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O director da produtora BeActive critica a televisão pública e diz que RTP, SIC e TVI são “uma cópia uns dos outros”.
Somos uma empresa de nicho, não fazemos telenovelas, nem concursos e tirando isso a nossa televisão é muito parca, não prima pela inovação ou diferenciação. Os canais generalistas são quase uma cópia uns dos outros, o que muda às vezes é o horário nobre da RTP. Percebemos que seria muito difícil vingar, daí a internacionalização.
- Como se iniciou esse processo?
Percebemos que havia muitas vantagens em produzir conteúdos para o mercado anglo-saxónico. Assim surge a compra da CR, que permite levar alguns dos nossos formatos e produzir para o mercado inglês. Temos também uma parceria com uma empresa canadiana [The Nigthingale Company] onde fazemos co-produções.
- Porquê estes mercados?
No Brasil estamos desde a génese da empresa. Não diria pela proximidade cultural ou linguística, mas pela dimensão do mercado, pelo profissionalismo e porque é um país que tem uma lei de incentivo à produção audiovisual muito forte, tal como o Canadá e a Irlanda.
- Que tipo de incentivos?
No caso da Irlanda, 28% a fundo perdido, no Canadá existem vários mas pode ir de 25% a 35%. No Brasil há uma lei que permite que as empresas possam, em vez de pagar impostos, dar patrocínios.
- E em Portugal?
Zero ponto zero...Portugal não tem grande indústria audiovisual, mas tem duas associações de realizadores, não sei quantas de produtores.... são pequenas entidades que não têm força para se juntar e criar um lobby. Todos os anos é estabelecido um valor de subsídio, dá-se o subsídio e as pessoas ficam mais ou menos calados. Quem está de fora tenta mudar mas depois desiste. Foi o nosso caso.
- Que impacto podiam ter esses incentivos?
Esta é uma indústria muito importante para o turismo. Há uma pequena aldeia na Irlanda onde foi filmado um filme na década de 50 e todos os anos recebem mais de dois mil turistas em resultado desse filme, uma coisa feita há 50 anos e que raramente passa em televisão... Há poucos filmes rodados em Portugal que não sejam portugueses...
- O Woddy Allen filma em Barcelona e não em Lisboa. Porquê?
Porque em Barcelona lhe pagam. Fez filmes em Inglaterra, depois foi para Espanha, agora está em Itália, estão a tentar que ele faça um filme no Brasil... e vai fazer em outros locais onde há uma indústria e um conjunto de mecanismos financeiros que permitem que essas produções aconteçam.
- Que papel os canais generalistas deviam ter para incentivar a produção de formatos que não concursos e telenovelas?
A TV é um meio de repetição, mas às vezes é preciso sair e é isso que faz grandes momentos. O ‘Big Brother’, goste-se ou não, foi um momento de ruptura e se calhar não devia funcionar porque fugiu à regra. A TV tem de arriscar e criar coisas diferentes. Não podemos criticar os canais privados, vivem para dar lucro, mas os públicos não cumprem a sua obrigação...
- De que forma?
O planeamento da grelha da RTP nada mudou em dez anos. Praça da Alegria, Jornal da Tarde, uma ou duas novelas brasileiras, ‘o gordo’, o Telejornal, o concurso e depois ou aqueles debates que não levam a lado nenhum, uma minissérie ou um filme... Não me parece que seja este o papel da RTP.
- E a RTP2?
Chamo àquilo o canal mosaico. Tem um bocadinho de Panda, de SIC Notícias, de Sport TV, tem séries que se encontram no AXN e no FOX. Tem um bocadinho de cada, mas não tem identidade e é um canal que não produz nada.
- Foi por isso que, desde o início, apostaram nas novas tecnologias, inclusive com séries que só passaram na internet e no telemóvel?
Não há espaço na televisão. Os gatekeepers, que controlam o acesso a estes meios, raramente inovam. O meio Internet é muito mais democrático.
- É este o futuro?
A audiência dos generalistas face ao cabo está a cair cada vez mais. As pessoas mais renitentes a esta mudança, que são as mais idosas, vão morrer, as que hoje em dia são jovens vão ser casados e com filhos e claramente que vai haver esta mudança. De uma televisão linear, que tem uma programação com publicidade no meio, para algo do género ‘quero ver um determinado programa e não tenho paciência para estar à espera...’
- E qual será o papel da TV?
Há um conjunto de programas, que são os grandes eventos desportivos e os grandes espectáculos, que têm de ser vistos em directo e a TV é o meio que vai conseguir aglutinar o maior número de pessoas.
Faz sentido ter um elemento aglutinador que reúna todos os nossos conteúdos. Não faz sentido termos um canal linear. Mas ainda não arranjamos forma de o fazer, porque os nossos conteúdos têm públicos diferentes.
- Mas como poderá ser feito?
Criar duas ou três submarcas para os nosso produtos.
- Isso está em estudo?
É algo que queremos fazer... A ideia é ser uma marca, como BeActive TV, e que está disponível na internet, no VOD de um conjunto de operadores, no iTunes, entre outros, criar a lógica de canal como agregador de conteúdos.
- Em Portugal?
Faremos numa lógica global e falado em inglês, a pensar no mercado global.
- É possível a uma produtora portuguesa vencer no mercado global?
É um mercado ultra-competitivo, há muitas oportunidades, mas há produtoras com outra capacidade financeira e outro historial..mas ainda somos das poucas produtoras que consegue pensar em programas na lógica multiplataforma, para Internet e televisão.
- E têm algum programa que possa atingir o sucesso de Diário de Sofia?
As vezes sinto-me como aqueles artistas que a primeira canção que têm é tão popular, passou tanto na rádio, que as pessoas pensam que só teve aquela música. O sucesso de Diário de Sofia é anormal e explica-se por diversos factores e é muito difícil que tudo se conjugue da mesma forma, o que não significa que não façamos programas com mais impacto, com mais audiências, orçamentos muito diferentes...mas Diário de Sofia será sempre uma referencia...
- Dá lucro fazer programas para os novos meios, sem televisão?
Dá. O que não dá dinheiro é fazer só para telemóvel, ou só para a web..
'CASTIGO FINAL' EM PORTUGAL: NOVOS PROJECTOS DO BRASIL AO CANADÁ
‘Castigo Final’ chega a Portugal (com estreia no telemóvel), Rússia e Roménia e vai ter uma versão em inglês. No Brasil, arranca ‘Beat Generation’ e ‘Os Jogadores’. Na Irlanda, ‘Wedding Diaries’ e ‘O Meu Melhor Amigo É um Fantasma’. No Canadá, a aposta é ‘Living in Your Car’.
PERFIL
Nuno Bernardo, 35 anos, nasceu em Vila do Conde e é licenciado em Jornalismo Internacional. Antes de criar a BeActive, em 2003, com o apoio da Aitec], trabalhou em publicidadee foi director da Portugal Media, feira de tecnologias de informação realizada na Exponor.
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