Virgílio Castelo fala sobre o novo livro 'Consumo Obrigatório': "Sempre fui um vampiro da noite"
Ator tem uma nova obra disponível nos escaparates. Um mergulho nas noites de Lisboa.
Virgílio Castelo chama-lhe um livro de contos mas ‘Consumo Obrigatório’ (Guerra & Paz) lê-se como um romance. A estrutura é relativamente simples: a cada capítulo, uma discoteca, bar ou boîte, uma casa noturna ou danceteria onde se pode ouvir música, dançar e conviver. A mais recente obra do escritor – conhecido sobretudo como ator – é um mergulho na vida noturna lisboeta e um chamamento às memórias de uma geração que viveu intensamente “as noites”.
Aqui está um ponto de partida original: reconstruir uma vida através das músicas pelas quais se apaixonou e dos lugares onde as ouviu e dançou...
O projeto não foi escrever sobre a minha vida, embora possa parecer. Este livro nasce de uma ideia antiga. Há alguns anos escrevi um conto, o ‘Ad Lib’ [que integra o livro], que parte de uma história real, que me aconteceu, mas que só consegui perceber à distância. Eu entrava na boîte, o meu amigo não conseguia entrar... por ser negro. Só muito perto do 25 de Abril é que percebi. Ele era meu amigo. Para mim, não era branco, nem negro, nem azul. Foi um choque perceber que não era assim para toda a gente. Escrevi esse conto e pu-lo de parte. Mais tarde surgiu o bichinho de escrever sobre a noite. Sempre frequentei a noite. Toda a vida vivi de noite, não só por gosto, mas também por força das circunstâncias, por ser ator. E quando comecei a escrever, a ideia surgiu-me, como uma epifania: em vez de escrever sobre cada ano, porque não escrever sobre as boîtes, os bares, as discotecas que frequentei e onde dancei?
Mas a personagem principal dos contos, que é sempre a mesma, é uma espécie de alter-ego do Virgílio Castelo?
Pode dizer-se isso. Apercebi-me de que não tinha forma de situar o leitor nesta viagem. Queria escrever sobre a noite, mas não sabia como, e cheguei à conclusão de que a melhor maneira – uma vez que tenho uma carreira artística de 52 anos –, seria provavelmente pegar no meu lado público e assumi-lo. Há pessoas que me terão visto em 1974, nos ‘Pides na Grelha’ [espetáculo de teatro de Revista à Portuguesa, apresentado no Teatro Adoque] e que se lembrarão das primeiras coisas que fiz na RTP, em 1977… Achei que poderia convocar essa memória do espectador. Acabei por colocar estas histórias na primeira pessoa.
Mas nem tudo é verídico e nem tudo é autobiográfico?
Exatamente. Há muitas histórias ali que não se passaram comigo e que não têm absolutamente nada de autobiográfico. Por isso é que no livro vem escrito “memórias de boîtes, discotecas, bares e afins, mais ou menos autobiográficas”.
Poder-se-ia dizer que é um livro semi-autobiográfico?
Tudo o que escrevemos é autobiográfico. De uma maneira ou outra. Mesmo aquilo que inventamos, fazemo-lo a partir da nossa experiência. Aquilo que nos é contado por outrém, torna-se nosso. Dou um exemplo. Há uma das histórias, que é completamente inventada. O conto do Alcântara Mar. O conto em que eu e a Alexandra [Lencastre] nos encontramos com o jovem futebolista que tem um Porsche amarelo. Essa história nunca aconteceu.
Mas é verosímil. Se não aconteceu, podia perfeitamente ter acontecido.
Pois podia. E a ideia é essa. Sempre fui um vampiro da noite. Acho, aliás, que o devo ao meu treino como ator. Durante anos e anos e anos, grande parte do meu trabalho tem sido o de observar para reproduzir. Cada vez que me cruzo com alguém estou a vampirizá-lo. Para, mais tarde ou mais cedo, aproveitar aquela característica, aquele tique, aquela história...
Mas há algo de verdade nesse conto?
Há. Foi a primeira vez que vi drag queens a dançarem em cima de colunas em Portugal. Na altura, foi um espanto. Transferi essa surpresa para aquele rapaz ingénuo, jogador de futebol promissor, para o conduzirmos naquela noite. Há muitas histórias, no livro, que não são minimamente autobiográficas, mas há pormenores autobiográficos em todas elas. Algumas, por exemplo, foram-me contadas por colegas ou amigos. Apropriei-me delas e devolvi-as aos leitores.
Mas este livro, de 254 páginas bem recheadas, é um grande exercício de memória... Regista essas histórias? Escreve um diário? Toma notas para mais tarde?
