Sara Correia do bairro de Chelas para o Meo Arena: "Estou de braço dado com a dor há muitos anos"

Fadista sobe ao maior palco do país, dia 7, para apresentar o disco 'Tempestade' exclusivamente escrito por mulheres.

03 de março de 2026 às 21:07
Sara Correia apresenta 'Tempestade' no Meo Arena, disco escrito por mulheres
Sara Correia atua no Meo Arena com 'Tempestade'
Sara Correia apresenta 'Tempestade' no Meo Arena, após longa ligação à dor.
Sara Correia atua no Meo Arena, após disco 'Tempestade' escrito por mulheres
Sara Correia apresenta 'Tempestade' no Meo Arena, disco escrito por mulheres
Sara Correia apresenta 'Tempestade' no MEO Arena, disco com letras de mulheres
Sara Correia apresenta 'Tempestade' no MEO Arena, após trajeto de Chelas.
Sara Correia apresenta 'Tempestade' no Meo Arena, após anos de ligação à dor em Chelas

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Neste novo disco tem um verso que diz que "uma mulher são mil mulheres". Que mulher é hoje a Sara Correia, aos 32 anos, depois de toda a atenção que tem merecido?

Esta Sara é uma mulher muito mais madura, mais crescida e com muito mais certezas. Sinto que a minha força enquanto mulher é muito maior do que aquela que tinha há vinte anos. Hoje entendo muito melhor as capacidades que a mulher tem. Embora estas "mil mulheres" não seja só sobre mim, é também sobre esta Sara que se consegue transformar em tantas outras. Por todo o meu percurso e por todas as coisas que ultrapassei, hoje sou uma mulher mais corajosa e destemida. 

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Mas entre a Sara de "faca na liga" e a Sara que procura a "paz do marinheiro", qual é a melhor que a define neste momento?

Essa Sara de faca na liga existe sempre. Eu descobri que sou sempre intensa, que sou sempre esta força que às vezes nem sei explicar, mas também descobri que por baixo desta tempestade, tenho uma parte mais calma. Acho que isso se chama maturidade. 

E como é essa parte mais calma da Sara que o público conhece menos?

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É curiosa. Sinto que, antigamente, em situações que não conseguia controlar, eu explodia logo e fugia para um 'lugar' que me fazia mal. Mas hoje em dia olho para as coisas sempre com uma solução. E isso trouxe-me paz e também ajuda muito ao meu canto. 

Este novo disco é feito, exclusivamente, por mulheres (Carolina Deslandes, Márcia, Garota Não, Mafalda Arnauth, Aldina Duarte ou Beatriz Pessoa, entre outras). O que sente que um disco feito no feminino aporta de novo ao seu repertório que ainda não tinha?

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Eu sempre cantei poemas de homens e mulheres mas nunca tinha feito esta experiência. Este disco é uma junção de muitas mulheres e de muitas forças diferentes como resultado de um processo de descoberta muito minha e do meu produtor Diogo Clemente. Estas mulheres foram incriveis porque conhecem a artista e a mulher e foi fácil encontrar um caminho.  

Já falou do Diogo Clemente. Ele foi o único homem que teve autorização de entrar neste disco. Que cumplicidade é esta que existe entre vocês?

O Diogo conhece-me desde os três anos, dentro do fado e das coletividades, foi um grande amigo da minha tia que também cantava. Um artista não se faz sozinho. Neste caso o Diogo acho que é o homem  que melhor sabe falar sobre as mulheres. 

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Este disco fala muito de amor, mas também de desamor e até de ódio. Isto reflete alguma fase da sua vida em particular em que já se sabe que está muito apaixonada?

(Risos). Isto já é noticia para toda a gente. Mas sim estou num momento muito bom da minha vida e ainda bem porque todos nós merecemos isso. 

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Desde que lançou o disco de estreia, há oito anos, o nome da Sara não tem parado de crescer. Tem conseguido degustar tudo o que lhe tem acontecido?

Eu sou muito feliz porque faço o que mais gosto. Sou muito grata e mesmo em momentos em que estou mais cansada, quando subo a um palco e olho as pessoas de frente, tudo isso passa. A vida pode estar a correr rápida mas é por um bom motivo. 

E a miúda do bairro, a Sara 'maria-rapaz' ainda se revê muito nela?

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Eu acho que os adultos têm sempre de manter vivo o lado da criança, porque se não isto torna-se muito sério e deixa de ter piada. Mesmo em palco, eu sou muito séria a cantar, mas também tenho os momentos de brincar com o meu público. Eu continuarei sempre a ser de Chelas e às vezes apetece-me ser aquele miúda de 12 anos no largo ao pé de minha casa a pedir aos amigos para jogar à bola. Eu quero limar-me e acho que tenho conseguido, mas não quero deixar de ser aquela pessoa. 

E como é que a malta de Chelas olha para si?

Eu espero que olhem para mim como uma esperança: Ela conseguiu alcançar o sonho dela.

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Já disse que o fado é, para si, uma urgência. Todos nós temos as nossas dores. Quais são as suas grandes angústias e preocupações?

Há coisas profundas que às vezes nem consigo explicar, mas neste momento estou mais focada nas coisas positivas. O fado é a minha terapia. O facto de cantar as minhas dores também me ajuda muito a dar a volta a essas coisas. Eu estou de braço dado com a dor há muitos anos, porque sou fadista. Às vezes é dificil explicar isto às pessoas, mas desde os 9 anos que canto coisas que doem na alma. Mas também por isso sinto que tenho um paz interior em relação à dor. Como falo tantas vezes nela e tenho esta benção de fazer a minha terapia enquanto canto, torna as coisas mais leves. 

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Como é que uma criança de nove anos se interessa por fado?

Eu já na barriga da minha mãe estava neste meio do fado. O fado era um irmão dentro da minha casa. Era o meu destino e quanto mais olho para trás mais me convenço. E acho que foi ele que me escolheu. Eu comecei a cantar a ouvir as cassetes da minha tia. A minha avó metiam as cassete a tocar e eu cantava por cima. Um dia fui bater à porta da escola de fado para pedir para cantar, sem a minha mãe, sem nada (risos). Tive quem pegasse no meu braço e me levasse para o palco, que foi o senhor Armando Tavares. E foi assim que tudo começou. 

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