Músico britânico faz 67 anos na 2ª feira e, em vésperas do arranque da digressão ‘The Wall Live’ (dia 15, em Toronto, Canadá), revela como vai ser
Músico britânico faz 67 anos na segunda-feira e, em vésperas do arranque da digressão ‘the wall live’ (dia 15, em Toronto, Canadá), revela como vai ser a mais ambiciosa digressão na história do rock ‘n’ roll, que passa por lisboa a 21 e 22 de março de 2011.
- ‘The Wall’ tem hoje, para si, um significado diferente daquele que tinha em 1980?
Roger Waters – Tem aquelas coisas que são óbvias. Há ainda muitos muros no Mundo actual. Há um muro entre ricos e pobres, entre o primeiro e o segundo mundo, entre o velho mundo e o terceiro mundo, e algures ainda há muros que separam as pessoas por causa das diferenças religiosas ou por questões ideológicas. Vivemos num mundo onde somos separados uns dos outros por essas razões, e não necessariamente de um modo pacífico.
- Isso é muito diferente, uma vez que na primeira versão se tratava da personagem Pink e dos muros à volta desse indivíduo...
– É o que acontece quando se pega numa narrativa pessoal e a universalizamos de algum modo, mas descobrem-se sempre paralelos nas experiências de outras pessoas.
- Está prestes a embarcar naquela que poderemos apelidar de mais ambiciosa digressão na história do rock n’ roll. Está ansioso, excitado ou nervoso?
– Um pouco de tudo. Talvez mais excitado do que nervoso. A experiência diz-me que quando se trabalha com uma equipa à nossa volta os problemas podem ser solucionados e estou certo de que os vamos ultrapassar. A ambição é muito simples, é apenas tentar e pôr as pessoas a mexer.
- O termo ambição tem a ver com a produção, grandiosa, não em termos monetários, mas juntar todas essas peças é uma tarefa enorme...
– É interessante porque a tecnologia mudou um pouco desde 1980/81 quando nós (Pink Floyd) o fizemos. Era mais complicado nessa altura, mas a engenharia evoluiu e agora será mais fácil, certamente, erguer o muro. Mas devo dizer que as técnicas de construção são muito semelhantes. Usamos tijolos de cartão prensado como antes.
- A sério?
– Yeh, e o Mark Fisher e o Jonathan Park que projectaram os mecanismos em 1980 estão a trabalhar nisso outra vez.
- A meio do espectáculo, com todos os efeitos especiais, o muro em construção, os filmes que são projectados, a animação e os fantoches, surge uma canção calma, ‘Mother’. Como explica que o tema tenha tanto impacto na audiência?
– A linha a que o público responde melhor é “mother should i trust the government”... acho que intuitivamente o público percebe que ‘the government’ é a Grande Mãe. Existe uma estranha relação entre a ideia do poder de um dos pais e a de governo e, enquanto adolescentes, se formos saudáveis, rebelamo-nos contra os pais. E acho que as pessoas entendem isso, que têm de se rebelar contra o ‘status quo’, os poderes instituídos, o governo.
- Como vai representar a cena da ‘groupie’ no espectáculo?
– Não posso dizer.
- Não pode dizer quem vai interpretar a personagem?
– Não posso revelar partes ou detalhes do espectáculo.
- Ok. Em ‘’One of My Turns’ começamos a perceber um pouco do lado negro de Pink. Já passou por momentos como esse?
– Sim, claro. Não sou do género de partir um quarto de hotel ou atirar TV’s pelas janelas. Isso era dos Led Zeppelin, se bem me lembro. Mas tive alguns momentos muito sombrios e desesperados ao longo dos anos. Parte da história, algumas histórias estão directamente ligadas ao que se passava na minha vida. Quando a primeira mulher me deixou, pelo telefone, fiquei devastado e andei a trepar pelas paredes (walls) durante algum tempo.
- Pode dizer-nos como vai ser essa parte no espectáculo?
– Hum....projecções.
- Filmes, portanto?
– Sim, alguns filmes, alguns gerados em 3D, mas não ao nível ‘Avatar’, quero dizer é software de 3D, coisas geradas desse modo, vidros partidos e coisas do género.
- Toda essa tecnologia não corre o risco de ‘apagar’ a canção?
– A dificuldade maior é integrar alguns temas universais com a narrativa individual que está inerente ao álbum. Quero fazer algumas declarações políticas e humanitárias sem ser um pregador, sem ofender a narrativa que as pessoas conhecem e que estava lá há 30 anos. Esse é o grande desafio, mas é isso que torna as coisas interessantes.
- A meio do espectáculo, em ‘Goodbye Cruel World’, qual é a relação da banda com a audiência?
– Bom, para quem nunca viu como o espectáculo se desenrola, no início há pequenas partes de muro nas laterais do palco e durante a primeira metade do espectáculo, que dura sensivelmente 50 a 60 minutos, o muro vai sendo construído enquanto a banda vai ficando atrás de uma parede de dez metros de altura. No final da primeira parte, o muro está completo e, no início da segunda parte, as pessoas não nos vêem... há umas luzes aqui e ali, que se apagam e acendem...
