De passagem por Portugal, cantora brasileira falou à Vidas sobre a sua relação com o nosso país, as raízes portuguesas, a vontade de voltar a ser mãe.
De passagem por Portugal, a cantora brasileira falou à Vidas sobre a sua relação com o nosso país, as raízes portuguesas, a vontade de voltar a ser mãe e a experiência nova de ser avó. Aos 44 anos, o ‘furacão’ do Brasil diz que é uma mulher como as outras, que gosta de cozinhar, de conduzir e de estar em família.
- Sempre se referiram a si como o ‘furacão’ do Brasil. Como é que se mantém vivo este ‘furacão’ aos 44 anos?
- (risos) Bem, os cuidados são os mesmos que sempre tive. Desde menina que como bem. Claro que agora é mais difícil manter a magreza, mas a única coisa que eu faço é comer menos (risos).
- E exercício físico?
- Curiosamente, estou neste momento a tentar organizar a minha vida para ter uma rotina de exercícios mais constante.
- O palco não é suficiente para perder calorias?
- Nem pensar. Mas a verdade é que eu também não sinto grandes diferenças no meu corpo. Ainda me sinto muito jovem.
- Tem lidado bem, efectivamente, com o passar dos anos?
- Sim. A minha astróloga sempre me disse que a minha energia ia ser sempre muito constante, desde criança até morrer. Ela costuma dizer que eu vou viver a saltar até aos meus cem anos. O mais curioso é que, às vezes, a alma está mais cansada do que o próprio corpo. Resumindo, não sinto cansaço nenhum, talvez porque não faça nenhum exagero.
- Não tem vícios?
- Não. O meu único problema é deitar-me sempre muito tarde. Nesse aspecto não consigo corrigir-me.
- Vive muito à noite?
- A noite é o momento da calmaria do 'furacão' (risos). Acho que é a única altura em que eu sinto que a vida pára um pouco, e isso deixa-me menos agitada. É nessa altura que eu consigo compor, escrever, ler. Mas eu sou assim desde pequena. Eu tive a minha primeira crise de esgotamento aos 15 anos. Desde que terminava a escola até à uma da manhã eu não parava.
- Não tem receio de envelhecer?
- Não. Não tenho qualquer vontade de ser imortal. Se fosse possível viver sempre com 40 ou 50 anos, talvez eu até suportasse viver até aos 150 anos. Depois disso já era abuso. Julgo que ia enjoar de toda a gente.
- A Daniela foi avó há seis meses. Foi bastante fácil habituar-se a este novo título de avó?
- Passar de mãe para avó foi, de facto, uma promoção que me obrigou a alguma adaptação. No início mexeu um pouco comigo mas agora tenho que dizer que me sinto muito feliz. Curiosamente, ser avó não me deu ruga nenhuma. Acho que até me ajudou a tirar as que tinha. A minha neta é a coisa mais gostosa do Mundo. Neste momento até estava com vontade de fazer outro filho, mas como passo o tempo a viajar só se fosse de canguru (risos).
- Sempre pode adoptar...
- Sim. Isso é, aliás, uma coisa que está muito presente na minha cabeça há bastante tempo. Educar uma criança e fazê-la feliz dá muito trabalho e é preciso dedicar-lhe a nossa vida. Eu e o meu marido temos muita vontade de adoptar mas vamos esperar para ver o que o futuro reserva.
- Acaba de lançar um novo disco, ‘Canibália’. O que há de novo na Daniela Mercury?
- Há uma mulher mais livre e tranquila. Acho que esse é o caminho natural das coisas. Começámos a nossa carreira com alguma ingenuidade mas, ao longo do tempo, vamos construindo algo mais responsável. Neste disco, por exemplo, pensei muito na responsabilidade que a minha geração tem em dar continuidade a um legado musical muito importante deixado por Chico Buarque, Caetano, Gil e tantos outros. Este disco é, precisamente, uma homenagem a todos eles.
- Este disco conta com um dueto com Carmen Miranda. Como é que foi gravar com ela, ainda que virtualmente?
