Diogo Zambujo estreia-se em disco: "Espero que a identidade da minha música fale mais forte do que o meu apelido"
Filho de António Zambujo lança primeiro disco de originais. Em entrevista à Vidas fala das principais influências, de timidez, de amores e desamores e da relação com o pai.
Sendo filho de uma das figuras mais mediáticas da nossa música, como é que está a ser para si lidar agora com as entrevistas e com o interesse dos media?
Por acaso está a correr muito bem, porque eu tenho um bom background para perceber o que se faz do vosso lado (risos) uma vez que estudei comunicação social na Católica. Também eu cheguei a fazer entrevistas e acho que isso talvez me tenha dado alguma preparação.
Mas chegou a exercer jornalismo?
Não. O meu curso foi de Comunicação Social e Cultural. Ainda estagiei numa empresa de assessoria de imprensa mas nunca exerci verdadeiramente. Decidi 'fugir' um pouco daquilo que podia ser uma habituação. Eu sou uma pessoa que tende a assentar facilmente e achei que se me visse ali a ganhar um salário, se calhar não avançava. E então fui trabalhar para um restaurante durante dois anos, o que me permitiu arrecadar para dar o salto para a música.
As suas semelhanças vocais e tímbricas com o seu pai, são inacreditáveis!
Os genes não enganam (risos).
Acredita que o apelido Zambujo crie alguma expectativa nas pessoas?
Acho que isso é normal, ainda por cima Zambujo não é um nome muito vulgar. Se fosse Silva as pessoas ainda podiam ficar na dúvida. É verdade que há músicas minhas parecidas com as dele por conta das influências, mas também tenho canções bem diferentes. O 'Ferida Sarada', por exemplo, tem distorção máxima, porque também tenho essa faceta mais rock e não sei até que ponto o público médio do meu pai se levantaria e deixaria o concerto (risos). Espero é que a identidade da minha música fale mais forte do que o apelido.
Qual foi a opinião dele sobre este seu disco de estreia?
Ele gostou muito. Diz que está muito orgulhoso.
É foi opinião de pai ou de colega?
(risos). Não sei. Há três pessoas a quem eu mostro sempre a minha música para ter a opinião deles: o meu pai, o meu tio e um amigo meu com quem comecei a tocar na casa de banho (risos). Sempre achei que eles seriam sinceros comigo, mas há pouco tempo ouvi o meu pai dizer que estava a pender mais para o lado emocional do que racional e se calhar vou tirá-lo dessa lista.
Como é que se pode apresentar este disco de estreia do Diogo Zambujo, 'Vir a Ser'?
Este disco é um apanhado desde a minha primeira música, quando comecei a ter vontade de escrever, até agora. Na verdade o nome 'Vir a Ser' tem um bocadinho a ver com isto. Quis encontrar algo que tivesse a ver com uma metamorfose constante. É um disco que apanha várias fases da minha vida, que começa ali na adolescência, início da vida adulta e acaba agora nos 27. Portanto apanha vários estados de espírito meus. A primeira música que escrevi foi o 'Amor sem Nome', aos 17 anos e a última 'Outro lado Qualquer', foi agora.
Estamos a falar de dez anos de composição que é muito tempo. Sobre o que é que escrevia o Diogo Zambujo aos 17 anos e sobre o que é que escreve hoje?
A primeira música que escrevi aos 17 teve a ver com um desamor, mas curiosamente a última também (risos). Se formos a ver é uma narrativa circular, se calhar é um problema que sempre me irá consumir (risos). Mas isto é porque efetivamente o amor não tem idade. Acho que anda tudo muito à volta disso. O 'Aperto em Mim', por exemplo, tem a ver com a chegada à idade adulta, quando já trabalhava no restaurante, e a tentativa de alugar casa com a minha namorada. Foi depois de ir à manifestação sobre a habitação que nasceu essa música, que fala muito sobre um casal que se separa por causa desse problema.
Ou seja, são os assuntos do coração que mais o motivam a escrever?
Sim, se calhar são aqueles sobre os quais tenho mais timidez de contar às outras pessoas. Os outros consigo conversa-los, mas estes, como vou contendo, depois a única maneira é chutá-los para o papel a ver se me passam as dores do coração (risos).
A sua chegada à música era uma inevitabilidade por conta da influência do seu pai?
Eu acho que não, até porque houve uma altura em que o meu pai não esteve muito presente. Foi quando veio para Lisboa à procura do sonho dele. A minha primeira influência acabou por ser o meu tio, irmão da minha mãe, que tinha uma banda e para a qual escrevia canções. Esta minha parte da composição vem muito dele. Vê-lo a tocar no quarto, a escrever no seu bloco e ver o entusiasmo com que falava de música, foi o que me motivou, até porque o meu pai compõe músicas, mas não escreve.
Portanto este interesse pela música começa lá no Alentejo?
Sim. Eu vivi sempre em Beja até aos 18 anos e só me mudei para Lisboa quando vim para a faculdade. Ainda assim, a primeira música que publiquei foi já em Lisboa, na altura do Covid-19, quando o meu pai me desafiou a gravar uma música minha no disco dele. Acho que foi a partir daí que perdi a timidez. Até então fazia tudo em sigilo, só mostrava a uma ou duas pessoas. Não gostava muito de exteriorizar.
Mas quando é que começa a perceber que tinha voz para cantar e que a música podia vir a atravessar-se no seu caminho?
Eu não sei se houve propriamente um momento chave, porque eu sempre gostei de música e de cantar. Lembro-me do meu tio me dizer que a minha vida ia passar pela música de alguma forma. Aliás eu só fui para jornalismo para ter um plano B e para aliviar a minha mãe e o lado materno que era um bocadinho avesso a artistas (risos). Aliás, mesmo no curso, a ideia era vir a ser jornalista musical ou qualquer coisa relacionada com a cultura.
E quando é que cantou pela primeira vez em público?
Eu não tenho daquelas histórias de ir para as tabernas em miúdo como o meu pai tem, mas lembro-me de um dia me porem a cantar em cima de um balcão em troca de um pacote de batatas fritas (risos).
Falava de alguma timidez, coisa que curiosamente o seu pai também admite ainda ter, como é para o Diogo quando chega a altura de enfrentar o público?
Tenho feito concertos esporadicamente desde 2024 e têm corrido bem, apesar da timidez. Aliás, eu cheguei a estudar piano e desisti por causa das audições e ter que tocar para público. Mas acho que foi já em Lisboa, com um amigo, com quem fazia algumas jam sessions, que comecei a perceber que poderia transportar-me para outro sítio e abstrair-me do que estava à minha volta.
Quem ouve o seu disco percebe que há aqui um lado muito introspetivo e quase contemplativo. Em que tipo de salas gostava de apresentar este disco?
Eu gostava sobretudo de teatros e espaços menos barulhentos. Não me imagino a cantar em espaços exteriores com muito barulho à volta, com carrinhos de choque ou coisa parecida (risos).
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