As rotinas, as manias e os rituais dos apresentadores de noticiários preferidos dos portugueses contados pelos próprios.
Todos os dias entram em casa de milhões de portugueses. Alguns há mais de 20 anos, o que os tornou rostos familiares. Mas o que distingue e o que têm em comum José Rodrigues dos Santos, José Alberto Carvalho, Rodrigo Guedes de Carvalho ou José Carlos Castro? Para lá de serem os apresentadores de noticiários televisivos preferidos dos portugueses, partilham o facto de nunca terem querido ser pivôs até ao dia em que alguém lhes disse: ‘Agora apresentas tu o Telejornal!’. Hoje orgulham-se do seu trabalho e fazem tudo para o melhorar todos os dias.
APRESENTADOR PREFERIDO
José Rodrigues dos Santos, que, de acordo com um estudo recente do Observatório da Comunicação (Obercom), é o apresentador preferido de 23,1% dos portugueses, defende que só há um segredo para se ser um pivô de sucesso: “Tem de ser ele mesmo, suponho. Não há nenhuma fórmula.” Nem mesmo a imagem tem, para o jornalista da RTP, um peso determinante na conquista de público: “Tudo tem importância. Mas, por vezes, ao focarmo-nos nos pormenores de imagem, tendemos a esquecer o essencial: o conteúdo. O mais importante num noticiário é a notícia.”
Considerado também o pivô mais divertido da televisão portuguesa por 35,1% dos inquiridos no estudo do Obercom, José Rodrigues dos Santos mantém, no entanto, uma perspectiva muito séria em relação à sua carreira: “Para fazermos bem, temos de ser independentes e estar dispostos a lutar pela independência contra aqueles que tentam interferir no nosso trabalho. E devemos lutar mesmo quando a nossa resistência acarreta grave prejuízo pessoal ou profissional.” O trunfo do pivô que saltou para a ribalta com o trabalho que fez durante a Guerra do Golfo, em 1991, consiste em não ser apanhado desprevenido em momento algum. Para José Rodrigues dos Santos é tudo uma questão de preparação.
“Não estar preparado é o pior que pode acontecer a um pivô, estar preparado é o melhor”, explica. Por isso, o único ritual que cumpre antes de entar no estúdio onde apresenta o Telejornal é mesmo “estar informado”.
Por seu lado, José Alberto Carvalho defende que “o mais importante para o sucesso de um pivô é a voz”. “Apesar de se passar a ideia de que a televisão vive da imagem, julgo que a televisão vive muito também da voz. É a voz que ajuda a gerar empatia com as pessoas. Não tem nada a ver com ter uma boa ou má voz, mas com a forma como é modulada, como ajuda a transmitir o tom que o pivô quer imprimir”, explica o também director adjunto de informação do canal público. Rituais antes de ir para o ar, José Alberto Carvalho confessa ter dois: “Levo sempre duas garrafas de água para a mesa do Telejornal, às vezes mais, e entro no estúdio sempre em cima da hora.
Gosto de levar a adrenalina até ao limite.” Já em relação ao pior que pode acontecer a um pivô que está em directo, o jornalista da RTP considera que “nada ultrapassa uma notícia errada, com dados incorrectos ou falsos”. Contudo, as falhas dos recursos técnicos são vistas como algo normal. “Ainda há pouco tempo tive um momento que foi, no mínimo, embaraçoso, pois, devido a um engano na contagem do tempo de uma reportagem, apareci no ar a beber por uma garrafa de água”, recorda José Alberto Carvalho.
RODRIGO GUEDES DE CARVALHO
Rodrigo Guedes de Carvalho, considerado o pivô mais credível e divertido da SIC segundo o estudo do Obercom, confessa que toda a sua rotina é orientada para a produção do ‘Jornal da Noite’. “Ao fim de 20 anos não me preparo, vou estando preparado. Isto é, faço um acompanhamento contínuo da actualidade. A primeira coisa que faço de manhã é ouvir as notícias na rádio e ler os jornais.” Para Rodrigo Guedes de Carvalho o pior que pode acontecer a um pivô “é ser apanhado desprevenido”.
Por isso, o trabalho começa logo às 11h00, com uma reunião editorial. Depois, é uma tarde a tomar decisões e a fazer adaptações: “O repórter faz a sugestão de pivô [texto de abertura] e eu vou adaptando”. “É preciso não esquecer que o pivô é um jornalista, não um locutor. Tem de adaptar tudo ao seu estilo, principalmente agora que os jornais são bastante longos, com 50 ou 60 pivôs para ler, por isso, é um trabalho permanente ao longo do dia”, sustenta. O objectivo é só um – “garantir que o jornal é exequível”– e para que isso aconteça o apresentador da SIC mantém-se “em vigília permantente sobre as equipas que estão no terreno”. “Temos de ter sempre noção do que está a ser feito, pois pode haver contratempos”, explica. Manias, apena uma: “Não sei se é mania ou superstição, mas vou muito cedo para o estúdio. Gosto de me sentar, ligar o computador 15 minutos antes e aproveitar o silêncio daquele local ainda vazio. Gosto muito dessa tranquilidade antes da ebulição.”
No entanto, e apesar dos 20 anos de experiência em frente às câmaras, Rodrigo Guedes de Carvalho confessa que “apresentar um noticiário televisivo ainda é uma adrenalina muito forte”. Tudo pode acontecer: “Por muito que se treine, uma simulação nunca é igual ao directo real. Uma das últimas situações por que passei foi até muito recentemente. No estúdio tenho uns ecrãs de plasma atrás de mim, muito próximos. E houve um que rebentou, estourou mesmo. Eu estava no ar e com o susto baixei-me um pouco, mas nunca parei de ler o pivô. Sou praticante de tiro amador e pensei para mim: ‘Queres ver que foi hoje que entrou um maluco aos tiros no estúdio!’.”
