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Miguel Araújo de volta aos discos: "Sou tímido desde pequenino mas agora estou mais auto-domesticado"

Músico de 47 anos acaba de lançar o novo trabalho 'Por Fora Ninguém Diria'.

24 de janeiro de 2026 às 21:33

Como é que pode apresentar este novo disco?

É um disco que começou a ser gravado em 2023 numa perspetiva de gravar maquetes, ainda sem saber que afinal estava a gravar as versões finais das músicas. No fundo é um disco que não foi muito premeditado e que eu descobri nos meus baús. 

Ainda se consegue surpreender a si próprio com aquilo que vai descobrindo nos seus baús?

Sim, porque eu estou sempre a gravar e tenho centenas de coisas guardadas. De vez em quando faço uns períodos de balanço e quando vou ouvir o que tenho, descubro que afinal gosto desta ou daquela música e que ela merece existir. Algumas das minhas canções resgato-as assim do fundo do tacho.   

Já disse que trabalha no seu estúdio caseiro, diariamente das nove às cinco. O Miguel é assim um compositor tão disciplinado quanto parece?

Na verdade é mais a partir das 10h00 porque eu começo sempre o meu dia com uma corridinha ou com uma sessão de ginásio, se não dava em maluco, sempre ali enfiado. Mas eu acho que se uma pessoa quer ver o trabalho a acontecer, tem que o fazer e desde que tenho o meu próprio estúdio tenho esse privilégio. Ainda por cima  o pessoal da minha banda deixa muitos instrumentos cá em casa e eu às vezes roubo um ou outro e transformo-me numa criança a brincar sem ninguém a olhar e sem vigilância.   

E como é o seu processo de composição?

Eu sou muito assíduo ao trabalho, mas não sou muito metódico ou organizado. O que acontece é que quando faço uma música, gravo-a para o telemóvel, faço uns apontamentos muito genéricos e passados dois anos quando os telemóveis se avariam lá vou eu a correr para os técnicos para me recuperarem pelo menos a parte do áudio (risos). Desde que existem os smartphones que ando com uma espécie de tocha olímpica que não pode apagar, que são os meus rascunhos. E então ando sempre aflito a ver se não os perco porque são a parte mais importante do meu trabalho. 

Há quem diga que este processo de composição é muito prazeroso, mas também há quem diga que por vezes chega a ser doloroso. Como é para o Miguel Araújo?

A parte de dar à luz não é prazerosa, nem dolorosa, é assim uma coisa até meio displicente. Mas a parte de concretizar as canções é de facto doloroso, encontrar as palavras certas, gravar e depois perceber que as palavras afinal não eram bem aquelas. Depois é preciso refazer 250 mil vezes. Eu já sei que é assim e por isso não desespero. O Chico Buarque chamava a essa parte "a descida aos infernos". Eu ser calhar não ia tão longe, mas é uma pescaria. É estar um dia inteiro com o anzol e não sair nada. Às vezes são dias sem sair nada. 

E essa ansiedade como é que se combate?

Eu com 47 anos de idade e vinte e tal disto, sei que não é preciso desesperar e vou fazer outra coisa qualquer... Vou pôr a loiça na máquina. Eu sei que depois o trabalho acaba por aparecer. Aliás, neste momento tenho canções feitas para mais três discos. Se for atropelado por um autocarro de dois andares há alguém que se vier ao meu computador consegue lançar músicas por mais uns aninhos. 

Trabalhando o Miguel em casa e tendo miúdos pequenos por perto, eles permitem o silêncio e a concentração necessária para trabalhar?

Não, não permitem, mas é nessa roda viva que eu sou mais eficaz. Quando andava com os Azeitonas no autocarro a percorrer o país de ponta a ponta fartei-me de fazer músicas no autocarro no meio da azáfama. Quanto mais confusão à minha volta mais eu me concentrava. Às vezes até me acontece o contrário. Quando os miúdos estão na escola, a minha mulher está fora e eu estou sozinho em casa, com tudo apostos, geralmente não me ocorre grande coisa. 

E acontece os filhos ajudarem no trabalho?

Eles dão umas dicas. Eu mostro-lhes sempre o que faço e pergunto-lhes o que eles acham. 

E eles gostam da música do pai?

Para eles, este é o meu trabalho. Desde que eles nasceram que é assim. Estranho para eles era se eu chegasse ao fim do dia de trabalho de fato e gravata. Mas sim, acho que gostam da minha música, opinam muito e são cruéis quando acham que não presta. Mas gostam de ir aos meus concertos. Os dois mais velhos (13 e 11 anos) já os levei algumas vezes. A mais pequenina (oito anos) é que vai menos, mas ainda agora na passagem de ano, levei-a à Maia e ela adorou. Sempre que querem ir eu levo-os, todo contente. Adoro. 

E vê ali alguma apetência para a música em algum deles?

Sim. O mais velho já toca guitarra, o do meio não se interessa muito, mas sempre que cantarola qualquer coisa, é muito afinadinho e tem muita noção de ritmo. E a mais nova também. Mas eu não impinjo nada. As guitarras estão por aqui, se eles quiserem tocam e pegam. Com o mais velho foi assim. Eu não lhe ensinei nada e um dia apareceu-me com a guitarra e já sabia os acordes. 

Vinte anos de carreira desde o álbum de estreia dos Azeitonas, em 2005, como é que olha para estas duas décadas?

É difícil de explicar. Parece que começou ontem mas ao mesmo tempo parece que foi há sete vidas atrás. Parece que foi noutro milénio, mas a verdade é que foi tudo a correr e eu nunca fiz uma pausa. Mas para mim nada mudou e eu continuo a fazer música da mesma maneira, com o mesmo entusiasmo e a mesma inquietação. A questão é que agora estou mais maduro e já não tenho as ansiedades de ir para o palco como tinha no início. Já nem sequer tenho aquela ânsia de ler as criticas para ver se gostaram dos meus discos. A música tornou-se uma extensão da minha própria existência, não é separável de mim. A música entranhou-se em mim. 

No princípio falava de timidez. Já a consegue dominar melhor?

Consigo dominar, mas não aniquilá-la. Quem é tímido, será sempre tímido. Eu vivo com isso desde pequenino mas agora agora estou mais auto-domesticado. Consigo ir para o palco com mais naturalidade. O Malcom Young dos AC/DC dizia que as duas horas em palco eram as únicas do dia em que ninguém lhe chateava a cabeça. Eu não vou tão longe, mas para mim é uma alegria e uma paz estar em palco. 

E qual é a memória mais viva que tem do início?

Tenho várias, mas talvez chegar ao estúdio do Rui Veloso para gravar pela primeira vez. Lembro-me dos cheiros, do ambiente e dos discos de platina do Rui pendurados pelas paredes. E ainda me lembro da ansiedade de não saber se era isto que queria fazer da minha vida e se tinha lugar nesta indústria. Os primeiros sete anos foram de trabalho árduo, mas eu não olho para isso como um momento mau. Olho como uma época bastante positiva e de grandes descoberta. 

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