A moda é pôr crianças a servir anedotas para adultos. Pais e educadores protestam, mas ‘Mini Malucos’, ‘Zero em Comportamento’ e ‘Batanitos’ vencem nas audiências.
A ideia, sem ser nova, ganhou nos últimos meses uma dimensão gigantesca com a estreia sucessiva de programas dirigidos a um público que já não se satisfaz só com manequins louras a representarem-se a si próprias ou ‘sketches’ subtraídos às mais velhas anedotas do mundo. É preciso mais. E mais implica entregar de bandeja à miudagem formatos por inteiro como é o caso de ‘Mini Malucos do Riso’ e ‘Zero em Comportamento’ (em exibição na SIC) e ‘Batanitos’ (na TVI). Aqui, são as crianças a assumir o poder tanto na forma adulta, em personagens retiradas do imaginário popular (de que o alentejano ou o S. Pedro são apenas dois exemplos) como no modelo da escola onde um grupo de alunos leva sempre a melhor sobre um professor transformado em alvo fácil a abater. Em qualquer dos casos, as crianças levam sempre a melhor.
As audiências só provam aos canais que investem nessa tendência que o caminho é dos mais acertados. Por exemplo, a estreia de ‘Mini Malucos do Riso’, a 27 de Março, valeu à SIC uma audiência média de 14,1% e um ‘share’ de 37,2% em noite de nomeações da ‘Quinta das Celebridades’ na concorrente TVI, que se ficou pelo segundo lugar. Já em Janeiro, ‘Zero em Comportamento’ e ‘Batanitos’, que estrearam no mesmo dia, conseguiram números também apetecíveis. Jorge Marecos Duarte, produtor e realizador da SP Filmes e um dos principais mentores de ‘Malucos do Riso’ não se surpreende com tamanho sucesso: “É um produto nosso e as pessoas já nos conhecem. A ideia de utilizar crianças é óbvia mas não é uma moda recente. Começou há muito tempo com o ‘Mini Chuva de Estrelas’. É mais uma tendência actual. Os canais querem coisas que resultem e o público gosta, os números mostram isso.” Pedro Curto, produtor da Endemol, responsável por ‘Batanetes’ e pela sua variante infantil, os ‘Batanitos’, não se afasta desta explicação: “Estes programas estão na moda, há uma série deles, porque os resultados são bons”. A apetência do público por este tipo de séries parece óbvia e as televisões estão atentas ao fenómeno, mesmo correndo o risco de esgotar o género ou de enveredarem num processo de repetição.
“Em Portugal, poucas vezes se opta numa lógica de contra-programação entre géneros diferentes. Este tipo de programas com os problemas todos que levantam, quer do ponto de vista da defesa dos públicos mais sensíveis quer do exercício da cidadania, não deverão ser mais do que uma moda passageira”, afirma Francisco Rui Cádima, professor e investigador na área da Comunicação Social, e pai de dois filhos. Sara Barradas, de 14 anos, integra os elencos de ‘Mini Malucos do Riso’ e ‘Zero em Comportamento’, e admite que não tem dificuldade em interpretar nenhum dos papéis que já lhe entregaram: “Até hoje, consegui fazer tudo o que me pediram: de mulher casada, enfermeira, idosa, viúva, hospedeira. É preciso ter cuidado e observar os adultos, mas não é nada assim tão difícil”. Os efeitos que poderão ter nestas crianças a recriação de tipos adultos é que podem não ser fáceis de explicar. Para o pediatra Mário Cordeiro, a questão deve ser gerida com cautela: “Uma coisa é, no meio de brincadeiras só de crianças, em meio pequeno (teatro, por exemplo), as crianças ‘travestirem-se’ de adultos com um fim específico de representação. Outra é ridicularizá-las, quais macaquinhos de circo, para gáudio dos adultos, mesmo que elas achem graça. O facto de ser ficção não aduz nada em relação à adequação e aos possíveis efeitos colaterais do que estão a fazer.”
