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Correio da Manhã

Tv Media
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Imitação da vida como ela é

Há alguns anos a Globo produziu uma excelente colecção de pequenas histórias do quotidiano, baseadas nos contos de um dos expoentes da dramaturgia brasileira do século XX, Nelson Rodrigues. Eram histórias devastadoras, muitas vezes duma crueldade irracional. A série chamou-se simplesmente ‘A Vida Como Ela É’.
1 de Fevereiro de 2008 às 00:00
Não era preciso dizer mais nada. Entre os actores surgiam nomes como Maite Proença, Marcos Palmeira, Tony Ramos ou Malu Mader. A RTP ainda chegou a fazer uma adaptação de alguns desses contos, mas o resultado foi rapidamente esquecido. Tudo isso tem a ver com a série que a TVI estreou, ‘Casos da Vida’.
Nada aproxima o que a Globo fez do que a TVI faz, excepto ir em busca de histórias que se possam passar no dia-a-dia das pessoas comuns. Mas é aí que está a diferença. Enquanto a série da Globo nos deixava com pele de galinha, irritados, pensativos, a da TVI tem um balanço de telenovela muito forte. Compreende-se que o canal esteja a tentar abrir novas portas face ao ‘know-how’ da criação de telenovelas, mas as séries requerem outro tipo de tratamento a nível de argumento.
No primeiro episódio, ‘Noivas de Maio’, a base da história era interessante e havia um bom leque de actores (de Nicolau Breyner a Maria João Bastos), mas nitidamente notava-se que ele ficava entre um conto que deveria ser resolvido agressivamente e a envolvência que permite uma telenovela. Sinal disso era o excesso de música, durante largos períodos, onde nada se passava. Ou é um episódio de uma série (com princípio, meio e fim) ou é uma telenovela. Não pode querer ser as duas coisas ao mesmo tempo. Não é que o resultado final seja medíocre (não é), mas falta-lhe um registo (de uma hora) que possa prender o espectador e dar-lhe um resultado sem divagações.
O segundo episódio, ‘O Caso Mariana’ (cujas semelhanças com acontecimentos reais não é, por certo, fruto do acaso) tem as mesmas virtudes e defeitos: há cenas que se arrastam sem sentido (os minutos do pós-parto, a médica a brincar no jardim com a menina...) e isso não confere ritmo à história. Compreende-se que se pretenda criar clima de ‘emoção’ mas basta ver qualquer série estrangeira para se perceber que isso pode ser conseguido de forma a dar muito mais riqueza visual e de acção ao espectador. Veremos o que nos reserva o futuro próximo.
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