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MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

Mariette vai sofrer partida do destino

Autores da nova ‘Vila Faia’ criaram vários finais para aguçar o apetite dos espectadores. Na versão de 2008, o casal Mariette e Godunha pode ter um final romântico e feliz

11 de abril de 2008 às 00:00

Mariette, a personagem interpretada por Inês Castel-Branco em ‘Vila Faia’, vai sofrer de leucemia. No original de Francisco Nicholson, exibido em 1982 na RTP 1, a prostituta morria de uma doença que não estava bem definida. 'Nunca ficou muito claro se era tuberculose ou cancro. Quando ela começa a adoecer até se dá a entender que seria de sífilis, devido à profissão que exercia, mas depois há, claramente, um recuo e optam por uma doença que, presumo, seja mais do tipo cancro', exclarece Joana Jorge, coordenadora do ‘remake’ da primeira novela portuguesa à Correio TV.

Passados 25 anos a Mariette volta ao pequeno ecrã. E, dentro de alguns episódios, vai descobrir que sofre de leucemia. 'Escolhemos uma doença com cariz de serviço público, que permitisse imprimir alguma pedagogia à narrativa. A Mariette vai ter uma forma de cancro e o objectivo é, de alguma forma, conseguir gerar um movimento em torno da novela que apele à consciência das pessoas para as necessidades que existem neste momento de doação de medula. Foram criados alguns episódios prepositadamente para consciencializar os telespectadores e despertá-los para esta necessidade. Escrevemos vários finais, uns em que ela morre e outros em que se salva. Mas o que irá para o ar será, obviamente, uma decisão da RTP', adianta Joana Jorge.

Inês Castel-Branco disse à Correio TV que a sua Mariette, além de ter tido uma vida dura, ainda vai sofrer uma partida do destino, porque vai adoecer gravemente. 'Ela vai passar mais um mau bocado. Posso dizer que os últimos episódios são muito trágicos e de lágrima no canto do olho. Agora não sei se acaba bem ou mal', referiu a actriz sobre a sua personagem. Sabe-se que, num dos finais gravados, ao contrário do original, Mariette sobrevive e fica ao lado do filho, Rui.

A autora confessa que houve, desde o início da novela, uma tentativa de imprimir actualidade ao remake: 'A violência nas escolas é uma das temáticas que é transversal a toda a novela. Aconteceu uma coisa curiosíssima o fim-de-semana passado, que não passou de uma coincidência, mas de facto levanta um bocadinho o véu da tentativa de mostrar a actualidade do País em ‘Vila Faia’. Tivemos no episódio de domingo uma situação de um miúdo numa sala de aula com um telemóvel. Isto foi escrito há meses. Não deixa de ser curioso, com esta polémica toda entre a aluna e a professora do Porto, que as imagens tenham sido exibidas agora, mas foi mera coincidência. Este caso específico terá piada pelo que aconteceu recentemente mas outros virão em termos de narrativa.'

Outro dos temas a abordar é o da menopausa, ainda considerado tabu pela sociedade portuguesa, e que será vivido por Beatriz Marques Vila (Susana Borges). 'Falámos com muitas mulheres e elas não discutem abertamente o assunto e nem sequer aos maridos dizem que estão a entrar na menopausa. Começamos com o lado negativo, sob o ponto de vista da personagem, mas ao longo da novela vamos mostrar a normalidade com que o tema se deve encarar. Vamos mostrar o que acontece a muitas mulheres que, nessa fase da vida, fazem uma tentativa clara para renovar os seus interesses e mudar a sua postura. Deixarem de viver para o marido e para os filhos, que é uma característica das mulheres do nosso País', acrescenta.

Certo é que nos últimos episódios haverão algumas surpresas em relação ao original. 'Em 1982 não havia muitos finais. Na altura este conceito não existia. Para preparar o remake vi o original e fiquei muito impressionada. Em termos dramatúrgicos está lá tudo, mais ou menos explorado, e depois era de facto um retrato muito fiel do que devia ser Portugal há 25 anos. Mas, por outro lado, não há ritmo, as cenas são muito longas, o que é naturalíssimo porque na época não havia o conceito de fim. Isso deu-nos mais liberdade e agora no remake pudemos fechar essas histórias. Havia o final da família Marques Vila, que conseguia recuperar a casa e a empresa, o da Mariette (na altura interpretada por Margarida Carpinteiro) e do Godunha (Nicolau Breyner), o do Mariano (Carlos César), que morria, e ainda o do Pedro Marques Vila (Nuno Homem de Sá) e Cristina Andrade (Manuela Marle). No remake pudemos construir vários finais e ‘fechar’ o que tinha ficado subentendido no original. Tivemos mais história e mais espaço, fizemos 120 episódios de 45 minutos cada, e ‘enxertámos’ muita história, porque em 1982 eram apenas cem episódios de 25 minutos', adianta Joana Jorge.

