Dezanove anos depois do último disco de originais, os Ban, uma das mais carismáticas bandas dos anos 80, estão de volta
Dezanove anos depois do último disco de originais, os Ban, uma das mais carismáticas bandas dos anos 80, estão de volta com novo som, nova vocalista e novo disco. João Loureiro fala de um grupo que reencontrou o prazer de fazer música.
- Quando os Ban colocaram um ponto final, em 1995, disse, na altura, que "preferia terminar do que continuar a fazer as coisas sem prazer". O prazer voltou?
- Sim, pode-se dizer que sim. O grupo voltou a reunir-se, primeiro porque somos amigos e depois porque sentimos uma necessidade imensa de voltar a fazer música, pelo prazer. Mas o objectivo deste reencontro nem era o de fazer um disco. Nos primeiros ensaios é que percebemos que estávamos a produzir material com qualidade suficiente para justificar uma edição.
- Para que este regresso dos Ban fosse possível, quem é que deu o primeiro passo?
- Tudo começou num jantar, mas sinceramente já nem lembro quem é que o marcou (risos). Nesse jantar, o João Pedro Ferraz [engenheiro de som e produtor], que tem uma sala de ensaios e um estúdio no Porto, desafiou-nos a ir lá tocar para ver o que saía. Os que na altura estavam mais disponíveis foram aqueles que foram aparecendo e, portanto, as coisas foram acontecendo muito naturalmente.
- Depois de tantos anos, não teme que os Ban tenham caído no esquecimento? Ou isso não o preocupa?
- No esquecimento eu julgo que não, até porque pelos meios tecnológicos que hoje existem as nossas canções estão disponíveis em todo o lado. Às vezes, em algumas rádios, volta não volta, ouço discos nossos antigos a tocar. Agora, claro que eu sei que as novas gerações apenas conhecem um ou outro tema e que não têm noção do nosso percurso, mas isso também é aliciante para nós.
- Fizeram este disco já a pensar nestas novas gerações?
- O objectivo do regresso dos Ban não é meramente comercial. Nenhum de nós pensou em colocar este disco cá fora à espera que fosse um sucesso. Para nós é mais importante mostrar as nossas novas ideias. Até aqueles que conhecem os Ban e que ouviam a nossa música vão ter de se habituar ao nosso novo som. É com alguma humildade que vamos esperar pelos resultados.
- Está a sentir este regresso como um revivalismo ou um começar de novo?
- Revivalismo não, porque este disco é muito diferente. Nem sequer pretendemos fazer uma ponte entre os antigos Ban e os Ban actuais. Ou seja, se calhar este regresso é mais um começar de novo. É uma espécie de renascimento. Este é o primeiro passo de um novo ciclo dos Ban.
- Muita coisa mudou nos últimos quinze anos no mercado, na indústria e a nas vossas vidas pessoais e profissionais. O que é que ainda existe daqueles Ban que em 1991 gravaram ‘Mundo de Aventuras’?
- As pessoas são as mesmas, e quando estamos juntos percebemos que ainda há muita coisa que se mantém igual. Mas, de facto, olhando para trás, o que mais mudou foi a indústria, o mercado e a tecnologia. Hoje, a Internet, por exemplo, é um meio fundamental para a divulgação da música.
- Durante este período de silêncio em que os Ban estiveram ausentes, sentiu o apelo de fora, dos fãs e do público, para o regresso do grupo?
- É engraçado, porque nos últimos anos, e devido a algum revivalismo que se tem vivido em relação aos anos 80, ouvi muita gente a lembrar-se dos Ban. O que acontece é que, porventura, as pessoas não pensariam que o nosso regresso se desse nestes moldes, de forma tão diferente. Se calhar estavam à espera de uma coisa mais revivalista e ‘eighties’.
- Vocês surgem pela primeira vez a cantar em inglês. Essa é, de resto, uma das grandes mudanças no vosso regresso. Como foi essa adaptação?
- Esta coisa do inglês não foi muito pensada. Quando fomos para a sala de ensaios começaram a sair naturalmente algumas coisas em inglês. Foi muito espontâneo. Claro que a língua de que eu gosto mais é a minha, mas foi uma forma de experimentar uma coisa nova.
- Mas há ou não por detrás disto uma intenção de lançar os Ban lá fora?
- Claro que pelo facto de estarmos numa editora independente e de termos mais controlo sobre o disco vamos tentar lançá-lo fora de Portugal. O cantarmos em inglês é uma vantagem. Sei que cá não é o caminho mais fácil, mas enfim, foi o que surgiu e foi assim que foi sendo feito (risos).
- Outra das grandes novidades do regresso dos Ban é a nova voz feminina. Como é surgiu a nova vocalista?
- Quando começámos a pensar em fazer o disco, começámos à procura de uma voz que corporizasse as ideias que nós tínhamos, que no nosso entender tinha de ser forte e poderosa, e a dada altura encontrámos a Mariana [Matos], que nos foi levada à sala de ensaios por um amigo comum. E a empatia foi imediata.
- Nunca pensaram no regresso dos Ban com a própria Ana [Deus], a antiga vocalista?
- Quando começou esta coisa de irmos para a sala de ensaios de forma natural e descomprometida, a Ana, de facto, não foi uma dessas pessoas. Nós éramos sete e apenas quatro apareceram em estúdio. A Ana Deus acabou por não acontecer, mas não por nenhum motivo em particular. Que fique claro que eu sou um grande admirador da Ana, como cantora e como pessoa. Só não aconteceu.
- Durante este tempo em que esteve afastado da música e ligado ao futebol, como presidente do Boavista, que ligação é que mantinha com o mundo da música?
- Como ouvinte, fui sempre muito atento. Desde a minha infância que a música preenche uma parte importante da minha vida, portanto, como ouvinte, nunca me afastei dela. Para mim a música é sempre uma forma de nos transportarmos para um mundo imaginário. Como músico, fui fazendo coisas pontuais que me pediam, mas nada mais.
- O mundo do futebol e da música eram incompatíveis?
- Não completamente. Aliás, este disco começou a ser feito em 2004, quando eu ainda estava em funções no futebol. O que acontece é que, em termos públicos, não fazia muito sentido. Na altura em que estive no futebol sempre tive o princípio de não falar de música. Agora, como volto a estar na música, deixo de falar de futebol (risos).
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