A propósito do novo disco, 'Quinta-Essência 75/25', o músico fala do passado, dos 50 anos, da mãe e das filhas
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Nem sei bem responder isso, mas é preciso perceber que também tivemos dois anos que não contaram, que foram os da pandemia. Na verdade, o disco até era para ter saído no ano passado... Também é preciso dizer que nunca estive parado, fui largando singles, houve o regresso dos Da Weasel e tive o The Voice Kids que parecendo que não, me ocupou muita disponibilidade mental. E muitas coisas que estão neste disco foram escritas neste período.
Musicalmente tenho muita coisa que me apetece dizer. Quanto à escrita, este disco tem apontamentos autobiográficos, como sempre fiz, mas também tem os meus cinco tostões de contribuição sobre muitas coisas que se estão a passar em meu redor, na sociedade, na política, na música...
Toda a minha escrita vem de um lugar de necessidade, seja por estar apaixonado, seja por estar insatisfeito com algo, muito feliz.... mas há sempre uma necessidade de partilhar e verbalizar. Admito é que a paixão com que o faço, acabe por fazer vir ao de cima o meu lado mais agressivo.
(risos) Eu acho que ainda não bateu. A consciência de que já viveste mais tempo do que aquele que te resta de vida é assustador. Por outro lado, haver essa consciência pode levar-nos a fazer mais pela vida e a procurar outras coisas porque percebemos que a vida não é eterna. A consciência da finitude é uma coisa tramada. Mas também digo uma coisa: por causa desta cena da idade, faz-me muita confusão ver gajos como o Putin e o Trump que, com a idade que têm, ainda estão tão agarrados à merda do poder e do dinheiro que não são nada. Podiam estar a viver a vida tranquilos e deixar as pessoas em paz. Acho que querem prolongar um legado, mas aquilo está tudo tão errado que se podiam ocupar com outras coisas.
Vou fazendo. Acho que hoje tenho uma ponderação diferente sendo que eu acabo sempre por manter-me fiel àqueles que são os meus princípios. Eu sei que já não sou tão idealista como quando era miúdo, mas também não quero ser uma pessoa amarga e cínica, porque às vezes a idade pode fazer-nos isso. Procuro encontrar sempre um meio termo, não quero ser o pateta alegre porque a vida não está para isso, mas também não quero ser a pessoa zangada com a vida, com tudo e com todos. A fase que eu gosto de pensar que estou a passar agora, e daí a cena da 'quinta essência', é a fase de depurar as coisas todas e os sentimentos, cortar o excesso de gorduras e focar-me naquilo que é o mais importante, como o trabalho e a família por exemplo.
Não, eu acho que ninguém é totalmente bem resolvido. Agora, o que eu procuro é que esses momentos não sejam deterministas na minha vida. Tendo consciência deles mas não quero andar a reboque disso. Há muitas coisas de que não me orgulho, mas que fazem parte. Eu sou daqueles que faz muito este exercício: "Estás num sítio fixe? Então se estás é porque o que passou teve a sua razão de ser e por isso está tudo bem". Não dou muito peso a arrependimentos e a coisas com as quais sei que não estive muito bem. O que dá para redimir dá e o que não dá... paciência.
Sem dúvida, todos temos esses momentos, mas depois também começo a pensar que aprendi com eles. Se não tivessem existido esses momentos também não teriam existido outros e eu não estaria aqui. E a cristalização de quase tudo está nas minhas filhas. Se tivesse feito coisas diferentes se calhar hoje não as tinha. Ou seja, a maior parte das coisas que vivi, não mexeria nelas. Tenho muito medo dessa ideia, como é que mexer numa coisa poderia alterar o resto.
Sim. A minha dívida para com a minha mãe é grande. Ela sofreu uma 'beca' (risos). Acho que os pais da minha geração abdicaram de muito para conseguir dar um futuro aos filhos e isso hoje toca-me muito. Por isso tenho um sentimento de gratidão sempre muito presente. Sei que eles se privaram de muita coisa.
Epá, isso já são coisas muito pessoais.
Eu sempre fui um puto muito chato e muito nerd, mega-nerd. Aos 13/14 é que mudei muito, dei um pulo e tornei-me mais normal. Até aí sempre fui muito 'bullyzado'.
Por acusa de usar óculos e de andar com uma pala num olho e de ser um bocadinho 'sopinha de massa'. Só que aos 13/14 mudei um bocado fisicamente e não só e as coisas mudaram. Mas tive uma infância muito fixe, de rua, de grandes grupetas, muita aventura, de roubar frutas nos quintais de Almada. Tive uma pré-adolescência e adolescência muito fixe.
Sem dúvida nenhuma, porque nessa altura não tinha planos nem objetivos. Nunca pensei que pudesse vir a fazer tanta coisa, sobretudo do ponto de vista musical. As coisas foram acontecendo e eu fui vivendo. Por isso aquele miúdo acho que sim que ia ficar bastante surpreendido.
Os Da Weasel foi uma invenção do meu irmão. Ele tocava baixo e uma vez virou-se para mim e disse-me "embora aí fazer um projeto meio hip hop, cantas tu!". Da mesma forma também nunca tinha escrito nada. Por isso os Da Weasel foi uma invenção dele que correu bem.
Lembro-me da gravação do primeiro EP num estúdio que já não existe, que era o Angel2. Lembro-me também do primeiro concerto dos Da Weasel, na Gartejo, mas para mim a imagem mais fixe foi o primeiro concerto no Johnny Guitar. Era uma sala mítica e estava cheia de malta de Almada. Tínhamos apenas um EP e tocámos talvez uns 20 minutos porque não tínhamos mais músicas. Ficou marcado para sempre.
Elas têm 15 e 10 anos e têm uma relação muito fixe. Eu próprio gosto de lhes mostrar aquilo que vou fazendo para pedir a opinião delas. Elas ouvem muita música diferente, as coisas que toda a gente da idade delas ouve, e mais algumas que vou mostrando. Acho que têm uma diversidade musical fixe. Mas curiosamente acho que a maior parte das coisas que elas gostam da minha música ou mesmo dos Da Weasel nem fui eu que lhes mostrei.
Eu vou continuar sem responder a isso.
Não vou falar sobre isso.
Estou com muita pica e a começar a montar as sessões ao vivo. Tenho alguns concertos em auditórios e o Rock In Rio. De Da Weasel tenho o Festival Marés com o Rui Massena e acho que vai ser um verão bem fixe.
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