O Benfica anunciou publicamente a intenção de criar o seu próprio canal de TV, mas nunca nos três meses inicialmente avançados. A Portugal Telecom deverá ser o parceiro escolhido.
A primeira vez que se ouviu falar da possibilidade de criação de um canal de televisão do Sport Lisboa e Benfica, João Vale e Azevedo era ainda presidente do clube e a SIC detinha os direitos de transmissão televisiva dos jogos do futebol encarnado. Mas como muitos outros projectos da altura, também aquele foi votado ao abandono. Seis anos depois, o Benfica retoma a aposta na criação do seu canal de televisão. Ao que tudo indica, a Portugal Telecom será o parceiro do clube nesta iniciativa mas existem ainda várias arestas por limar antes que a Benfica TV possa ser uma realidade.
Domingos Soares de Oliveira assume que o canal de televisão se trata de “uma ideia antiga no seio do clube” que passou a ser encarada com maior atenção “por esta direcção a partir do início do ano”. E o administrador da Benfica SAD não tem dúvidas em afirmar que esta é a altura ideal para se iniciar a “projecção do canal”. “Existindo, neste momento, no espaço europeu, uma oferta considerável deste tipo de canais, e sendo o Benfica um clube cuja grandiosidade se encontra à altura desses colossos europeus, não faria sentido esperar muito mais tempo”, declarou à Correio TV. No entanto, embora se trabalhe a todo o vapor para que o canal veja a luz do dia o mais cedo possível, o prazo de três meses anunciado pela generalidade da Imprensa parece ser excessivamente ambicioso. “Existiu um erro de interpretação por parte dos jornalistas, já que o Benfica nunca mencionou a intenção de avançar dentro desse prazo”, garante Soares de Oliveira.
O administrador da SAD afirma que “tecnicamente, é possível colocar o canal do Benfica no ar dentro de três meses” mas sublinha que isso “dificilmente acontecerá, pois estamos ainda em processo negocial com vários parceiros que se encontram interessados em participar neste projecto.” No entanto, esta afirmação é rejeitada pela Portugal Telecom. Embora a empresa de telecomunicações não se pronuncie oficialmente, uma fonte interna da PT garante à Correio TV que a TV Cabo é a única operadora em negociações com o clube. “Ou faz algum sentido negociar com operadoras que não têm implementação nacional?”, questiona.
Mas até ao momento não existe qualquer acordo. Um dos motivos prende-se com o que a PT considera ser a ausência de “sustentabilidade do negócio.” A empresa afirma desconhecer o modelo relativo à distribuição de lucros e diz existirem muitos promenores por discutir. “O clube não quer fazer qualquer investimento inicial e pretende suportar tudo com a publicidade. A verdade é que a televisão tem custos imensos e o mercado publicitário não é elástico”, realça a mesma fonte. Mas Soares de Oliveira mostra-se convicto do sucesso: “Se não considerássemos o projecto viável nunca anunciaríamos publicamente a nossa intenção.”
Actualmente, o Benfica encontra-se a ponderar a melhor grelha a apresentar, sendo que são três os modelos em cima da mesa. Mas sabe-se já que o canal viverá, essencialmente, da transmissão dos treinos da equipa profissional de futebol e da emissão de reportagens e entrevistas exclusivas com os jogadores. De forma a complementar esta programação base, Soares de Oliveira garante que “existe todo um conjunto de modalidades extra-futebol com interesse relevante para os nossos adeptos e que serão emitidos no canal.” Em todo o caso, nenhum dos três modelos em estudo prevê uma emissão de 24 horas.
Mas quem irá produzir os conteúdos? Entre os parceiros do Benfica poderão estar os operadores com experiência na produção e emissão de conteúdos desportivos. “Gostaríamos de assegurar a colaboração em determinados aspectos, embora isso não seja uma necessidade premente”, afirma o responsável da SAD benfiquista. E tanto a TVI como a RTP podem vir a ser esses parceiros. Maria Ana Borges de Sousa diz que “a TVI estará sempre pronta a colaborar em projectos que proporcionem vantagens para ambas as partes.” E Hugo Correia Pires (director de Marketing da RTP) considera que “quem tem o know-how, pode e deve colocá-lo ao dispôr dos outros. Faz todo o sentido poder vir a cooperar numa perspectiva de fornecedor.” Quem não parece estar virada para esse campo é a TV Cabo. Apesar de o Benfica ter pedido auxílio à operadora nesta matéria, os fiascos do CNL e da NTV ainda estão demasiado frescos na memória para que a PT corra novo risco.
A confiança manifestada por Domingos Soares de Oliveira é reforçada pela opinião de algumas das personalidades contactadas pela Correio TV. Para o director de marketing da RTP, a ausência dos directos do futebol até poderia ser uma limitação ao potencial do negócio. “Mas hoje, cada vez mais, o que se passa em torno do relvado, o quotidiano do clube e o dia-a-dia dos profissionais do futebol, assume uma importância crescente no acompanhamento do fenómeno futebolístico”, refere Correia Pires, acrescentando que a inexistência de futebol na oferta a curto-prazo não significa que este não possa vir a integrar as grelhas futuras. Opinião mais moderada é a do crítico Eduardo Cintra Torres. Embora também ele acredite no potencial do canal. “Quem procura este tipo de canal são os verdadeiros aficionados. E esses, não se limitam a seguir as incidências no relvado”, declara. Ainda assim, manifesta reservas relativamente ao sucesso junto dos restantes adeptos, para quem o futebol é o fruto mais apetecido. No entanto, recorda a importância da restauração nas assinaturas da Sport TV, eles que representam quase 50% dos clientes da TV Cabo: “E se dessa fatia, 20% assinarem o canal, estamos perante uma boa base de partida.” Mais desconfiada parece estar a PT. “Sem futebol para apresentar, haverá assim tantos assinantes? O Sporting, aqui há uns anos, também quis lançar um canal. E onde está ele?”, questiona.