Nas séries ‘Batanitos’ e ‘Zero em Comportamento’, a acção centra-se numa sala de aulas onde os alunos, rebeldes e indisciplinados, atiram setas ao professor. Saberão as crianças descodificar a mensagem deste quadro? Elas dizem que sim. “Eu também tenho alturas em que me ‘passo’ com algum professor. Isso acontece a toda a gente mas sei muito bem que não podemos fazer na escola o que fazemos na série”, garante Sara Barradas. Já Mauro Wilson, 15 anos e colega de elenco de Sara, não nega que, em certos momentos, já ponderou saltar a linha que separa a ficção da realidade: “Se fosse mais novo, se calhar experimentava brincar assim com algum professor...”. Também neste ponto, Mário Cordeiro diz que todos os cuidados são poucos: “A mensagem não pode ser ambígua. Quando se institui a balda pela balda, sem descodificação, pode estar a apelar-se exactamente aos comportamentos indesejáveis”.
‘Batanitos’, ‘Zero em Comportamento’ e ‘Mini Malucos do Riso’ são programas que João Dias da Silva, secretário geral da Federação dos Sindicatos da Educação, nunca viu. Mas são muitos os comentários negativos que tem ouvido aos seus colegas professores. Segundo diz, há notícia de que nos jardins de infância, “crianças de quatro e cinco anos, reproduzem a reacção, ou o tipo de resposta que viram na televisão, na véspera”. “A escola tem de explicar aos alunos que comportamentos da ordem do anedotário não são reproduzíveis nas salas de aula. O que se vê na TV não é para ser aceite acriticamente, mas para ser visto criticamente”, remata. Sílvia Rosa, proprietária do Jardim de Infância São Vicente, em Torres Vedras, confirma que as crianças “vêem todas estes programas” e “repetem as graças” que ali ouvem. Mas sublinha: “Segundo as educadoras, os desenhos animados têm uma influência mais nefasta sobre as crianças porque contêm mais violência”.
Nelson Lima, presidente do Instituto da Inteligência, deixa um alerta: “A escola da vida real está presente neste tipo de programa. O perigo é que tendo as crianças um sentido crítico menos apurado do que o dos adultos, elas podem pensar que aquele é o modelo de escola”. Reconhecendo uma ‘disfunção’ nestes formatos, alerta: “Estes programas parecem ser para crianças, mas não o são. Muitos intérpretes não sabem bem as implicações de algumas coisas que dizem. E muitas das crianças que, em casa, assistem ao programa podem interpretar mal aquilo que está a ser dito. Se o programa é para crianças teria de ter outro tipo de discurso. Se é para adultos não deveria estar a ser interpretado por crianças. É esta inconsistência que faz destas produções objecto de crítica.” As produtoras juram cumprir à risca todas as limitações impostas pela lei ao trabalho das crianças no universo da TV e Espectáculo. E garantem que os textos são cuidadosamente seleccionados de acordo com a idade de quem os interpreta e que são compreendidos na íntegra pelas crianças. “Caso contrário, não conseguiriam passar a essência da piada para o público”, explica Sal Bonner, da Colosso, que produz ‘Zero em Comportamento’.
O público é quem mais ordena, especialmente este que conduz à ideia de que poderemos estar perante um novo modelo de programa familiar. Estarão as crianças protegidas neste quadro? Francisco Rui Cádima diz de sua justiça: “As orientações da União Europeia e de alguns estados-membros em matéria de televisão dirigida a públicos sensíveis são cada vez mais rigorosas e exigentes. Neste sector, os nossos vizinhos espanhois firmaram recentemente um acordo para estabelecer um código de auto-regulação sobre conteúdos televisivos para a infância. Outro exemplo são os países nórdicos, tradicionalmente muito rigorosos nesta matéria. Estou convencido de que um ‘Mini Malucos do Riso’ na TV Sueca dava um mini-escândalo nacional”.
