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O belo, requintado e gracioso canto de António Zambujo

Cantor apresentou quinta-feira no Coliseu de Lisboa, o novo disco 'Oração ao Tempo'. O concerto repete esta sexta-feira.

17 de abril de 2026 às 18:19

Elegante, sedutor, simultaneamente popular e erudito, envolvente, intenso, tanto sóbrio e moderado quanto exuberante e vigoroso, um concerto de António Zambujo é hoje quase uma coisa solene e cerimoniosa, sem que isso tenha de significar necessariamente formalidade ou recato. Muito pelo contrário. É uma celebração de música mas é também um culto da palavra. É alegre e em alguns momentos melancólico. Na primeira de duas datas em Lisboa, no Coliseu dos Recreios, esta quinta-feira, de apresentação do novo disco, ‘Oração ao Tempo’, António Zambujo esteve em palco cerca de duas horas e fez desse tempo aquilo que quis: cantou, ironizou, tocou fundo, enalteceu, divertiu, emocionou…

A música de António Zambujo está cada vez mais elegante, mais bem vestida, aperaltada, fato aprumado, arranjos feitos à medida e isso faz dela hoje um objeto de admiração e contemplação. Zambujo é atualmente um artista completo em toda a sua dimensão, faz da voz aquilo que bem quer, tem presença e uma vontade tão grande de mostrar a sua música que chega a causar inveja. A sua forma de estar em palco e o seu jeito de ser fazem o resto. É um galã sim senhor e um sedutor, ora capaz de surgir em palco de espada e capote, ora de despir-se de adornos e ‘descer’ até nós para falar do filho que escreveu um dos temas do novo disco ou do neto que ainda não tem.

Hoje estará mais do que evidente para todos que Antonio Zambujo não se define num género ou num estilo, até porque ele criou a sua música ao seu jeito e à sua maneira. Ele é fado e é cante, mas é também bossa nova, é tropicalismo, é jazz, é novas tendências. Ele tem guitarra portuguesa mas também tem clarinete, tem piano e contrabaixo, tem guitarra e tem trompete. Lembra o fado e Amália Rodrigues quando canta ‘Foi Deus’ de Alberto Janes, mas também vai buscar a MPB quando interpreta o tema que dá nome ao disco ‘Oração ao Tempo’ de Caetano Veloso. Canta palavras de Maria do Rosário Pedreira, José Eduardo Agualusa ou João Monge mas também de Carolina Deslandes ou Mimi Froes. ‘Zambas’ para os amigos (e quem é que não tem vontade de ser seu amigo?) canta com a profundidade que nos exalta e tira o melhor de nós, mas também com aquela malícia boa que nos diverte (“nem tudo o que canto é autobiográfico” fez questão de clarificar depois de cantar a história de um engate que correu mal). Tal como no disco, Zambujo pontua também o seu novo espetáculo com brilhantismos de prosa poética, ditos com o envolvimento certo, transformando-se num ‘diseur’ ao serviço de quem o escuta. Às vezes até causa amasso, como aquela historia da autoria de João Paulo Esteves da Silva que fala de um filho que à noite regressa, de quando em vez, à saudosa casa dos pais e no final tem um encontro inesperado.

É verdade que “são muito poucas as palavras que nos doem de verdade, e muito poucas as que conseguem alegrar a alma”, como António Zambujo diz no texto ‘No fundo’ da autoria da poeta Amália Bautista; que também “são muito poucas as pessoas que nos comovem o coração, e menos ainda as que o comovem muito tempo. No fundo, são pouquíssimas as coisas que importam de verdade na vida”. Ora, António Zambujo é do mais pertinente, considerável e significativo que se faz hoje na música portuguesa. Ignorá-lo é desconsiderar e roubar a relevância, o mérito, o peso e até alguma transcendência a quem o merece. E sim, assistir hoje a um concerto de António Zambujo é um ato de profunda vaidade.

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