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Um novo conceito de televisão, original e politicamente incorrecto, materializou-se na SIC Radical há três anos. É chocante, violento, hiperactivo, talvez excessivo, mas de outra forma não teria resultado.
Em 23 de Abril de 2001, o lançamento da SIC Radical inaugurou em Portugal uma nova forma de fazer televisão. O canal dirigido por Francisco Penim ofereceu a Rui Unas um palco para brilhar, no mais atrevido dos ‘talk-shows’, mostrou aos portugueses o ‘hentai’, o erotismo japonês em desenho animado, repôs clássicos do pequeno ecrã como ‘O Caminho das Estrelas’ e ‘Twin Peaks’, revelou os jovens humoristas Ricardo de Araújo Pereira e José Diogo Quintela e concedeu espaço às novas tendências da música, da arte, da moda e até do sexo.
“A SIC Radical trouxe para a nossa televisão uma insolência que fazia falta, uma grelha consistente, alternativa e inteligente e um refrescamento da televisão temática”, defende o crítico de televisão Eduardo Cintra Torres. O escritor José Luís Peixoto vai ainda mais longe e defende que programas como ‘Cabaret da Coxa’ e ‘Curto Circuito’ “fizeram história na televisão portuguesa”.
Francisco Penim, director dos canais temáticos da SIC, admite que, por altura da inauguração da SIC Radical, não imaginava que o projecto crescesse tanto em tão curto período de tempo. Por outro lado, acrescenta que tem perfeita noção das dificuldades de trabalhar para o público “mais dinâmico, exigente, fiel e díspar que existe”. “O caminho a seguir é reinventarmo-nos a nós próprios, tentar colocar cada vez mais conteúdos alternativos e politicamente incorrectos no ar”, acrescenta.
A dificuldade de manter o interesse de um público jovem e inconstante na sua maneira de pensar e encarar a vida é óbvia. No entanto, para Miguel Duarte, presidente da Associação Académica de Coimbra, uma das mais emblemáticas comunidades estudantis do País, a SIC Radical acertou em cheio. “Penso que conseguiram direccionar os programas para um público-alvo a uma dimensão que nunca antes tinha existido. Esta televisão para adolescentes e jovens foi sem dúvida uma revolução significativa no panorama televisivo”, defende o dirigente associativo.
Apesar disso, Miguel Duarte considera que o canal deveria agora enveredar por outro caminho: “A partir do momento em que conseguem, através da irreverência, aparecer como uma forma alternativa para este segmento, devem apostar na introdução de outro tipo de conteúdos, sem desvirtuar aquilo que é a SIC Radical, mas evoluindo no sentido de ter um conteúdo mais rico.”
ORIGINAIS E INVENTIVOS
Embora disponha de poucos meios financeiros, humanos e técnicos, a SIC Radical tem, actualmente, 14 programas de produção própria na sua grelha. Francisco Penim explica como conseguiu o feito: “Há um controlo de custos muito rigoroso, mas não é por isso que nós deixamos de fazer coisas.
No primeiro ano, a SIC Radical arrancou com um programa originalmente produzido e hoje temos 14. Mas não porque o orçamento tenha aumentado 14 vezes. O que aumentou foi a capacidade inventiva dos produtores de conteúdos”, explica o director dos canais temáticos da SIC.
O apresentador de televisão José Carlos Malato, apesar de vestir a camisola de outra estação (RTP 1), não poupa elogios ao projecto radical de Carnaxide. “Foi pensado como um produto e trabalhada sempre em função do desenvolvimento do conceito”, afirma à Correio TV.
Sobre as críticas que o canal tem sofrido ao longo do tempo, Francisco Penim é categórico: “Se não as tivéssemos, eu estaria a fazer alguma coisa de errado. O canal tem de provocar, tem de fazer coisas repreensíveis, tem de pôr no ar programas polémicos e de gosto duvidoso. Tem de passar programas com as quais as mães não concordam, mas o canal não é para elas, é para outras pessoas, com outra atitude perante a vida”, defende.
Eduardo Cintra Torres relativiza a fama de ousadia excessiva com que alguns rotularam a SIC Radical. “O canal tem uma linguagem forte, mas se as pessoas sabem que tem esse tipo de linguagem, escolhem se a querem ou não ver. A mim não me choca nada o palavrão, o que me choca é a falta de qualidade”, realça. José Luís Peixoto admite que, em determinados programas, “a exploração do sexo é feita de uma forma gratuita”.
“Lembro-me, por exemplo, de ‘Nutícias’ e ‘Gostas Poucos Gostas’. Os tabus da nudez e erotismo são temas que não me chocam, mas que podiam ser tratados de uma maneira mais interessante e criativa. Por outro lado, há outros programas da SIC Radical em que essa criatividade está muito presente”, sublinha.
Espectador atento de alguns programas do canal, José Carlos Malato, cujo humor é conhecido desde os tempos das históricas ‘Manhãs da Comercial’, sublinha ainda a importância da estação na revelação de novos comediantes. “Acabou por ser um laboratório para algumas pessoas que noutro sítio não teriam possibilidade de aparecer, ou seriam completamente pulverizadas”, defende o apresentador.
A nova grelha da SIC Radical, iniciada em meados deste mês, denota uma grande aposta no humor. A par dos programas ‘O Homem da Conspiração’ e ‘Gato Fedorento’ e de séries como ‘3.º Calhau a Contar do Sol’ e ‘Médicos e Estagiários’ surgiram ‘Período’, o humor negro de João Quadros, e ‘Megera TV’, a versão televisiva da ‘Rádio Megera’, o projecto de humor radiofónico via Internet de Carlos Gomes e António Sousa.
De salientar ainda o regresso ao ecrã de ‘Ali G Show’ e da série de animação ‘South Park’ e ainda as estreias de ‘Damon’ e ‘Falta de Espaço’. Para Francisco Penim, a maior aposta deste canal temático da estação de Carnaxide é na animação, com a estreia da série de produção própria ‘Anjinho da Guarda’.
“É um esforço de uma equipa diminuta mas com muito talento. Era um sonho que eu achava totalmente impossível de realizar”, diz o director.
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