TVI
Na TVI, é José Carlos Castro quem mais brilha. Apesar de ter sido esquecido no estudo do Obercom, o pivô da estação de Queluz é quem atrai maiores audiências para os noticiários do canal. O segredo para o resultado é simples: “Para se fazer este trabalho é preciso estar muito bem informado. Depois é só trabalhar os pivôs que vou ler no jornal.”
Parece fácil, mas José Carlos explica o que é preciso para atingir o objectivo: “O meu dia começa normalmente às 09h30 e vai até tarde, já bem de noite. A primeira coisa que faço é ler os jornais e ouvir as notícias da rádio. Depois é preciso preparar as reportagens que estamos a desenvolver, principalmente ao fim-de-semana, altura em que os noticiários não dependem tanto da actualidade, mas das histórias exclusivas que fazemos durante a semana.” Sobre os hábitos antes de ir para o ar, José Carlos Castro confessa que apenas gosta de se isolar um pouco para “fumar um cigarro antes de vestir a farda de trabalho, isto é, o fato e a gravata”. Quanto a medos, diz que tem vários, mas, “no meio de tanta coisa que pode correr mal”, o pivô da TVI teme, sobretudo “espirrar ou tossir, naquelas alturas em que se está constipado”. Esta frase é particularmente curiosa pois é proferida por um apresentador que já viu cair parte do cenário enquanto conduzia o noticiário e que assistiu ao desmaio de um convidado em directo.
O PREFERIDO
José Rodrigues dos Santos foi eleito pelos portugueses como o melhor em todas as categorias analisadas pelo estudo do Obercom. É o pivô preferido de 23,1% dos inquiridos, o mais credível (20,9%) e o mais divertido (35%). Nesta última categoria Rodrigo Guedes de Carvalho ocupa o segundo lugar, embora só tenha recolhido 13,8% dos votos.
OS OUTROS ROSTOS DO SUCESSO DA INFORMAÇÃO TELEVISIVA
HÉLDER SILVA - JORNAL DA TARDE / RTP 1
O pivô nortenho conduz o noticiário mais visto à hora do almoço e tem a honra de ter apresentado o ‘Jornal da Tarde’ que maior audiência conquistou em 2007. No dia 18 de Fevereiro, o noticiário que abriu com os protestos da população de Valença, que levou ao corte de uma auto-estrada, foi visto por mais 993 000 telespectadores.
ALBERTA MARQUES FERNANDES - JORNAL 2 / RTP 2Apesar de apresentar o noticiário com menos audiências dos canais generalistas, Alberta Marques Fernandes sustenta que “o ‘Jornal 2’ é um espaço com muito prestígio”. Afirma que não tem rituais antes de ir para o ar, mas confessa que não dispensa “uma passagem pela ‘régie’”. “É preciso brincar um pouco para criar boa disposição”, explica.
CLARA DE SOUSA PINTO - PRIMEIRO JORNAL / SIC
Clara de Sousa é o rosto da estação de Carnaxide para o início da tarde. De acordo com o relatório do Obercom, conquista bons níveis de preferência e credibilidade entre o público, mas é vista como uma apresentadora um pouco sisuda. Apenas 3,3% dos inquiridos no estudo consideram Clara de Sousa divertida. Mesmo assim, nas audiências não perde muito para os ‘adversários’.
JÚLIO MAGALHÃES - JORNAL NACIONAL / TVI
Para o apresentador dos noticiários de fim-de-semana da TVI, “ser pivô não é o trabalho mais difícil, basta uma pessoa ser igual a si própria”. Por isso só veste “a parte de cima do fato” e apenas entra no estúdio “um minuto antes de o jornal começar”. O telemóvel ligado em cima da mesa – “sempre pronto para atender” – já é uma imagem de marca.
EXPERIÊNCIA NA SIC
O veterano da informação televisiva portuguesa defende que na apresentação de um noticiário “a margem de erro é muito grande”. Por isso, ainda se sente nervoso antes de ir para o ar, algo que um exame médico recente comprovou. “Tive de realizar um electrocardiograma de 24 horas [Hölter], o que implicou fazer o ‘Jornal das 9’ com uma data de eléctrodos colados no corpo. Mas ficou registado, antes de arrancar o jornal, um pico de tensão que depois foi descendo”, revela. Pivô de informação desde 1981, Mário Crespo assume que o que faz na SIC Notícias “não é um jornal típico” pois “não é tão complexo como um Telejornal puro”. No entanto, não facilita e confessa que lê – “na integra” – todos os livros que apresenta. Sobre a geração de pivôs que hoje conduz a informação nos canais generalistas, Mário Crespo sustenta que tal se deve “a uma opção de marketing das estações, que queriam ter uma imagem mais jovem”. No entanto, antevê: “Esta geração vai envelhecer no ecrã.”
CREDIBILIDADE EM ALTA
Dividida entre a apresentação do ‘Telejornal’, as ‘Notas Soltas de António Vitorino’ e a ‘Grande Entrevista’, Judite de Sousa consegue, de acordo com o estudo do Obercom, cativar o público devido à imagem de credibilidade que transpõe para o ecrã. De facto, perante os seus colegas da RTP 1, José Rodrigues dos Santos e José Alberto Carvalho, a apresentadora só fica substancialmente atrás no capítulo do divertimento, na opinião dos inquiridos. Contudo, se o lado sério de Judite de Sousa a pode tornar menos popular, contribui, em contrapartida, para o elevado nível de credibilidade que os telespectadores lhe atribuem.
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