- Foi muito engraçado. Eu quis gravar a Carmen por causa do centenário dela. A música dela sempre foi muito apimentada, sexy, muito inteligente mas com a pureza da época dela. Comecei então a tentar fazer uma versão de ‘O que é que a Baiana Tem’ e descobri que um ‘twist’ por baixo ficava muito bem. Um dia lembrei-me de que era capaz de ficar bem colar a voz da Carmen. Foi o meu filho Gabriel que fez a montagem. Quando eu ouvi fiquei encantada. Sem saber, até gravei no mesmo tom que ela. O resultado é uma música muito alegre e que me deixou muito feliz.
- As raízes da Daniela estão ligadas a Portugal, uma vez que o seu pai é português. O que sente por Portugal?
- A minha relação com Portugal é de família, é de vida. Eu descobri-me mais portuguesa depois que comecei a vir para cá.
- E o que descobriu?
- Descobri que sou mais discreta do que a maioria dos baianos (risos). Apesar de ter esta alegria toda, sou mais introspectiva do que a maioria. Eu costumo dizer que os brasileiros são mais sambistas e os europeus mais existencialistas. Ora, eu acho que tenho um lado europeu muito forte, porque tenho metade da família portuguesa e a outra metade italiana. E os italianos também não são dos mais festeiros.
- Como é que foi a sua educação?
- Tive uma educação muito rigorosa em casa, com um catolicismo muito presente. O meu pai era ministro da eucaristia, a minha mãe também era muito católica e a minha avó portuguesa vivia dizendo poesia. Morreu há muito pouco tempo, com cem anos. Foi ela que me estimulou a falar poesia.
- Como é que eles vêem a sua carreira?
- Em 1998 trouxe a minha avó a Portugal para me ver actuar no Coliseu. Lembro-me de a ver chorar emocionada e de ela me dizer: 'Nunca pensei ver a minha neta cantar na minha terra.' Foi um presente que eu lhe dei. Neste disco, aliás, eu homenageio todos eles com o tema ‘Cinco Meninos’. O meu pai fez neste ano 80 anos, a minha mãe fez 70, e eu descobri que nunca tinha feito uma canção para eles. Como são muito diferentes, fiquei um ano a escrever textos e textos e textos e não consegui. Por isso, resolvi homenageá-los fazendo uma música aos filhos. É engraçado porque toda a família canta nessa canção, até a minha netinha (risos).
- Como é que foi, de facto, esse trabalho em família?
- Foi muito engraçado, porque o disco foi gravado em minha casa, uma vez que o meu estúdio estava em obras. Levei o equipamento para lá e chegou-se à conclusão de que o melhor local da casa era o meu quarto. Foi muito divertido porque, como os meus filhos trabalham comigo, quando algum deles era preciso era só mandar acordar (risos). Quando eu queria dormir, tinha que mandar os produtores embora (risos) e deitar-me entre microfones e baterias.
- E a acústica não saiu comprometida?
- Que nada! A determinada altura, eles descobriram que o melhor local para gravar a voz era dentro do meu armário, por causa das roupas, que conferiam boa acústica. Foi muito engraçado (risos). O meu quarto ainda está uma bagunça que só vendo.
- O que é que lhe agrada mais em Portugal?
- Eu gosto de tudo, das pessoas, das cidades, da comida, do vinho. Há vários restaurantes que eu adoro. Mais recentemente descobri, em Lisboa, A Casa da Morna, do Tito Paris. Fiquei fã. Depois, adoro o Bairro Alto lisboeta, as ruelas e os bares. Das cidades, gosto de Braga, onde a minha família nasceu, do Porto, de Guimarães. Do Algarve, gosto de Olhão, onde a água do mar é mais quente. Depois tem a Madeira, que é um local lindo.
- E a comida?
- O vosso marisco é divinal. E depois gosto do bacalhau, das sopas. Quando entro no avião da TAP digo logo que vou comer comida com gosto português.
- E já é conhecida a sua paixão pelo fado...
- Sim. Eu adoro aquela dramaticidade.
- Já experimentou gravar algum fado?
- Gravar não, mas já me aventurei a cantar a ‘Canção do Mar’, mas é muito difícil. No início parece que o fado é só dramaticidade, tristeza e uma voz forte, mas a verdade é que o domínio daquela letra quase falada e as passagens e as ‘nuances’ é tudo muito difícil. Eu ouvi muito fado em casa, principalmente Amália. O meu pai sempre me falou muito dela mas nunca tive coragem de cantar.