O PROTAGONISTA: DIOGO MARTINS
Idade: 13 anos
Profissão: actor
Canal: SIC e TVI
Série: Mini Malucos do Riso
- Depois das novelas ‘Amanhecer’ e ‘Morangos com Açúcar’ (ambas na TVI), estreias-te agora numa comédia. Foi difícil a adaptação?
- Não, já conhecia a série [‘Os Malucos do Riso’] e foi só necessário imitar os mais velhos. Acho até que é mais fácil do que fazer novelas.
- Que género de personagens já interpretaste nesta comédia?
- Já fiz de alentejano, de S. Pedro, de chefe de uma empresa e gostei muito.
- Tiveste alguma dificuldade especial com os textos?
- Por vezes, são um bocado grandes e eu não percebo algumas das piadas. Mas quando isso acontece, pergunto ao realizador ou então aos meus pais.
- E consegues conciliar o trabalho com a escola?
- Sim, até ao momento nunca senti grandes dificuldades.
O QUE OS MAIS PEQUENOS PENSAM
FILIPA NEVES (8 anos, Évora)
"Destes três programas prefiro os ‘Batanitos’. Percebo quase tudo e farto-me de rir com as anedotas."
JOANA MARQUES (11 anos, Leiria)
"Só vejo de vez em quando o ‘Zero em Comportamento’. É uma turma que se porta muito mal. Acho divertido, é diferente.”
BERNARDO SERRA (7 anos, Faro)
"Vejo os ‘Batanitos’. E só não vejo o ‘Zero em Comportamento’ e o ‘MiniMalucos’ porque a minha mãe não autoriza."
VASCO QUEIROZ (13 anos, Porto)
"As anedotas dos ‘Batanitos’ são básicas e a maioria dos actores não tem qualidade. Os outros não vejo, pois não têm piada."
GRANDE SUCESSO DE AUDIÊNCIAS
A comédia ‘Mini Malucos do Riso’ regressa ao ecrã ainda antes do Verão, mas para já a estreia desta versão de humor com crianças foi auspiciosa para este formato exibido pela SIC.
MINI MALUCOS DO RISO
Canal: SIC
Estreia: 27/03/05
Actores: Diogo Martins, Pedro Cary e Pedro Pinheiro
Os alentejanos, a prisão ou o manicómio dão o mote a estes actores de palmo e meio.
ZERO EM COMPORTAMENTO
Canal: SIC
Estreia: 13/05/05
Actores: Dário Miguel e Sara Barradas
A sala de aula é o cenário principal desta série de humor. Alunos e professores os protagonistas.
Canal: TVI
Estreia: 13/01/05
Actores: Mariana Lourenço e Pedro Martins
Crianças reproduzem as peripécias de uma família portuguesa semianalfabeta e hilariante.
VASQUINHO E COMPANHIA
Miguel Neto e Rita Lopes integram o elenco desta nova série da TVI, que já está em fase de gravações.
OS 'CACHETS' DOS NOSSOS PEQUENOS ACTORES
Contratos e ‘cachets’ dos jovens actores podem ser acertados pelas agências ou directamente pelos pais dispensando, assim, os intermediários e evitando despesas.
500 euros/mês - Dayrone dos Santos. Valor mínimo para principiantes.
800 euros/mês - Mariana Lourenço. A experiência é uma mais-valia.
1.250 euros/mês - Diogo Martins. Talento e prestígio são bem pagos.
AUTORIDADE QUESTIONADA
“Estes programas fazem passar a imagem de que o professor é incompetente e incapaz de manter, dentro da sala de aula, um ambiente propício à aprendizagem”, diz João Dias da Silva, dos Sindicatos da Educação. “Não defendemos um clima de terror, mas consideramos fundamental preservar dentro da escola a autoridade”.
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