O ‘broadsheet’ está a cair em desuso. Assim o consideram seis dezenas de jornais de todo o mundo, que deixaram de lado este formato, referência nos últimos anos da Imprensa anglo-saxónica, para aderir ao tablóide, o mesmo do CM desde há 26 anos. Segundo a Associação Mundial de Jornais, a tendência manter-se-á nos próximos anos.
O Reino Unido é um bom exemplo do impacto que estas alterações provocam no mercado. O impulso foi dado há um par de anos pelo prestigiado ‘The Independent’ que passou a tablóide. Uma iniciativa audaciosa, já que este formato fora sempre associado à Imprensa sensacionalista, exclusivo de publicações como o ‘Daily Mirror’ ou ‘The Sun’. Mas a aposta foi rapidamente ganha: no primeiro ano em versão tablóide, o diário aumentou as vendas 20 por cento.
Não será pois de estranhar a passagem do ‘Independent on Sunday’, a versão de domingo do jornal que lhe dá o nome, a tablóide. “Esperamos garantir uma forte circulação com esta medida”, justificou Ivan Fallon, director executivo da Independent News & Media. Já o ‘Wall Street’, nas versões europeia e asiática, encolheu para tablóide este mês.
ANUNCIANTES EM VANTAGEM
“Enquanto na Europa as reduções de formato têm acontecido ultimamente, no Brasil isso ocorre a cada dois anos, mas por questões económicas, ou seja, o preço do papel”, comenta, por curiosidade, Edson Athaíde. O publicitário recorda ainda o período em que acompanhou a redução do ‘Jornal de Notícias’, em 1998, “época de muitos mitos em torno da matéria. São os leitores que pedem esta alteração, por uma questão de comodidade. E, se o leitor toma mais atenção nas páginas, aumenta a exposição dos anúncios”, frisa o publicitário.
O ano passado, a ‘aventura’ de diminuir o formato foi repetida pelo ‘The Times’ – já se publica em tablóide, depois de um período de teste, em que vendia as duas edições – e, em Setembro, pelo ‘The Guardian’, que optou pelo tamanho intermédio, o ‘berliner’.
Ainda na onda das reduções, também o francês ‘Le Figaro’ se renovou no início de Outubro. Com novo logotipo, o título deixou o ‘broadsheet’ e reduziu dimensões, sendo agora uma versão aproximada ao ‘berliner’. “É um formato mais elegante. Os anúncios têm ligeiramente mais espaço para contarem as suas histórias”, comenta Athaíde.
António Simões, director de produção do grupo Cofina, é da opinião que “o futuro dos jornais continua a ser o tablóide. É um formato imbatível: é um livro grande, muito agradável!”
Quarta-feira, em Oeiras, discutem-se as razões desta tendência dos jornais europeus de redefinirem os seus desenhos, fotografias, ilustrações e infografias, matérias que serão analisadas por especialistas portugueses e internacionais. O congresso, organizado pelo ‘Expresso’ e pela Sociedade espanhola de ‘Design’ de Notícias, ‘O Melhor do Design Jornalístico Portugal & Espanha 2005’ integrará ainda um concurso para eleger o melhor ‘design’ de jornais.
SEMANÁRIO 'EXPRESSO' MUDARÁ EM 2007
Em Portugal, também o ‘Expresso’, sempre de grandes dimensões – o que lhe valeu o epíteto irónico de ‘Espesso’ – antecipa uma mudança para o ‘berliner’, formato entre o ‘broadsheet’ e o tablóide.
Jim Chisholm, director de um projecto da WAN (Associação Mundial de Jornais, na sua sigla britânica) considera a tendência de redução dos formatos dos diários uma nova forma de estimular os antigos leitores, à medida que se captam novos públicos.
Para o ‘Expresso’, a alteração é essencialmente uma busca de novos leitores, mantendo, no entanto, o “elemento de diferenciação em relação aos restantes jornais”, explica José António Saraiva. “O ‘broadsheet’ é rejeitado pelo público feminino e as mulheres, cada vez mais, lêem jornais”, justificou o director do semanário, também em funções de direcção-geral dos jornais do grupo Impresa. Daí que o ‘berliner’ seja o tamanho escolhido, bastando apenas aguardar que a Mirandela, a gráfica que imprime o semanário, adquira uma máquina que poderá proceder à alteração, o que acontecerá em meados de 2006, para que, “em Janeiro de 2007”, o ‘Expresso’ saia para as bancas com um nova cara.
O administrador da gráfica, José Morais, explicou ao CM: “A máquina é mais moderna e permitirá fazer o ‘broadsheet’ e o ‘Público’”, também impresso nas rotativas da Mirandela. A adaptação para ‘berliner’ implicará o corte do papel excedentário à medida pretendida, ‘aparando-se’ as margens para o tamanho escolhido.
Mas não se pense que, à semelhança dos exemplos referidos, as expectativas de Saraiva são de uma inquestionável subida de vendas. “Há o efeito positivo da novidade, que potencia as vendas, mas apenas a curto prazo”, frisa, ressalvando: “Não basta a alteração do formato para sustentar a subida de vendas. Tem de ser acompanhado de alterações gráficas e editoriais.”
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