- O muro vai sendo construído tijolo a tijolo desde a primeira nota até à última do ‘Goodbye Cruel World’?
– Sim, é isso.
- Um muro que, no final da primeira parte, separa fisicamente a banda do público, certo?
– Correcto.
- De que modo se relaciona isso com o significado mais abrangente que pretende?
– Bom, na primeira parte temos um ou dois apontamentos que, quando as pessoas se vêem separadas da banda, percebem que isso não é um divórcio público-artista. É algo que tem a ver com a separação entre o Ocidente e o Oriente, ricos e pobres, poderosos e oprimidos, cristãos e muçulmanos, o que se quiser. É uma simbologia representada pelo muro que separa público e banda. É uma interrogação que fica à imaginação de cada um.
- O que pensa do filme ‘The Wall’?
– Acho que é uma obra poderosa. Tão poderosa que quase extravasa o seu poder. Acho difícil vê-lo de princípio a fim. Não é algo que tente muitas vezes, mas acho a animação de Gerry Scarfe extraordinária. Alan Parker (realizador) é um cineasta muito completo. Mas acho que falta (ao filme) alguma humanidade. Acho que foi um bom esforço, Geldof esteve óptimo. É um filme estranho mas muito poderoso em algumas cenas.
- A segunda parte do espectáculo arranca com ‘Hey You’. Como é para um artista estar com 20 mil pessoas em frente? Ainda tenta chegar ao tipo que está lá ao fundo, ‘hey you’?
– Não sei. Acho que foi por essa razão que projectei este show em primeiro lugar, porque no passado fiquei afectado por fazer concertos em estádio em frente a dezenas de milhar de pessoas que, sentia, não estavam ali comprometidos do mesmo modo que eu. E por uma razão ou outra, talvez por causa deles ou de mim mesmo, nessa altura pensei em criar um show onde erguia um muro para expressar o sentimento de alienação que sentia por parte da audiência. Porque alguns tipos que vão aos concertos de estádio, e estou convencido de que ainda existem, eles vão por que é a coisa certa a fazer, e depois embebedam-se e andam por ali a partir garrafas, não se calam, gritam...essas coisas sem sentido que nos perturbam a todos.
- Em ‘Nobody’s Home’ vai usar aquele quarto?
– Sim.
- Com TV e tudo?
– Sim. Bom... é um quarto de hotel que construímos numa falsa perspectiva e que fica numa secção do muro e eu canto o tema sentado numa cadeira. É um número um pouco teatral. Gostei dele no show original e por isso vamos voltar a fazê-lo.
- Uma das canções mais emblemáticas é ‘Comfortably Numb’ É baseada num episódio que lhe aconteceu, certo?
– Yeah. Foi em Filadélfia há muitos anos, eu estava com dores horríveis de estômago e pensei que não iria conseguir fazer o espectáculo. Chamei o médico do hotel e ele disse: ‘podemos ultrapassar isso com uma injecção’, e eu não tinha ideia do que era...mas fiquei nas nuvens e tive de fazer o concerto todo assim, mal me conseguia mexer. Foi uma sensação estranha mas foi o click que me levou a escrever essa canção. Eu nunca tive de cancelar um show devido a doença, mas obviamente que os concertos são cancelados porque as pessoas adoecem. Já toquei doente, mas a adrenalina é uma droga incrível. Podemos estar ‘oh Deus, não consigo’, mas assim que se sobe a um palco a adrenalina começa a percorrer-nos o corpo e aguentamo-nos assim umas horas. Claro que no fim estamos todos partidos...
- ‘In the Flesh’ pode ser uma das canções mais perigosas para a audiência. Afinal canta ‘are there any queers in the theatre tonight get em up against the wall’...
– É sátira...
- Mas já teve algum problema com isso? É que apesar disso, as pessoas parecem gostar do tema, gostam de estar sob os holofotes
– Bom, acho que as pessoas entendem que se trata de sátira, ironia, e não tem nada de homofóbico ou racista.
- Nesta fase do show, Pink está perdido. Tornou-se um fascista e usa o poder do rock n’ roll para reunir as suas tropas, certo? Teve um colapso mental...
– É, passou-se e o seu lado negro emergiu.
- ‘The Trial’, como vai ser apresentada esta canção?
– Com a animação do show original e que entrou no filme, que foi trabalhada.
- Marionetas?
– Sim, há uma marioneta em ‘The Trial’ mas...não, não há marionetas no tema ...bom, na versão original tínhamos três projectores de 35 milímetros e projectávamos três imagens separadas no muro de 24 ou 25 metros. Desta vez vamos projectar as imagens num muro de 70 metros, porque a tecnologia mudou e hoje é possível fazê-lo. Por isso, tivemos de reeditar todo o material para caber no novo formato e resulta lindamente.
- Qual o tamanho do palco? Os tijolos têm a mesma dimensão da primeira produção?
– Sim, usamos o mesmo tamanho de tijolos. Têm cerca de 1,5 metros por 75 centímetros cada um.
- E vai ter operários a montá-los como antes?
– Sim, basicamente é o mesmo sistema.
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