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O apresentador de “Vidas Reais”, programa da TVI que contrata figurantes para falar de casos reais, admite que o formato tem limitações. “São as regras do espectáculo”, diz, numa sociedade onde as pessoas já aprenderam a “virar o bico ao prego”. Rui Vasco Neto, jornalista.
CM – Como surge a apresentar o “Vidas Reais”, na TVI?
Rui Vasco Neto – Através de convite da Sky Light, a produtora. É a minha primeira experiência no entretenimento. Não é de forma nenhuma o projecto da minha vida porque sou jornalista. Comecei a fazê-lo da maneira que sabia. Tudo sem rede. Fui contratado numa sexta-feira e segunda estava a gravar. Não houve tempo para grandes reflexões. De forma geral agrada-me o programa, mas tem limitações...
– De que limitações está a falar?
– As regras do espectáculo! São fáceis para apresentadores batidos mas para um jornalista é mais complicado. Tento ter uma postura sóbria e não compactuo com aquele espectáculo fácil em que o público se exalta e tenta tomar conta do programa... comigo isso nunca acontecerá. Já tive oportunidade de explorar comportamentos violentos mas nunca o fiz porque me incomoda. Não acredito nesse tipo de confronto para ter audiências. Não acho que isso seja comunicar, nem quero desperdiçar o tempo a ver uns a berrarem com os outros. É um perfeito disparate. Gostava mais de ver o público a discutir argumentos válidos do que a andar à bofetada...
– Os casos são reais?
– São. Os protagonistas é que são contratados.
– Então é tudo encenado?
– Deveria ser, só que os figurantes não estão habituados pois não são actores e, várias vezes, pegam-se a sério e deixam-me a batata quente na mão. Houve alturas em que tive de lhes chamar a atenção. Como é possível alguém vestir a pele de vítima e acusado e agir como se estive a viver o problema? É a natureza humana a falar mais alto. Já tive um caso, num directo, em que o público e os figurantes se pegaram e fui sentar-me num canto à espera que a produção pusesse cobro àquilo.
– O público não deveria ser mais diversificado?
– Essa é a minha guerra com a produção. O que tem acontecido no “Vidas Reais” é que o público pensa todo da mesma maneira. Não há diversidade de opinião e isso empobrece o programa. Para mim o essencial é, sob um pretexto qualquer, discutir ideias e situações que são reais.
– Tem memória de algum caso mais surreal no programa?
– O “Vidas Reais” tem coisas parvas, ridículas, absurdas, engraçadas e interessantes. Mas a vida é isso mesmo. É assim que vejo o programa. Quando começar a vê-lo de outra forma deixo de o fazer porque há casos sem ponta por onde se pegar...
– O que leva as pessoas a recorrer à televisão para conseguirem justiça?
– Essa é a grande questão. Eu nunca o faria. Mas numa sociedade cada vez mais mediatizada, com a comunicação a ganhar peso, é natural que as pessoas tenham a ilusão - não passa disso – de que os casos podem ser resolvidos em praça pública. Hoje em dia, as pessoas já aprenderam a virar o bico ao prego, também já manipulam a própria comunicação e acho muito bem que o façam porque a comunicação também as manipula, umas vezes construtivamente e outras não. No caso da TV, basta haver um advogado a opinar para lhes dar a força necessária para enfrentarem as situações difíceis. E é nesse espaço que vão buscar o apoio que não têm na sociedade civil.
– Os advogados são caríssimos e a Justiça é para os ricos. Não é possível alguém que não tem dinheiro recorrer aos tribunais. Acaba por pagar custos e, muitas vezes, sai mais injustiçado. A TV aparece como o grande veículo. Se levar o meu caso à televisão pelo menos faço-me ouvir. E se, em última análise, não consigo que o destino da minha vida mude, pelo menos dou conhecimento do que se está a passar. Agora, a forma como a televisão usa isso é a grande questão do momento...
– Gostaria de pensar que de forma construtiva. Mas também sei que há muito boa gente que sai prejudicada só porque esteve exposta. Não há preocupação de avisar as pessoas sobre os prós e contras da exposição. É preciso convencê-las a estar ali, ter audiências e depois... lavar daí as mãos. Uma coisa é certa, fazer censura não é o caminho certo. Aliás, fico espantado quando pessoas que lutaram pela liberdade vêm agora aos ecrãs defender uma política de censura na comunicação. É sinal que os direitos fundamentais das pessoas estão a ser beliscados.
CRISE NAS INSTITUIÇÕES DE JUSTIÇA
Na minha opinião a sociedade portuguesa vive uma crise nas instituições de justiça. Não vale a pena tentar tapar o sol com a peneira e não é porque os juízes fazem agora voz grossa que vão impressionar e vamos todos acreditar que a justiça funciona e é muito justa. Não é e nunca foi porque os homens não são perfeitos. Logo a justiça não pode ser justa. Variadíssimas vezes cometem-se injustiças em nome da justiça.
– A exposição das pessoas que vão a estes programas potencia o aparecimento de outras?
– É simples ir buscar casos à vida real. Complicado é tratá-los com seriedade. Quanto ao facto de as pessoas aparecerem cada vez mais só pode ter a ver com o facto de, realmente, algo não estar a funcionar na sociedade civil, na resolução dos problemas na justiça, nas entidades competentes... sei lá! Recebo centenas de cartas e percebo nelas um grande sentimento de injustiça diária tal como percebo que as pessoas acreditam que a televisão pode ser a única porta de saída para a resolução dos seus problemas expondo-se às regras de cada programa”.
Rui Vasco Neto tem 42 anos e nasceu a 4 de Setembro de 1960. É jornalista de profissão e estreou-se na RTP em 1980 onde deu a cara no "24 Horas", "Telejornal" e o ‘Jornal de Economia’. Depois fez produção na Telecine e, em paralelo, esteve no ex-Correio da Manhã Rádio e CNR.
Antes disso passou cerca de 3 anos no Rio de Janeiro, Brasil, onde fez televisão no programa "Portugal Mais Perto", no SPT e trabalhou na Radio Bandeirantes. Actualmente, colabora para o semanário "Independente" como jornalista e, pela primeira vez, faz entretenimento ao apresentar o programa "Vidas Reais" da TVI.
Tem todos os pratos como favoritos porque "gosta muito de comer". É simpatizante do Benfica apesar de não ser adepto de nenhum clube em particular. Sonha um dia "ir à China" porque nunca lá esteve das várias incursões que fez ao Oriente. Qualidades "tem algumas" e defeitos diz "ter todos". Considera-se um mediador entre a ‘desregulação’ social e o grande público no programa que apresenta porque “encarna o papel na perfeição e dá o seu melhor”.
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