Estes nutrientes são habitualmente obtidos no contexto de uma alimentação saudável e variada, através de alimentos como frutas e vegetais, peixes gordos, ovos, oleaginosas e sementes.
Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) desenvolveram um estudo, a que a Lusa teve esta quarta-feira acesso, que associou a falta de vitamina C e A a sintomas de hiperatividade e défice de atenção.
"Uma menor ingestão de nutrientes com propriedades antioxidantes e de gorduras saudáveis pode estar associada a sintomas comportamentais em crianças com Perturbação da Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA)", conclui o estudo publicado em março na revista científica European Child & Adolescent Psychiatry, da Springer Nature Group.
A equipa de investigadores, coordenada por Joana Ferreira Gomes, da FMUP, acompanhou 76 crianças, entre os 6 e os 10 anos, com diagnóstico de PHDA, previamente recrutadas no âmbito do projeto M2CHILD.
Um dos objetivos do estudo foi identificar padrões alimentares e analisar a potencial relação entre determinados nutrientes e os sintomas associados à perturbação.
A ingestão destes nutrientes foi avaliada através de um registo alimentar de três dias, preenchido pelos pais, e analisada com um programa especializado que estima a composição dos alimentos, incluindo vitaminas e minerais, com base em tabelas alimentares.
Os resultados indicam que as crianças com PHDA tinham um consumo significativamente menor de gorduras saudáveis -- monoinsaturadas e polinsaturadas -- e de vitamina C.
Em análises adicionais, a vitamina A e o selénio surgiram também associados a alguns sintomas, "embora estes resultados devam ser interpretados com prudência", considera a coordenadora da investigação.
"No nosso estudo, quantidades mais baixas de nutrientes específicos estiveram associadas a determinados sintomas. Verificámos, por exemplo, que um menor consumo de vitamina A se relacionava, de forma consistente, com maior desatenção, hiperatividade, impulsividade e problemas sociais", explica Joana Ferreira Gomes.
Segundo o estudo, níveis reduzidos de vitamina C estiveram associados a maior hiperatividade e impulsividade, enquanto níveis mais baixos de selénio relacionaram-se com mais queixas somáticas, dificuldades de pensamento, problemas sociais e comportamentos agressivos ou de oposição às regras.
Estes nutrientes são habitualmente obtidos no contexto de uma alimentação saudável e variada, através de alimentos como frutas e vegetais, peixes gordos, ovos, oleaginosas e sementes.
De acordo com a professora e investigadora da FMUP, estes resultados estão em linha com estudos internacionais.
"As nossas descobertas sugerem que as crianças com PHDA apresentam diferenças em alguns padrões nutricionais. Não é possível estabelecer uma relação de causa-efeito, mas essas diferenças podem ser uma consequência dos desafios comportamentais e de atenção característicos desta perturbação", explica.
Numa perspetiva clínica, Joana Ferreira Gomes alerta que "estes resultados não significam, por si só, que alterações alimentares produzam efeitos imediatos ou expressivos nos sintomas a nível individual, mas podem ajudar a orientar futuras investigações e contribuir para o desenvolvimento de estratégias nutricionais dirigidas, integradas numa abordagem multidisciplinar mais ampla da PHDA na infância".
Serão necessários mais estudos que explorem outros fatores potencialmente envolvidos nesta perturbação, incluindo questões socioeconómicas e culturais.
A PHDA é uma das perturbações do neurodesenvolvimento mais prevalentes na infância. Caracteriza-se por níveis inadequados de desatenção, impulsividade e hiperatividade, entre outras alterações, que afetam o dia a dia e a qualidade de vida das crianças e das suas famílias, envolvendo custos de saúde e sociais substanciais.
Trata-se, segundo os investigadores, de uma condição complexa, que resulta da interação entre fatores genéticos e ambientais, entre os quais a nutrição surge como um fator modificável potencialmente relevante.
Este estudo, pioneiro em Portugal na análise da relação entre padrões nutricionais e sintomas associados à PHDA em crianças, contou com a participação de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, do i3S -- Instituto de Investigação e Inovação em Saúde e da ULS São João.
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