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Rita Ribeiro, actriz sobejamente conhecida do público, conta que sofreu uma profunda mudança interior.
Rita Ribeiro, actriz sobejamente conhecida do público, conta que sofreu uma profunda mudança interior. Avó aos 39 anos, mudou o rumo da sua vida e aprendeu a tirar proveito da tristeza. Centrou-se nos afectos e gosta muito mais de si.
Correio da Manhã - Laura Alves em ‘Passa por Mim no Rossio' e ‘Maria Callas' foram papéis que a marcaram e foram também aqueles que lhe deram prémios?
- É verdade. Acho que passo a emoção para as pessoas. Eu sou um veículo de emoções. Durante muitos anos, eu não enfrentava as minhas emoções. Nem queria saber que elas existiam. Costumo dizer que andei 20 anos a correr à frente delas. Eu estava sempre em festa e nunca quis admitir que a vida também tem tristeza, às vezes até muito saborosa porque a seguir vem a alegria. E é esse ondular da vida que é tão misterioso e fascinante. Quando me dizem que eu estou mais magra deve-se a ter deitado fora as emoções, as mágoas e raivas que fui acumulando.
- Deitou fora, libertou-se?
- Sim. Eu fiz todos os cursos de auto-desenvolvimento, desde bioenergia, bioconsciência. Fiz psicoterapia, trabalhei com uma terapeuta. Adoro essas coisas. Esse mistério que a vida tem.
- Tudo isso para se conhecer e aprender a lidar com as emoções?
- Exactamente. E isso enriqueceu muito a minha serenidade no palco. Porque é que me fez aflição quando vi a Laura Alves no palco?! Porque a ansiedade dela eu também a tinha. Eu sempre fui muito ansiosa. Hoje já consigo lidar com isso, com o medo, a culpa. Nós não somos as histórias que vamos vivendo, somos muito mais do que isso. E se me perguntar se eu quero continuar sempre a ser actriz... Eu tenho a minha mãe em minha casa, neste momento. Ela tem 83 anos e foi actriz toda a vida. Viveu sempre a 100 por cento a sua vida de actriz, apesar de ter sido uma mãe maravilhosa. Mas eu quero mais coisas.
- E diz isso porque olha para a sua mãe?
- Também. Não quero ser dependente. Eu quero passar a minha experiência. Eu tenho um objectivo. Escolhi o Alentejo como a terra do meu coração e quero fazer um centro recreativo, de iniciação artística. Esse é o grande objectivo da minha vida. Quando dei aulas senti-me muito feliz.
- A Rita mantém a inocência?
- A inocência é a única coisa que eu quero que nunca desapareça da minha vida. Por isso me dou tão bem com crianças. E tenho muita pena de não ter tido mais filhos.
- E porque não os teve?
- Por causa do teatro. Eu fui avó aos 39 anos e estava em frente do espelho, já com um neto na alcofa que foi da minha filha mais velha, e disse: "O que é que tu fizeste pela tua vida. Só teatro". E aí houve uma decisão interior muito grande e decidi encaminhar a minha vida de outra maneira.
- Começou a dar mais importância aos afectos?
- Aliás, só comecei a dar importância aos afectos. Foi nessa altura que tomei consciência do que não tinha feito. A Rita que se estreou no teatro há 35 anos não é a mesma que está agora aqui. O embrulho é parecido mas o interior é muito diferente. Gosto muito mais de mim agora e estou muito agradecida ao caminho percorrido.
"O AMOR NÃO TEM IDADE NEM SEXO"
- Agora ligam-na muito ao Felipe La Féria?
- Eu trabalho com o La Féria há 22 anos.
- Foi difícil assumir uma relação com um homem mais novo [o actor Hugo Rendas]?
- Acho que o amor não tem idade nem sexo. Por isso acho estranho que as pessoas dêem tanto ênfase à homossexualidade. Todos somos em potencial bissexuais, tanto podemos amar uma mulher como um homem. Nascemos assim. O que é mais importante é que sejamos felizes.
- Se não fosse actriz o que seria?
- Não sei. Mas quando não estou no palco, não tenho muitas saudades porque gosto de fazer outras coisas. Eu cozinho maravilhosamente.
- Como é que uma actriz consegue acompanhar uma filha adolescente?
- Com a ajuda da minha mãe. Mas eu acho que foi a Maria que me ajudou, veio chamar-me à realidade.
"ACHO QUE NA VIDA TUDO É POSSÍVEL"
- A Rita foi manequim?
- Fiz um curso de modelo quando ainda não sabia muito bem o que queria fazer e fui Miss Tenager. Foi importante para a minha auto-estima porque fui uma adolescente gordinha. Estava a fazer o curso de Artes Gerais da António Arroio à noite. Era motard. Tive uma Kawasaki aos 17 anos.
- E cantou nas Cocktail?
- Fui eu que formei as Cocktail. Comecei a cantar aos 17 anos, namorava com o baterista dos 1111, Victor Mamede. O José Cid ouviu-me trautear e disse: "Tu cantas muito bem". Foi na altura em que formámos os Green Windows, os homens do Quarteto 1111 mais as namoradas. Fomos ao Festival da Canção, com três temas, o José Cid cantava ‘A rosa que te dei' e nós ‘As imagens' e ‘O dia em que o rei fez anos'. Ficámos em 2º, 3º e 4º lugares. Foi no ano do ‘Depois do Adeus', do Paulo de Carvalho.
- Começou da melhor maneira.
- E talvez seja por isso que eu tenha sonhado sempre alto. Até porque acho que na vida tudo é possível. Lembro-me da sensação que tive quando vi pela primeira vez um musical, em Londres. Foi o ‘Gosspell' e fiquei completamente presa à cadeira.
- Sentiu-se preenchida?
- Senti. Senti uma plenitude.
PERFIL
Rita Ribeiro tem 55 anos. Filha de Maria José e Curado Ribeiro, cresceu nos palcos e assim se fez actriz, depois de ter experimentado a música. Mãe de Joana, com 35 anos, e Maria David, de 13 anos, é protagonista de ‘Um Violino no Telhado'
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