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Correio da Manhã

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Setôra, por que mostrou as cuecas?

Sara Mata, a primeira ‘bela’ a abandonar a casa, voltou à sua vida de professora. Na passada sexta-feira foi à escola onde dá formação em Hotelaria, na Lourinhã, sendo recebida em grande festa pelos alunos.
26 de Março de 2007 às 00:00
Enviei-lhes uma mensagem a dizer que vinha cá a uma reunião, por isso já estou mesmo a ver”, disse Sara, risonha. Dito e feito. Ainda nem tinha passado o portão e já uma aluna a tinha avistado ao longe. A rapariga correu a chamar os colegas, que estavam a meio de uma aula e logo uma pequena multidão correu para Sara, rodeando-a, abraçando-a e pegando-a ao colo.
“Olá setôra, que saudades!”, “A nossa setôra, a nossa loirinha!” e “A setôra agora é famosa!” foram alguns dos comentários dos adolescentes entusiasmados. Um deles foi mais longe: “Setôra, por que mostrou as cuecas na televisão?”. “Chiu!”, respondeu Sara, atrapalhada. “Então a setôra não sabia que a Islândia ficava na Europa?”, perguntou outra, atrevida. “Quem disse que não sabia!?”, ripostou Sara. “A setôra foi Miss Playboy? Não nos disse nada!”. Para os alunos, a sua setôra é a maior e saiu da casa porque era “a mais bonita e mais inteligente” das ‘belas’. “Só é pena não ter reconhecido o Luís de Camões”, concluiu uma aluna e admiradora.
Quando questionada sobre se não é desconsiderada pelos colegas por trabalhar na noite e ter sido uma das finalistas do concurso Miss Playboy 2006, Sara Mata é peremptória: “Só me importo com os alunos.” Aparentemente, é respeitada na escola como qualquer outra pessoa. À sua chegada, é cumprimentada simpaticamente por todos. Uma funcionária interpela-a: “Vi uma rapariga muito parecida consigo num programa de televisão!” Sara ri-se: “Era eu!” Um membro do conselho executivo diz que a ex-concorrente do concurso da TVI é uma excelente colega e muito querida pelos alunos.
No entanto, explica que não pode conviver muito com a ‘bela’ pois ela dá as suas aulas práticas de Hotelaria numa Pousada da Juventude e não nas instalações da escola. Era numa escola em Massamá que dava aulas de forma mais convencional, de Contabilidade, a alunos do 12.º ano. A entrada no programa fê-la suspender o contrato, que apenas lhe garantia quatro horas de trabalho por semana até ao fim do ano lectivo.
Foi pelos 50 mil euros que Sara aceitou o desafio de entrar em ‘A Bela e o Mestre’ – está desde o ano passado a tentar juntar dinheiro para pagar o mestrado ou doutoramento e, além disso, está noiva e quer casar no fim do ano. Mas a participação no programa não lhe trouxe quaisquer vantagens.
“Pelo contrário, estava a fazer papel de burra”, lamenta. É um facto que Sara mostrou aos telespectadores a sua pouca cultura geral, mas defende-se dizendo que tudo o que é da sua área lhe interessa. Licenciada em Gestão Hoteleira pelo Instituto Politécnico de Leiria, pretende agora prosseguir os estudos para ser professora universitária.
“É outra estabilidade”, justifica a formadora, que trabalha em regime de horário incompleto e ainda tem de pagar as viagens do Cacém (onde mora) para a Lourinhã. A compensação encontra-a nos alunos: “Tenho uma relação muito próxima e aberta com eles. Enviaram-me muitas mensagens enquanto estive no programa, dizendo que gostavam muito de mim e que tinham saudades!”
DUPLO EMPREGO
Sara trabalha há dez anos na noite para se sustentar. Começou no Porto, depois de acabar o 12.º ano, com o objectivo de juntar dinheiro para estudar fora da sua cidade. Já com 19 anos, ingressou na Escola Superior de Tecnologia do Mar (Instituto Politécnico de Leiria) para tirar o curso de Gestão Hoteleira.
Terminado o bacharelato, mudou-se para Lisboa, em busca de oportunidades de emprego. Enviou na altura currículos para hotéis, sendo chamada rapidamente para trabalhar no bar de um deles. Juntou a essa actividade uma outra, na noite. Os empregos roubaram-lhe tempo aos estudos, pelo que demorou mais do que era suposto para finalizar a licenciatura. “Estudava à distância. Se tivesse folga podia ir aos exames, mas se não...”, conta ao CM. Esta é mais uma razão para se sentir desenquadrada em relação ao mundo dos ex-companheiros de casa: “Creio que tiveram uma vida mais facilitada do que eu.”
PROCESSO DE SELECÇÃO
Sara estava a trabalhar no Café da Ponte num fim-de-semana quando uma rapariga lhe veio entregar um prospecto da Endemol. A produtora pedia candidatas para um novo programa. “Não sabíamos ao que íamos”, conta. “Quando cheguei à selecção, começaram a disparar perguntas de cultura geral. Respondi a algumas, outras falhei, ainda me ri muito”, relembra. A produção parecia satisfeita com as respostas erradas, mas continuava sem anunciar o teor do programa: “Disseram-nos que apenas revelariam às seleccionadas, para não ficar toda a gente a saber.” Foi escolhida e só aí percebeu que se tratava de um reality show, mas diferente do ‘Big Brother’ pois não seria expulsa por simples antipatia do público – teria de superar provas que requeriam estudo. Pareceu-lhe bem: “Sou professora, adoro estudar.” Hoje reclama que poucas foram as imagens que passaram dela a estudar. Para além disso, diz não compreender por que razão abafaram a sua profissão.
A BELA CALINADA
TELMA MATEUS: É assim: os muçulmanos e os judeus eram um só povo mas eram completamente diferentes. Mas tinham em comum o Jerusalém, que era considerada a Terra Santa... e é isso! - Tinham em comum Jerusalém e não ‘o’ Jerusalém. A cidade é sagrada para judeus, muçulmanos e cristãos.
O OLHAR DE MESTRE (A opinião de Fernando Sobral, Crítico de televisão)
AS PETER PAN DE SAIAS
Um país cujo principal tema de conversa é a televisão não é um país, é um sítio, como bem assinalou Eça de Queiroz. Quando ‘A Bela e o Mestre’ preocupa a ministra da Cultura parece que ninguém entende a coisa mais simples do mundo: são só calinadas, senhora, são só calinadas! Elas nunca saíram da idade da inocência.
São verdadeiras Peter Pan de saias. Tudo isto não passa de um reality show, em que se troca inteligência por beijos. De outra forma como é que poderíamos desculpar uma bela que diz que um jovem é um “sem-mendigo”? Ela faz de sem-abrigo dos neurónios. Ou quase. Em condições normais a bela deveria dar a mão à palmatória. Mas num jogo quem merecia levar as reguadas era a personagem que inventou o jogo.
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