A SIC celebra 20 anos amanhã e a Correio TV foi até às suas instalações, em Carnaxide, para conhecer o ‘coração’ da primeira estação de televisão privada em Portugal.
Estivemos na redacção, onde Cândida Pinto recorda que na estreia do canal estava a fazer a cobertura das primeiras eleições em Angola; visitámos a régie, onde o realizador Nuno Bogarim conduzia a emissão; passámos pela ‘continuidade’, assistida por Nelson Parreira, um dos 17 profissionais que garantem que tudo chega a horas e sem falhas a casa do telespectador; e ainda estivemos no arquivo, com a coordenadora Ana Franqueira, a orientar a organização das mais de 200 horas de informação que ali chegam diariamente.
A viagem começa na recepção, palco de uma exposição de imagens de ‘grandes momentos’ do canal, do entretenimento à informação, desde o dia de estreia, 6 de Outubro de 1992. "O momento mais marcante da SIC foi sem dúvida o arranque", diz Francisco Pinto Balsemão, que elege como o pior "a tragédia de Entre-os-Rios". Vinte anos depois, o fundador e presidente do canal de Carnaxide diz à Correio TV não ter dúvidas: "A SIC continua a oferecer os mesmos princípios, que são imutáveis, da liberdade, mas também da responsabilidade e de independência dos poderes políticos, económicos e culturais."
Seguindo o trilho: encontramos uma vitrina com troféus, medalhas e até uma planta do edifício do canal que cresceu e diversificou a sua oferta: SIC Notícias, SIC Mulher, SIC Radical e SIC Internacional. Uma oferta que se estende a "outras plataformas", as quais permitem "que hoje vejamos as notícias quando quisermos", sublinha Maria João Ruela. Também Aurélio Faria acredita que a SIC do futuro vai ser "ainda mais interactiva". "Acabamos por trabalhar mais do que há 20 anos, porque somos polivalentes. As sinergias, a multimédia, o on-line... são palavras mágicas que nos fazem trabalhar mais, mas isto é mesmo assim. Temos de pensar de várias maneiras", diz o jornalista. Opinião corroborada por Teresa Dimas, que fala com a Correio TV à saída do estúdio, após uma emissão para a SIC Notícias, ao lado de José Gomes Ferreira.
Para os próximos 20 anos, Francisco Pinto Balsemão espera que o canal que criou "aproveite as inovações tecnológicas". É essa também a ideia de Pedro Coelho, apanhado mesmo de partida para a Assembleia da República. "A SIC tem acompanhado o ritmo dos tempos e acredito que vai continuar", diz o jornalista, que nos confidencia: "Espero continuar na SIC com o mesmo entusiasmo com que entrei há 20 anos." Com a mesma garra de outrora, Anabela Neves admite não ter dúvidas de que a meta "envolve a adaptação às novas tecnologias". Já Augusto Madureira destaca reportagens que o marcaram, como "o começo do fenómeno da imigração de Leste" ou "sobre doentes terminais, feitas às cinco horas da manhã". Para o jornalista, em tempo de balanço, é importante a estação não descurar "o seu ADN de isenção, rigor e crítica".
Nota importante, e referida pela maioria dos profissionais da redacção, são as relações humanas. A amizade é bandeira entre os veteranos, bem como a cumplicidade destes com as gerações mais novas que chegam hoje à redacção com a ambição de enfrentar o perigo, sobreviver e ter uma história para contar. Algumas trágicas. Alcides Vieira, director de Informação da SIC, recorda com pesar o acidente de uma das suas repórteres. "O momento mais doloroso nestes 20 anos foi quando recebi o telefonema do Iraque a dar conta de que a Ruela tinha sido baleada", confidencia à Correio TV. São riscos da profissão, marcas que o coxear da repórter a caminhar pela redacção não deixam esquecer. "Foi uma experiência que terminou da pior maneira possível. Obviamente que fiquei com uma marca para sempre e que podia ter morrido no exercício da minha profissão e por isso foi um mau momento", admite Maria João Ruela. Mas depressa a jornalista apaga o episódio negativo e, com um sorriso, revela um bom momento dos seus 20 anos na SIC: "Foi aqui que conheci o meu marido [José Ribeiro da Silva]." E volta para o seu posto de trabalho na redacção para onde entrou com 22 anos. De outras afectividades falou Teresa Dimas momentos antes: "É um grande luxo poder vir trabalhar todos os dias com uma enorme alegria, porque encontramos pessoas que gostamos, num trabalho que adoramos", conta a jornalista, que entrou no canal cinco meses antes da sua estreia. "Éramos todos tão novos...", recorda, recusando lembrar-se de maus momentos. Como Aurélio Faria: "Evito pensar nisso", disse o jornalista, que não resistiu a revelar uma história que o marcou: "A expedição de alpinismo de um grupo de portugueses ao Tibete, liderada por João Garcia, em que o alpinista Bruno de Carvalho morreu. Voltei com o dilema de ‘como se contar glória e tragédia na mesma história’, como se editam as imagens..." E por imagens, o jornalista lembra os câmaras: "Acabamos também por fazer amigos, com pessoas que vão connosco ao fim do mundo e voltam: os repórteres de imagem. Isto é um trabalho de equipa e sem eles não temos nada."
Do outro lado da rua, no Parque Holanda, encontram-se os três estúdios que servem os programas de entretenimento da SIC e dos canais temáticos. Infiltrámo-nos no cenário de ‘Boa Tarde’, quando Conceição Lino se preparava para dar início a mais uma emissão. Espreitámos ainda o cenário das manhãs de ‘Querida Júlia’ e visitámos a maquilhagem, onde se realçam os traços dos rostos que entram na casa dos portugueses há 20 anos.
Francisco Pinto Balsemão considera que chegados aos 20 anos está na altura de reflectir: "Sobre o que fizemos e o que queremos fazer." E recorda o dia D: "Quando a SIC foi fundada, pensava que iríamos conseguir ficar à frente das audiências muito mais cedo. Foi mais difícil do que pensávamos. Eu pelo menos pensava e desejava. Mas isso só aconteceu em 1995", lembra o mentor do primeiro canal de televisão privado em Portugal. Alcides Vieira, director de Informação da SIC, e Cândida Pinto, coordenadora da ‘Grande Reportagem’, também olham com encanto e alguma nostalgia para o passado. Lembram as conquistas individuais: para o primeiro é inesquecível a estreia do ‘Praça Pública’. "Foi o programa bandeira da estação, porque aproximou as pessoas à televisão", recorda. Para Cândida Pinto, foi quando começou a ‘Grande Reportagem’. E numa visita rápida ao passado, lembra: "A primeira fase foi de uma força enorme, vibrávamos muito com o sucesso uns dos outros." Sucessos feitos de histórias em cenários de guerra ou lugares inóspitos que estes e outros jornalistas contaram na obra ‘Histórias de uma Revolução: SIC 20 anos, os Bastidores da Informação’. Outras histórias conta Felisbela Lopes em ‘Vinte Anos de Televisão Privada em Portugal’, um livro com entrevistas a Pinto Balsemão, Pais do Amaral ou José Eduardo Moniz.
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