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Fernando Girão: "Gostava muito de ter feito vozes para Chopin ou Stravinsky"

Ao final de sete anos de ausência, clausura e meditação, o músico está de regresso aos discos com ‘Fado Negro’. Mais estão para vir.

12 de setembro de 2009 às 10:30

Ao final de sete anos de ausência, clausura e meditação, o músico está de regresso aos discos com ‘Fado Negro’. Mais estão para vir. 

- O que quer dizer com esta coisa do ‘Fado Negro’? É o reflexo de algum período menos bom da sua vida?

- O ‘Fado Negro’ tem a ver com várias coisas. Remete para a vida e para a humanidade que anda a atravessar momentos difíceis. A coisa anda preta [risos]. Ritmicamente este é um disco que tem muito balanço e que tem muito a ver com as minhas raízes e com o facto de ser brasileiro.

- Mas este está muito longe de ser um disco de fado. É alguma provocação?

- A palavra fado não tem que ter necessariamente uma conotação ligada à música.

- Mas engana...

- Deixa estar. Gosto de criar esse tipo de polémica [risos], mas a utilização da palavra fado também tem aqui algum sentido. Além deste disco ter uma predominância muito grande da guitarra portuguesa, a palavra fado também é uma homenagem aos meus pais que foram fadistas e que me criaram no fado.

- Há sete anos que não gravava. Porquê esta ausência tão prolongada?

- Sete anos é um número cabalístico e tem muito a ver com a fé que eu abraço. Depois, como nunca fiz música a metro, houve uma altura da minha vida em que decidi parar para pensar.

- Pensar em quê?

- Pensar em tudo aquilo que eu já falava há 30 anos e que agora está a acontecer.

- Como por exemplo?

- Há uns anos falava-se na destruição da camada de ozono e ninguém ligava, entrava por um ouvido e saia por outro. Hoje em dia ninguém vai para a praia sem o protector solar. Há uns anos ninguém ligava à questão do degelo dos pólos e à necessidade de poupar água. Agora já todos falam nisso e daqui a uns anos vamos entrar num café e pagar mais por uma garrafa de água do que por um uísque de 20 anos.

- Mas o que andou a fazer?

- Durante três anos estive em retiro para fazer aquilo que se chamam viagens interiores. Cheguei a estar meio enclausurado.

- Esteve sempre em Portugal?

- Não. Andei pelo mundo inteiro, pelos quatros costados, da África aos EUA. Cheguei a tocar nas ruas. Tinha posses para estar em bons hotéis, mas muitas vezes preferia subir uma montanha e dormir ao relento. Cheguei a dormir no mato durante um mês. Quando cheguei a algumas conclusões regressei.

- E regressou com a vontade de gravar?

- Sim. Reuni a família e disse-lhes que vinha cheio de ideias e que estava a pensar ir para estúdio só para gravar. Depois de vermos se havia capital para isso, lá avancei. Neste momento tenho mais discos prontos a lançar, já gravados e tudo.

- O Fernando anda nisto já há muitos anos. As coisas mudaram muito?

- Sim. Esta é uma profissão de altos e baixos.

- O que o incomoda?

- Incomoda-me a vulgaridade da música que está a ser feita em Portugal. Neste momento não se aposta no talento. Depois incomoda-me também o preço dos discos que hoje me leva a dar razão a quem rouba música da internet. Mas foi a indústria fonográfica que levou a isso quando se lembrou de começar a pedir exorbitâncias por um disco que lhe custa 3,5 euros na produção.

- Há um verso neste disco em que diz: 'Os meus assuntos resolvo eu com Deus.' Quando chegar a hora vai ter muito que conversar com Deus?

- Todos nós vamos ter muito o que conversar com ele. Eu, para evitar uma conversa muito longa comigo, vou já falando com ele [risos].

- Arrepende-se de alguma coisa?

- Se pudesse voltar atrás faria coisas de forma diferente. Ainda assim não tenho nada de que me arrependa muito ou de que me venham a apertar o pescoço. Não há alguém que me possa chamar de sacana.

- Quando veio do Brasil para Portugal?

- Aos 16 anos.

- Até essa idade o que fez por lá?

- Andei a vadiar. Estudava um pouco e curtia a vida. Quando os meus pais se separaram, vim para Portugal com o meu pai, mas um ano depois a minha mãe não aguentou e veio com o meu irmão.

- O Fernando tem seis filhos. Algum deles seguiu os seus passos?

- Cada um segue o que quer. Mas alguns denotam uma veia muito grande pelas artes. A minha filha Maria, de 11 anos, canta e dança como uma mulher feita. É de cair para o lado. Tenho um filho com 30 anos que vive em Espanha e é escritor. Já vai no terceiro livro. Tenho uma outra filha que vive em Londres e que canta jazz, tenho também um filho guarda-redes...

- Futebol?

- Sim, também joguei. Joguei no Sporting, no Belenenses e no Benfica. Cheguei a ser treinado pelo Travassos e pelo Fumaça.

- Já colaborou com vários artistas. Com quem é que gostaria de trabalhar?

- Com o Herbie Hancock e de ter feito vozes para Chopin ou Stravinski.

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