a série. Para mim, esta série foi muito importante porque estivemos, pela primeira vez, a fazer um olhar sobre um determinado período da história. Mas a série é, sem dúvida, o que gosto mais de fazer...
Mais que novela?
Certamente.
Mas tem feito muitas novelas...
Tenho, mas com esta idade já se fez muita coisa.
A sua última novela foi a ‘Rosa Fogo' [SIC], na qual fez também direcção de actores. Gosta desse tipo de trabalho?
Gosto sobretudo em séries, é sempre mais interessante porque trabalhamos com elencos mais pequenos e num número baixo de episódios. Fiz direcção de actores na ‘Cidade Despida' [RTP], por exemplo. Mas a novela também dá prazer. Sobretudo, a sensação de que se conseguiu fazer não sei quantas cenas.
Antes disso fez ‘Liberdade 21'. Foi uma série mal compreendida?
Não. A ‘Liberdade 21' [2008] está agora a passar e tenho tido algum feedback. Parece que não passou tempo porque a série continua a ter actualidade. Sinto muito orgulho de ter participado na ‘Liberdade 21', um género que nunca tinha sido experimentado na nossa recente industria.
Mas não sente que a série foi maltratada?
Não sei o que é que isso quer dizer. Sinto adesão de pessoas que vêm agora a ‘Liberdade 21' com muito gosto. Noutro dia estava numa esplanada e veio um grupo de estudantes de Direito falar da série. Foi muito interessante.
Estreou-se em televisão no ‘Duarte & Companhia'. De que é que se recorda dessa altura?
Recordo-me de sentir que era uma coisa feita com muito amor, uma produção muito caseira, em que os actores se divertiam muito e eram muito generosos. Lembro-me de não saber nada e toda a gente me ajudar imenso.
Que projectos lhe deram mais gosto fazer em televisão?
É muito difícil. Não sou uma pessoa que faça um top 10. Vivo muito de acordo com aquilo que estou a fazer. Portanto, a coisa que mais gosto de fazer é sempre aquela que estou a fazer nesse mesmo momento...
E se lhe perguntar quais foram os projectos mais importantes para o seu crescimento enquanto actriz?
Aí terei de responder que foram projectos em teatro. É o teatro que contribuí para o crescimento e para o fortalecimento da necessidade de representar. Para se ser actor é preciso ter uma necessidade de fazer isto. E essa necessidade vem do teatro, do tempo que se tem para reflectir, para aprofundar uma personagem, para criar bases...
Sempre sentiu essa necessidade?
Sempre. Mas também tive a sorte de nunca ter estado sem trabalhar. Comecei a trabalhar com 18 anos, quando ganhei a carta profissional de actriz, e posso dizer que nunca estive desempregada. E houve muitos anos em que nem férias tive. Embora trabalhe sempre a recibos verdes e seja freelancer.
Depreendo então que o teatro seja a sua área de eleição?
Lá está, não tenho área de eleição, não tenho top. Mas o teatro é a base. Para mim o que distingue o teatro, o cinema - que fiz pouco - e a televisão são tempos diferentes, porque o método como se trabalha uma personagem é igual.
Gostava de ter feito mais cinema?
Ainda espero vir a fazer. Acho escandaloso é uma política cultural que não existe.
Que políticas culturais defende?
Para já haver um incentivo à criação em todas as áreas. Não só no cinema, mas também no teatro, na dança... o que é mais triste é termos tanta gente a estudar, as pessoas formarem-se e depois não se poderem exprimir. Conheço muito gente que está a ir para fora de Portugal porque cá não há condições para fazermos nada e termos uma identidade. Os meus pais tinha expectativas para o meu futuro. Eu tenho uma filha com 18 anos, que está a estudar cinema, e não tenho expectativas para ela cá em Portugal.
Com todas estas dificuldades torna-se inevitável para um actor fazer televisão...
Isso é ver a televisão como uma inevitabilidade. Eu não a vejo assim. Encaro as personagens sempre da mesma maneira. Não faço televisão porque não tenho mais nada para fazer. Faço televisão porque gosto. Não tenho nenhum preconceito em relação a isso. Não olho para a televisão como a última escolha.
Os actores em Portugal são bem pagos?
Não. Já não são bem pagos. Houve uma altura em que eram, agora não. E, ainda pior, não são reconhecidos. Noutros sítios há mais reconhecimento de uma maneira geral.
Não são reconhecidos por quem? Pelo público, pelas entidades...
Pelas entidades oficiais... não são prestigiados, não são bem tratados... a maior parte das vezes os artistas em Portugal são bem tratados quando morrem. É aí que se lembram: o grande actor, o grande músico, o grande realizador... durante a vida não são bem tratados.
Sente-se reconhecida?
Sinto-me reconhecida pelos meus pares, pelas pessoas com quem trabalho. Mas quando falo deste reconhecimento falo de pessoas que têm uma carreira mais longa que a minha. Não estou à procura, ainda, de reconhecimento. Ainda não mereço, tenho muito que fazer.
Na área da televisão têm surgido muito os contractos de exclusividade. Gosta de ter um?
Para já mão está na minha... sei lá, se me fizessem uma proposta louquíssima podia ser bom, mas nunca esteve nos meus objectivos. Mas o País é muito pequeno. E não penso a vida assim.
Vê-se a fazer outra coisa que não seja ser actriz?
Não. E esse é que é o problema, ter 44 anos e só há pouco tempo é que percebi que sou o que sempre quis ser desde pequenina. Não sei fazer mais nada.
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