Programas como ‘Operação Triunfo’ podem representar a emancipação para quem à partida está votado a uma vida difícil. João Pedro Pais e Sara Tavares foram lançados pela catapulta de ‘Chuva de Estrelas’
João Pedro Pais, segundo classificado de uma edição de “Chuva de Estrelas”, diz que não sabe o que é o sucesso. Com uma humildade fora do comum para quem é considerado um fenómeno da música nacional, o cantor, que na sua juventude passou quatro anos em regime interno no Colégio de Santa Catarina, na Casa Pia, admite que concursos como aquele em que participou não fabricam estrelas. “É verdade que ajuda. Mas se não fosse eu a compor as minhas músicas e a lutar para chegar mais longe nunca teria conquistado nada.”
Com três álbuns editados, o cantor tem consciência de como é difícil singrar no meio artístico. Significativamente, espera que o filho, Salvador, não lhe siga os passos. “Não quero que ele se sujeite a tudo isto, à expectativa de saber se o público gostou ou não do trabalho, se o disco vai ou não vender...”, afirma. Para além desta amargura, retém-se, das suas declarações, que o empurrão que o concurso lhe proporcionou o ajudou.
Sara Tavares, que venceu a primeira edição de “Chuva de Estrelas”, é mais optimista. Aos 16 anos pediu a um vizinho para lhe assinar a autorização para participar no concurso da SIC, pois queria fazer uma surpresa à avó. A imitação de Whitney Houston garantiu-lhe o primeiro lugar e o início de uma vida nova.
“Cantar era um sonho. Em criança, o desodorizante era o meu microfone. Concorri ao ‘Chuva de Estrelas’ sem saber qual era o prémio. Quando tomei consciência de que ia gravar um disco, decidi que não podia desperdiçar essa oportunidade. Naquele mesmo momento tracei o meu destino: ia ser cantora, construir uma carreira e encontrar um propósito para aqui estar”, conta.
Depois de uma infância difícil, marcada pelo abandono da mãe, demasiado pobre para sustentá-la, Sara Tavares optou por reunir forças junto das suas raízes cabo--verdianas. Reaprendeu o crioulo e, hoje, utiliza-o na sua música, que pouco tem de comercial, mas que é reconhecida pelo mundo inteiro.
NO REINO DO EFÉMERO
Em Portugal, a fama produzida pelos concursos de talento é efémera e os exemplos de sucesso contam-se pelos dedos. Veja os exemplos: Jessi Leal ganhou o “Chuva de Estrelas” com uma imitação de Kate Bush e gravou um CD que resultou num fracasso. Rui Faria imitou Elton John, ficou em primeiro lugar no “Chuva” e hoje ganha a vida como cantor.
Inês Santos repetiu a proeza com uma interpretação de Sinead O’Connor, mas ainda não fez nada. Nadia Santos fez uma imitação fabulosa de Edith Piaff e ganhou igualmente o concurso, mas quedou-se por aí. Carlos Bruno (na foto) venceu o “Chuva” europeu com uma interpretação dos REM e lançou um CD, mas pouco se ouve falar dele. Entre estes há muitos outros.
Entretanto, lá por fora, o panorama musical também obriga os jovens aspirantes a artistas a recorrerem aos “talent shows”. É o caso de Nelly Furtado (na foto), que ganhou um concurso de talentos em Toronto (Canadá) e, pouco tempo depois, assinou contrato com a Dreamworks para gravar o seu primeiro disco, “Whoa Nelly!”, que já vendeu 4 milhões de cópias em todo o mundo.
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