Fábrica de sonhos

Foi talvez em 1957, quando Buddy Holly (um dos maiores precursores do rock) apareceu no programa de TV de Ed Sullivan com a sua Stratocaster, que o grande público viu pela primeira vez uma Fender.
21.07.07
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Fábrica de sonhos
Fender comemora 60 anos
Até então, a imagem que se tinha de uma guitarra eléctrica era a de um grande instrumento de caixa. Holly, no entanto, levou a que uma nova geração de músicos se fixasse naquele novo desenho, que mais tarde chegaria às lojas com as mesmas cores brilhantes de um Cadillac.
A lendária guitarra que Jimi Hendrix incendiou no Festival de Monterrey, em 1967, era uma Fender. A guitarra eléctrica com a qual, num festival em Newport, Bob Dylan chocou os mais puristas do folk – fiéis às guitarras acústicas – era uma Fender. Eric Clapton, Jimmy Page, Frank Zappa, John Mayall, Jeff Beck, Sting, Keith Richards, David Gilmour ou Pete Townshend, todos eles usam Fender. A guitarra que Shakira empunhou no ano passado na abertura do Mundial da Alemanha e que mandou cravar a cristais e pedras preciosas era uma Fender.
Depois de no ano passado ter cumprido 60 anos de existência e de no início deste ano ter lançado uma réplica em edição limitada da lendária guitarra de Eric Clapton, a ‘Blackie’, a Fender prepara o lançamento de uma réplica da guitarra de Eddie Van Halen, a ‘Frankenstein’, que será a mais cara alguma vez feita pela marca: 24 mil euros. O instrumento, no entanto, não chegará às lojas já que o stock de 300 cópias feito para todo o Mundo está já vendido. “As encomendas começaram a ser feitas com um ano de antecedência”, revela ao Correio Êxito Renato Gomes, representante da Fender no nosso país.
Em Portugal foi vendida apenas uma dessas guitarras, curiosamente a alguém que nem sequer é músico. “Trata-se de um gestor de empresas”, afirma aquela fonte. Ainda neste ano, a Fender lançará uma edição superlimitada de uma guitarra usada por George Harrison, com preços de igual modo exorbitantes.
Criada por Leo Fender em 1946, a Fender é o quinto maior grupo do Mundo em instrumentos musicais mas a primeira no negócio das guitarras eléctricas. Por ano fabrica 1,1 milhões de instrumentos e factura 500 milhões de euros.
Em Portugal são vendidas anualmente para cima de seis mil guitarras e só a loja Maestro, na Av. de Berna, em Lisboa – considerada a cliente Fender n.º 1 no País, vende por ano entre 1500 a 2000 guitarras da marca. Os preços variam muito. Um “pack Fender”, com guitarra e amplificador, pode custar 150 euros, mas já uma guitarra Fender feita nos EUA é comercializada a partir dos 899 euros. Algumas chegam a ter o preço de um automóvel. “Dentro do grupo temos uma coisa, a que chamamos ‘Fábrica de Sonhos’, que faz guitarras à medida das solicitações dos clientes. E essas, sim, atingem preços muito altos”, conta Renato Gomes. Os modelos mais procurados continuam a ser a Stratocaster e a Telecaster.
A MARCA EM PORTUGAL
Antes do 25 de Abril, a Fender era representada em Portugal por uma casa de instrumentos chamada Gouveia Machado. Depois da revolução, no entanto, o dono da firma abandonou o País e a Fender ficou ‘liberta’. A situação foi aproveitada por um dos sócios dessa empresa, Jorge Sabino, e por João Salgueiro, que juntos fundaram a mítica loja Diapasão (Lisboa) e passaram a representar a Fender em Portugal. “Em 1976 fomos à Feira de Frankfurt, contactámos a marca e manifestámos o interesse em representá-la. Havia também o concurso de uma casa do Porto, mas foi a Diapasão que acabou por ser a escolhida”, recorda João Salgueiro.
A relação durou 25 anos. “Em 2001, a Fender decidiu acabar com os distribuidores na Europa e montar escritórios em Espanha, França, Alemanha, Reino Unido e Escandinávia. “Na altura ficámos um bocado abalados, porque a Fender era a nossa marca de bandeira”, explica João Salgueiro. As consequências foram, no entanto, maiores noutros países da Europa. “O representante da marca na Escandinávia, por exemplo, suicidou-se, e o representante britânico – costumava bater todos os recordes de vendas de guitarras na Europa – acabou por falir.”