A verdade é que, no início das emissões da Sport TV, o Sporting apostou na emissão de um progama semanal mas nunca chegou a avançar para o canal próprio. Carlos Severino, assessor de Imprensa do clube de Alvalade, assume à Correio TV que “essa situação chegou a ser ponderada mas, mais à frente, revelou-se impraticável devido aos elevados custos envolvidos.” José Manuel Goulão, enquanto responsável pela área, recorda que “a experiência do programa se deu numa situação completamente diferente.” O Sporting, tal como o Porto, tinha um programa de uma hora que passava na Sport TV. No entanto, “os horários tardios e o facto da TV Cabo se encontar ainda no seu início”, com poucos assinantes, tornou o projecto excessivamente dispendioso. “Percebemos imediatamente que as condições para a emissão desencorajavam claramente a pretensão de um projecto deste género. E lançar um canal, ainda mais difícil seria. Especialmente numa altura em que a Sport TV era o único canal português no cabo”, refere aquele responsável.
" GRANDEZA DO CLUBE JUSTIFICA APOSTA" (Domingos Soares de Oliveira, administrador da Benfica SAD)
- A partir de que momento passaram a encarar o projecto da TV Benfica com maior seriedade?
- A ideia em si já é antiga mas foi no início deste ano que a direcção a passou a encarar com mais atenção. Analisando o sucesso deste tipo de projecto noutros países e considerando que a grandeza do Benfica justifica esta aposta, achámos que este era o momento oportuno para anunciar as nossas pretensões.
- Como se sustentará o canal?
- O nosso objectivo é suportar todas as despesas relativas ao canal com as receitas provenientes da publicidade. Por esse motivo, mantemos em aberto a possibilidade de exclusividade para sócios.
- Já têm uma perspectiva da duração da emissão?
- Podemos assegurar que não estamos interessados no modelo das 24 horas diárias.
"EXCELENTE NOTÍCIA!" (Hugo Correia Pires - RTP)
O director do departamento de marketing da RTP considera que o anúncio de um novo canal de televisão é sempre uma boa notícia.
“Aumenta a oferta televisiva e abre perspectivas aos produtores e distribuidores de conteúdos, dinamizando um mercado que, ele próprio, requer essa dinâmica”, afirma Correia Pires, acrescentando que não vê na ausência do futebol em directo uma limitação no potencial do canal.
"GRANDE POTENCIAL" (Maria Ana Borges de Sousa - TVI)
Maria Ana Borges de Sousa, directora de marketing da TVI, acredita que “o enorme número de adeptos e a força da marca Benfica” garantem ao canal um “grande potencial comercial.” Até porque considera ser “um meio para atingir um público com características muito específicas.” Mas relembra que “a definição do conteúdo, e a sua imagem e dinâmica, serão determinantes na satisfação dos consumidores.”
SIC NÃO FAZ COMENTÁRIOS
Contactado pela Correio TV, o departamento de comunicação da SIC respondeu por e-mail que a estação “não comenta este assunto”. Mas fonte de Carnaxide revelou que a recusa da SIC se prende com o facto de o Benfica estar a negociar o canal com outros operadores, quando foi a SIC, pela pessoa de Francisco Penim (responsável pelos canais cabo da SIC), a apresentar o projecto ao clube.
PREVISÃO DA ASSINATURA
REINO UNIDO: 9 euros (Mensalidade do canal) - 1.150 euros (Salário Mínimo).
ESPANHA: 5 euros (Mensalidade do canal) - 512 euros (Salário Mínimo).
PORTUGAL: 3,35 euros (Mensalidade do canal) - 374 euros (Salário Mínimo).
Partindo de uma análise comparativa, entre os preços praticados pelos canais de televisão associados aos clubes e o salário mínimo do país onde se encontram, concluímos que a assinatura da Benfica TV deverá rondar os 3,35 euros.
CONTEÚDOS DA BENFICA TV
Com os direitos de transmissão televisiva dos jogos de futebol contratualizados com terceiros, a aposta do canal será direccionada para outro tipo de conteúdos ainda pouco explorados. Os treinos da equipa de futebol profissional e as reportagens e entrevistas exclusivas com os jogadores apresentam-se como o grande trunfo das emissões da Benfica TV.
OS CANAIS DE TELEVISÃO DOS GRANDES CLUBES ESTRANGEIROS
MANCHESTER UNITED TV - Pioneiro nestas andanças, o Manchester United emite seis horas diárias (9 euros/mês).
CHELSEA TV - Oito horas da mais variada programação sobre o dia-a-dia dos ‘blues’ (9 euros/mês).
INTERCHANNEL - O grupo SKY proporciona 24 horas de emissão ao adepto italiano (8 euros/mês).
REAL MADRID TV - Os madrilenos mantêm a sua emissão ao longo das 24 horas diárias (6 euros/mês).
BARCELONA TV - Os catalães colocam a sua programação no ar entre as 13h30 e as 02h30 (5 euros/mês).
LIVERPOOL TV - O clube optou por um ‘site’ que permite a visualização de conteúdos televisivos (6,75 euros/mês).
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