Nem por isso. Fui parar ao teatro por acaso, com 21 anos. Nunca na minha vida me tinha passado pela cabeça ser ator. Mas antes disso, comecei a escrever poesia. Escrevo desde os 17 anos. Também não sei porquê. A poesia é a minha primeira aproximação ao universo artístico, ou criativo, como quisermos chamar-lhe. Essa prática da poesia, sim, mantém-se até hoje. Não tenciono publicar. A poesia que escrevo é a poesia de um poeta do século XVI... Escrevo sonetos, com redondilhas... Saem-me assim e por isso acho que não devo publicar. São coisas que não têm qualquer interesse literário na atualidade. No ano em que fiz 30 anos – que foi complicado do ponto de vista afetivo e sentimental, e até do ponto de vista artístico –, o ano em que fiz a novela ‘Origens’, em que escrevi uma espécie de diário. Mas em verso. Em estrofes de decassílabos. Foi a única vez que fiz algo parecido com um diário.
Foi um ano difícil?
Até então eu era um ator que tinha trabalho mas que não tinha visibilidade. Tudo isso mudou. Foi um choque.
Então este ‘Consumo Obrigatório’ foi escrito a partir da memória e da imaginação?
Sim. Por exemplo, as histórias que conto dos anos 1970 não se passaram comigo, mas sim com o Henrique Viana, com o Francisco Nicholson, com o Nicolau Breyner. Histórias que me contaram a mim e que me fascinaram. Na primeira oportunidade, veio tudo ao de cima. Usei-as.
Estão particularmente bem concebidas as cenas de pancadaria. Verdade ou ficção?
Há uma verdadeira. Que se passou no Bubas Bar. Ainda hoje tenho uma cicatriz num olho, graças a um tipo que me deu um murro. Abriu-me o sobrolho, fui parar ao hospital de São José a deitar sangue profusamente. Essa história é verdadeira. E é mais ou menos verdade o que levou a isso: o indivíduo estava apaixonado por uma lésbica, e ela estava com uma amiga. Eu conhecia a rapariga e a certa altura armou-se uma confusão. O tipo agrediu-me porque foi a forma que encontrou para descarregar a raiva. O que não é verdade é que ponho esse tipo a ser o mesmo com quem andei à pancada na Costa da Caparica 20 anos antes.
Ficção? Esse paralelo tem imensa graça...
Pois, mas não aconteceu. Há muitas histórias assim, ficcionadas. Mesmo nos meus romances anteriores, o meu ponto de partida é sempre memorial. Parto do real e construo a minha fábula.
Aliás, se há algo que se pode elogiar neste livro é a sua capacidade de fazer humor...
Acho que a capacidade descritiva terá a ver com o facto de ser ator. Quando estou a escrever – quer sejam 36 contos, quer seja um romance –, procuro sempre que haja uma dinâmica de aproximação ao leitor. Que é aquilo que eu, como ator, tenho como treino. Uma das melhores maneiras de prender o leitor é através do humor. Tornar os acontecimentos leves, mesmo que sejam dramáticos.
Mas as histórias que conta sobre os seus casamentos são reais?
São todas verdade. Estão descritas no livro as minhas relações com a Luísa, o casamento com a Fatu [Maria de Fátima de Melo Custódio], com a Maria [Lucena]... O livro termina com a Maria.
Pediu-lhes autorização para escrever sobre elas? Consultou-as? Deixou-as ler o livro antes de ser publicado?
Não informei ninguém que ia escrever. Não faria sentido. O que aconteceu é que, depois de escrever, lhes mostrei o manuscrito. Especialmente à Alexandra [Lencastre]. Mostrei-lhe o que tinha escrito antes da publicação porque, no caso dela, podia ser delicado. É uma pessoa com uma imagem pública ainda mais forte do que a minha. E, portanto, qualquer coisa que não estivesse de acordo com o que ela achava podia ser complicado.
E as reações? As cenas de ciúme da Alexandra Lencastre podiam ter-lhe desagradado.
Todas as mulheres visadas leram e não puseram qualquer objeção. A única que colocou questões foi justamente a Alexandra, que teve a seguinte reação: “Ah, não foi bem assim, mas está bem!”
Como é que está a ser a receção do livro? Está a vender?
Não sei dizer. Tem havido pessoas que se têm manifestado positivamente e que têm aplaudido a ideia. Mas isso a título pessoal. Tenho andado um pouco pela província, nuns encontros com autores e leitores, umas promoções que se fazem. Há um circuito que eu desconhecia completamente que é o circuito de promoção de livros pelo País todo. Tenho andado por aí e a reação das pessoas é muito simpática. Agora, se está a vender ou não, não sei dizer. Só se sabe ao fim de um ano, penso eu. Nessa altura a editora fará as contas.
Vai levar ‘Consumo Obrigatório’ à Feira do Livro de Lisboa, que decorre no Parque Eduardo VII?
Sim. Lá estarei, com todo o prazer, a distribuir autógrafos no dia 13 de junho. Uma sessão marcada para as quatro da tarde no Pavilhão B29.
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