‘INSTRUMENTOS DO DIABO’
Quando a guitarra Fender apareceu, muitos consideraram-na um instrumento do Diabo. “Foi uma pedrada no charco. A Fender ainda é hoje o desenho mais copiado do Mundo. Quer as marcas concorrentes, quer as marcas brancas ainda a copiam”, diz Renato Gomes. Verdade é que o fascínio chega a todos. O maior coleccionador de Fender Stratocaster do Mundo, por exemplo, é o actor Steven Seagal. A marca já fez guitarras inspiradas na Harley-Davidson, no modelo de carro Mustang, na Hello Kitty, na ‘Playboy’, e até, imagine-se, no Pato Donald.
Segundo os especialistas, as guitarras Fender contribuíram de tal forma para a globalização dos valores ocidentais, especialmente nos países do Leste, que, segundo o escritor Jim Washburn, terão feito mais para enfraquecer a Cortina de Ferro do que os mísseis intercontinentais. Fender é um mito que nasceu no fundo de um armazém e que resistiu a todas as crises. Diz-se que foi ela que inventou o rock‘n’roll.
“GUITARRAS COM SOM LIMPO E CRISTALINO” (RuiVeloso, (guitarrista português Fender)
- Quando é que teve a sua primeira Fender?
- Em 1982. Foi o meu pai quem a mandou vir de um amigo que tinha na Suíça. Era uma Stratocaster e, curiosamente, é a guitarra mais pesada que tenho. Disseram-me mais tarde que era uma guitarra de estúdio. Pudera! Com aquele peso, não dava para andar com ela de um lado para o outro.
- Quantas Fender tem?
- Tenho dez e este ano mandei vir mais uma, comemorativa dos 60 anos.
- O que é que a Fender tem de especial?
- Primeiro, tem longevidade. Depois, é uma guitarra simples e muito boa de tocar, que nunca sofreu grandes evoluções ao longo da sua história. As Fender antigas ainda são muito boas. É uma guitarra que possibilita um som mais limpo e cristalino, ao contrário da Gibson, por exemplo, que tem um som mais ‘gordo’.
- É o único músico português a ter figurado na revista oficial da Fender, a ‘Frontline’. Isso teve algum significado especial?
- Nem sei como é que isso aconteceu. Um dia ligaram-me e disseram-me que a minha foto estava na ‘Frontline’. Para mim, tem o significado de ser uma revista mítica que já trouxe todos os grandes guitarristas do Mundo.
LEO FENDER ERA SURDO
Quando Leo Fender se iniciou no negócio das guitarras eléctricas tinha uma loja de reparação de rádios na Califórnia. Ainda hoje se diz que Fender era um amigo dos músicos. Muitos deles iam pedir-lhe opiniões e frequentemente acabavam por sair de lá com um amplificador. Certo dia Leo Fender percebeu que conseguia melhorar o som de instrumentos de corpo oco se utilizasse um corpo de estrutura sólida. O construtor convidou para fazer sociedade o músico Doc Kaufmann e juntos formaram um império. As primeiras guitarras e amplificadores foram construídos num barracão, nos fundos da loja de rádios de Fender. Facto curioso, Leo não sabia tocar guitarra e era surdo de um ouvido. Morreu em Março de 1991.
JIMI HENDRIX
Em 1993, uma guitarra Fender pertencente a Jimi Hendrix foi vendida por um milhão de euros ao apresentador de televisão Red Ronnie.
ZÉ PEDRO
“A minha primeira guitarra a sério foi uma Fender Lead. Lembro-me de que me custou dez contos, em segunda mão. Foi com ela que gravei o ‘Circo de Feras’ em 1986.”
MARK KNOPFLER
O guitarrista dos Dire Straits é um dos apaixonados e viciados em Fender. Diz-se que escreveu “Sultans of Swing” para homenagear a marca norte-americana.
ERIC CLAPTON
O músico britânico criou uma das mais míticas guitarras Fender Stratocaster, a “Blackie”, juntando o corpo de uma guitarra, o braço de outra e os carrilhões de outra.
MÁRIO BARREIROS
“Tive a minha primeira Fender aos dez anos e foi o meu pai que me ofereceu. Distingue-se das outras por um som muito mais brilhante”, diz o guitarrista e produtor.
CONCERTO
Em 2004 a modelo Stratocaster comemorou 50 anos com um mega-espectáculo em Londres que reuniu David Gilmour, dos Pink Floyd, a Joe Walsh, dos Eagle.

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