Gaspar Guerreiro (Gonçalo Diniz) e Henrique Gouveia (Pêpe Rapazote), são agora duas personagens que resultam do desdobramento do Mariano da primeira versão. Um deles terá o mesmo fim do personagem original, ou seja a morte, e o futuro do outro fica em aberto. 'Há a ideia de que os maus nas novelas têm que ser castigados e os bons são felizes para sempre. Fizemos uma brincadeira e deixámos uma porta aberta... será que é castigado ou não?', refere. Para Gonçalo Diniz os vilões têm de acabar mal. 'Desta vez, pedi para esta personagem acabar bem, mas não quiseram. Adorei o final do Gaspar. É uma história que ficou bem explicada, que tem princípio meio e fim e está muito bem contada. O fim é lógico e óbvio, mas inesperado na forma como é feito', confessa o actor. Por sua vez Pêpe Rapazote diz que o final do seu Henrique é prevísivel. 'A forma como chega ao fim é surpreendente. Não o sítio onde termina mas a forma como termina. Este tipo só pode acabar mal, porque é mauzinho. Mas vai ser engraçado', conclui.

Para a autora Joana Jorge, contudo, o final mais bem conseguido é o do casal Bruno (Pedro Saavedra) e da Inês (Sandra Faleiro). 'Eles têm personagens hipercomplexas, não são protagonistas da novela mas têm, provavelmente, a par com o Godunha e a Mariette, das personagens mais complexas, porque não são nada lineares. São muito humanas, mas misturam o bem e o mal a um limite que vai até ao fio da navalha', remata.

CURIOSIDADES:

MAIS 20 EPISÓDIOS

Vinte e cinco anos depois ‘Vila Faia’ tem mais 20 episódios em relação ao original e mais vinte minutos por episódio. Tem também a particularidade de ser uma novela exibida apenas aos fins-de-semana, o que gerou certa polémica. Aborda temas actuais e prementes.

MENOPAUSA

Beatriz Marques Vila (Susana Borges) vive um tema ainda tabu. 'Esta fase da vida da mulher é como a reforma e pode permitir procurar outros interesses e ver as coisas de forma menos dramática', diz Joana Jorge.

ENÓLOGO VILÃO

Gaspar Guerreiro (Gonçalo Diniz) é um dos vilões da trama. Esta personagem vai ser uma das responsáveis pela falência dos Marques Vila. Gaspar é o desdobramento do Mariano, que foi interpretado no original por Carlos César.

MELHOR FINAL

Para a guionista, o final mais bem conseguido é o do casal Inês (Sandra Faleiro) e Bruno (Pedro Saavedra). São personagens que exigiram um trabalho muito grande de actor e que têm um final nada moralista.~

MAU DA FITA

Henrique Gouveia (interpretado por Pêpe Rapazote) é o outro desdobramento de Mariano e, segundo o actor, terá um final previsível porque é mesmo ‘mauzinho’

ESTREIA

Marta Leite de Castro estreou-se como actriz na pele da advogada Sofia Gouveia. Curiosamente o papel que a actriz agora interpreta coube, na versão original, a Curado Ribeiro, que na altura fazia de Dr. Salema

'É UMA APOSTA GANHA'

Joana Jorge é a coordenadora do remake da novela ‘Vila Faia’, escrito por uma equipa de cinco guionistas da ScriptMakers

IDADE: 27 ANOS

PROFISSÃO: GUIONISTA

Está satisfeita com o dia e horário da novela?

Naquele horário é o programa mais visto. Se considerarmos que isso é uma aposta ganha, respeito. Nunca ninguém nos disse que a novela ia passar de segunda a sexta-feira às 21h00, assim como também nunca nos disseram que ia passar ao fim-de-semana entre as 18h00 e as 20h00. Pediram--nos episódios de 45 minutos e isso foi feito. Uma novela, por definição, é um produto que deve ser exibido diariamente para permitir a fidelização do telespectador. Uma série passa uma ou duas vezes por semana. Há diferenças técnicas, em termos de guião, que são consideráveis.

Como é que reagiram?

Houve uma tristeza generalizada. As pessoas esperavam um reconhecimento diferente. Mas fico feliz ao ouvir o Francisco Nicholson, autor do original, dizer que gostou muito.

Quantas pessoas trabalharam na novela?

Além de mim, que sou a coordenadora do projecto, a equipa de guionistas da ScriptMakers é composta por Alexandre Castro, Miguel Crespo, Andreia Vicente e José Pinto Carneiro. No meu caso pessoal posso dizer que durante sete meses não tive um fim-de-semana e trabalhei das 08h00 às 21h00. Mas esta equipa é um bombom. Tem dom e capacidades extraordinárias e uns egos muito fáceis de controlar.

O balanço foi positivo?

A maior felicidade que posso ter é quando os actores chegam ao pé de mim e dizem: 'grandes textos, obrigada'. Isto é extraordinário. Não há nada melhor. Portanto é positivo.

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