Cantor acaba de lançar 'Oração ao Tempo', um novo trabalho marcado pelo facto do cantor ter feito 50 anos.
1 / 8
A primeira música para este disco foi feita na altura da pandemia e chama-se 'Pequenos Prazeres'. Foi uma letra que eu pedi à Maria do Rosário Pedreira. Pedi-lhe para escrever sobre a forma como nós usamos o nosso tempo e como deixámos de dar importância ao que devia ser mais importante. Esse tema ficou guardado e entrou agora numa fase em que eu fiz os 50 anos e comecei também a pensar mais no tempo, como o usamos e como o aproveitamos. A partir daí fui desenvolvendo esta ideia e reunindo músicas, a maior parte originais, mas não só, como a própria canção 'Oração ao Tempo' [de Caetano Veloso], que curiosamente até veio resolver-me um problema que é sempre muito chato para mim, que é quando chega a hora de escolher o nome para um disco meu. Muitas vezes nem sou eu a escolher.
Acho que deve bater a qualquer um. É um marco histórico mas ao mesmo tempo é uma fase da vida em que percebemos que já estamos bem longe da meia idade. Mas também é preciso dizer que os 50 de hoje já não são iguais aos de antigamente. E eu acho que estou aqui para as curvas. Ainda assim claro que percebemos que dificilmente dobramos a idade dos 50 anos, embora seja possível. A mãe do Ney Matogrosso viveu até aos 106 anos.
Acho que começamos a ficar mais lamechas e acho que começamos a não querer perder tempo com coisas que não merecem o nosso tempo. E foi mesmo a partir daí que veio esta ideia da 'Oração ao Tempo', que a partir daqui acho que é o que temos de mais valioso.
Não tenho muitas saudades, mas lembro-me bem dela. A letra dessa música, aliás, faz-me lembrar de muita coisa, do quarto onde era rei, das correrias, de andar de bicicleta, de jogar à bola, os jogos de computador do Sinclair, quando reunia a malta toda no quarto, sempre com a música de fundo...
Sim. Eu comecei a estudar clarinete no conservatório muito novo e também comecei a cantar num grupo de música tradicional alentejana chamado Trigo Limpo, com quem gravei dois discos, um deles, curiosamente, no mesmo estúdio onde gravei agora este disco, nos estúdios da Valentim de Carvalho em Paço D'Arcos. E também fazíamos apresentações ao vivo, isto por volta dos seis/sete anos.
O cante acho que é uma coisa que nasce connosco. Ao lado da casa da minha avó, havia uma taberna onde estava gente a cantar a toda a hora. E lembro-me também que havia vários elementos na minha família que pertenciam a grupos corais, como o meu avô materno que eu não conheci ou os meus tios paternos. Lembro-me de os ouvir, de aprender as letras e depois de tentar reproduzir aquilo que cantavam num piano ou com uma harmónica que havia lá por casa da minha avó. Depois lembro-me da minha tia Clarisse, irmã do meu pai, que cantava bem e que tinha muitos discos em casa. E foi por causa dela que comecei a ouvir fado.
Sei lá, eu não penso nessas coisas. Comigo foi sempre um dia de cada vez e o que vier virá. Nunca fui de andar a correr atrás das coisas e tudo aconteceu naturalmente. Eu deixo sempre a vida levar-me.
Sim, recordo-me e não é pelos bons motivos (risos). Foi na Ovibeja, em Beja. Na altura, o palco era dentro de uma tenda de circo e recordo-me que naquela tarde tinha chovido imenso. Havia umas escadas laterais, por onde se acedia ao palco, e quando acabámos de atuar descemos por elas, já com a intenção de voltar para o encore. Só que o meu pé que já estava meio enlameado, escorregou, enfiei a perna por entre os degraus, rasguei as calças, esfolei a perna e em vez de voltar para o palco fui direto para o hospital.
Ainda sofro. Mas na altura em que não tocava guitarra em palco, ainda me sentia mais desprotegido. Isso deixava-me mais envergonhado. Quando comecei a tocar guitarra, para além de me ajudar com a 'cena' das mãos, porque nunca sabia o que fazer com elas, passou também a funcionar como uma espécie de escudo.
Sim, embora o palco já não me intimide tanto. A experiência no La Feria ajudou-me muito [António Zambujo integrou, durante quatro anos, o musical 'Amália']. Foi quando percebi que o palco não era um bicho de sete cabeças. Percebi que não podia ir para o palco com barreiras que se não ia impedir-me de fazer o que mais gostava.
Sim, já tínhamos feito uma música juntos no 'Voz e Violão' e agora desafiei-o para ele escrever uma letra para que quando ele tivesse um filho, este cantasse em palco dizendo que aquela canção tinha letra do pai e música do avô. E então escreveu o 'Espera Vã'.
Sim, sim. Vai lançar o disco dele, julgo que em maio. É um cantautor, numa onda meio alternativa. Eu acho que ele é um bom músico.
Não. Deixa-me especialmente orgulhoso ele procurar a felicidade. E se ele é feliz a fazer música, só posso ficar muito feliz por ele.
Quando decidimos fazer a música não foi com intenção de gravar em dueto, mas numa ida minha ao Rio de Janeiro, mostrei a maqueta ao Caetano, ele gostou e num ímpeto desafiei-o a gravar. Fizemo-lo no estúdio dele, gravámos ao mesmo tempo e tornou tudo muito orgânico. Eu já o conhecia, a primeira vez que privei com ele foi em 2008, logo na primeira vez que toquei no Brasil. Ele foi ao concerto com o filho Moreno.
Pode-se dizer que sim, mas antes de casar eu já tinha lá muitos amigos e já tenho um historial de muitos concretos. Já me sentia em casa, mas claro que agora me sinto ainda mais.
Eu não fiquei nada surpreendido (risos).
Conhecemo-nos lá num concerto meu no Rio de Janeiro com o Yamandu Costa. Pouco antes eu tinha feito uns concertos de homenagem ao pai dela [Tom Jobim] com as músicas do Claus Orgman, que era o arranjador da orquestra do Tom Jobim e sei que ela e a mãe tinham ficado muito interessadas. Depois desse concerto no Rio, ficámos amigos e a coisa 'deu-se'.
Vivemos mais em Portugal, mas andamos sempre cá e lá. Em maio, por exemplo, vou ter uma grande digressão por lá com várias cidades importantes.
Ela já tinha casa cá e já conhecia bem Portugal.
Ela está muito ligada à produção e por isso tanto faz estar cá ou lá. Quando tiver que se apresentar ao vivo é que seguramente terá de ir ao Brasil, até porque ela está a lançar disco novo. Mas ela faz muitas digressões pela Europa. Ainda agora regressou de uma por várias cidades.
No Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Eu gosto muito de lá estar. É uma cidade espetacular.
Todos os meus concertos a partir de agora são de apresentação deste disco, mas claro que vou sempre trazer músicas de outros discos para o universo musical deste novo trabalho.
Esse não preciso de cantar, porque o público canta por mim (risos). Não, cansado não. Eu não tenho essa coisa de ficar cansado das músicas. Até me deixa muito grato que tantas pessoas se identifiquem com as minhas canções.
Siga aqui o Vidas no WhatsApp para ficar a par das notícias dos famosos
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.