- Não está cansada desta vida da estrada e das viagens, de andar de um lado para o outro?
- Há alturas em que, de facto, não me apetece sair de casa. É duro sair, mas depois de sair parece que às vezes me sinto uma adolescente. Já me acostumei a esta vida. Mas claro que quanto mais viajo mais saudades tenho de casa. Eu costumo dizer que a saudade mora lá em casa, ainda que eu more lá.
- Nunca lhe aconteceu voltar ao Brasil e estranhar a sua própria casa?
- Eu comecei a viajar aos 12 anos, com espectáculos de dança e teatro. Quando era pequena e voltava para casa, sentia saudades do lado lúdico e achava sempre a casa triste. Hoje em dia sinto muitas saudades da minha casa quando estou fora. Mas a minha empregada diz, sabiamente, que eu não sou passarinho de gaiola.
- Mas a Daniela tem a vantagem de viajar com toda a família...
- É. De tanto estar fora de casa e de tanto sentir falta do meu marido e dos meus filhos, decidi trazer toda a gente comigo. O meu marido, que é produtor de eventos, gosta muito de me acompanhar e também toca comigo. Depois tenho os meus dois filhos, que actuam comigo. O meu pai, a minha mãe e os meus irmãos, sempre que posso, levo-os comigo.
- E no Natal, como é?
- No Natal regresso a Salvador. Os amigos já sabem que é nessa altura do ano que me apanham sempre.
- O que faz quando regressa a casa? Põe a música de lado?
- Não. A música para mim nunca foi um trabalho. Ela está tão entranhada em mim que é impossível livrar-me dela. Na verdade, quando estou em casa quietinha, dá-me é vontade de compor. Depois, gosto de arrumar os meus armários, os meus livros, e gosto de cozinhar, embora não seja uma grande cozinheira (risos). Em casa, gosto de andar descalça e sem maquilhagem, gosto de sair e de conduzir o meu carro sem motorista. Finalmente, gosto de ficar a conversar com o meu pai e a minha mãe.
- E nas férias, costuma sair do Brasil?
- Nem pensar. As minhas férias são em casa. Eu não quero ver uma mala à minha frente. Eu canso-me tanto das malas que às vezes até as mudo de cor. Enjoo muito delas. Quando faço digressões grandes, à quarta cidade já as quero deitar fora. Por outro lado, eu sei que se tiver uma vida rotineira, só em casa, eu morro.
REFLEXO
- O que é que vê quando se olha ao espelho?
- Vejo uma menina, uma 'moleca'. Vejo-me sempre da mesma maneira. Às vezes até me pergunto como é que isto aconteceu.
- Mas gosta do que vê?
- Gosto. E mesmo que não gostasse tinha que aceitar (risos).
- Alguma vez lhe apeteceu partir o espelho?
- Eu já parti vários espelhos mas nunca foi por não gostar de me ver. O problema é que sempre fui muito danada e sempre parti coisas lá em casa. Se fosse verdade que cada espelho quebrado dá sete anos de má sorte a minha vida era um azar completo (risos).
- Quem gostaria de ver reflectido no espelho?
- A pessoa que eu luto para ser, uma pessoa mais desprendida, amorosa, mais paciente, compreensiva e leve, uma pessoa que acorda todos os dias de bem com a vida e que aceita o Mundo como ele é.
- Quem é a pessoa de referência da sua vida?
- Os meus pais. É difícil separá-los.
- Momento marcante?
- Acho que foi quando nasci. Não me lembro mas só pode ser esse, senão eu não estava aqui. Isto não tem nada de pretensioso. Não é que eu ache que o meu nascimento tenha sido importante para o Mundo mas foi para mim.
- Qualidade e defeito?
- Eu sei lá quais são as minhas qualidades (risos). Sou lutadora e procuro ser inteligente e alegre. Sei lá! Acho que sou uma pessoa equilibrada, porque sou honesta e paciente. Acho que sou um pouco de tudo, tanto sou má como, de repente, sou ‘boba’.
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